Dragões de Éter Vol.1 – Caçadores de Bruxas


Título:
Dragões de Éter: Caçadores de Bruxas

Autor: Raphael Draccon

Ano de publicação: 2010 (primeira edição de 2007)

País de origem: Brasil

Editora: Leya – 438 páginas

Caçadores de Bruxas é o primeiro volume da trilogia de Raphael Draccon que se tornou um best-seller nacional daquele jeito mais conto-de-fada: com uma tiragem pequena na editora Planeta em 2007, o livro conseguiu ir se colocando na lista dos mais vendidos apenas com o boca a boca dos leitores empolgados. Nessa edição de 2010, há um material inédito e extensões da primeira edição, com prólogo do editor e epílogo do autor. É com certeza um grande feito da literatura nacional de fantasia (FantLit) que fez Draccon um ícone do gênero aqui no Brasil.

O livro cria um mundo imaginário chamado Nova Éter, em que os semi-deuses, por acreditarem que aquele mundo existe, o tornam possível. Caçadores de Bruxas é cheio de referências meta-ficcionais (ou seja, quando um livro reflete sobre o fato de que é um livro, com sua narrativa e personagens) em seu mundo que mescla diferentes planos de imaginação. Temos desde personagens de contos de fada como João e Maria e Chapeuzinho Vermelho, até a referência a bandas como Nirvana e poetas pré-românticos como William Blake.

O livro acompanha a história dos amigos Ariane Narin (a Chapeuzinho Vermelho) e João, e também de sua irmã, a inteligente Maria, que acaba se envolvendo com o príncipe de Arzallum, Axel Branford. A família Brandford, por sua vez, se vê em meio a um intriga política misturada com interesses pessoais que ameaçam a segurança de todos em Arzallum. Afinal, é hora de uma nova temporada de caça às bruxas. Ou será que não?

A grande qualidade do livro, no entanto, é mesmo o narrador que tem um estilo parecido com o da série Desventuras em Série. O efeito criado para a o leitor é de que algum bardo, um contador de histórias, está contando essa história nesse exato momento. E por conta disso, esse contador-narrador acaba se adiantando no tempo, fazendo comentários engraçados, criando efeitos interessantes para a história. Além disso, os capítulos super curtos dão a impressão de que estamos numa narrativa de cinema bem rápida (não é a toa, Draccon é um roteirista premiado) e todas as cenas do livro são dinâmicas e muito, mas muito imagéticas. O tipo de leitura que prende a atenção pelo dinamismo mesmo.

Pois é, mas o maior trunfo de Caçadores de Bruxas acaba sendo também seu maior defeito. As cenas super rápidas acabam se atropelando. Algumas partes ficaram simplesmente rápidas demais, às vezes tão rápidas, que parecem saídas de última hora. O livro usa e abusa do cliché, inclusive subverter o cliché dos contos de fada é justamente o objetivo da história toda, mas dá um tiro no pé quando mostra um cliché sem sua subverção e revolução. Exemplo? A cena de amor entre príncipe Anísio e a princesa Branca. Sem fundamento, sem preparação alguma, de repente eles só se amam para sempre. Como assim?

Outra coisa que me incomodou bastante foi o tratamento dado ao bem e o mal durante a história. O livro começa mostrando que bem e mal são uma questão de ponto de vista e que os dois estão sempre lutando para prevalecer. Ou seja, pra vovozinha comida pelo lobo, o lobo é mau, mas o lobo não é mau para ele mesmo, já que ele só estava se alimentando. Interessante. Até porque gosto de coisas ambíguas e nada no mundo é preto no branco, e histórias que mostram isso sempre ficam mais interessantes.

O problema é que Caçadores de Bruxas segura muito bem essa idéia do “mundo cinza” até o terceiro ato, quando tudo é simplesmente jogado pro alto e o cliché toma conta sem sua idéia revolucionária. Vira o cliché puro de sessão da tarde com seus “mocinhos” e “vilões” super bem delineados, frases de efeitos e malvadões sendo punidos por suas maldades e bonzinhos sendo coroados por suas bondades. Nada contra o velho cliché de bem contra o mal (e não é essa justamente a maior luta dos livros de fantasia?), mas eu acho que o livro começou prometendo uma coisa (o lance de que nada é somente bom ou mau) e terminou com outro (o bem vence o mal porque o mal é só mau). Eu fiquei muito revoltada com isso.

Eu diria que é um bom livro e uma experiência importante de leitura, dada aí a importância do livro no cenário nacional. Mas pessoalmente, achei que o livro se sabotou no fim quando atirou pro alto o que tinha de melhor e abraçou a idéia maniqueísta de bem e mal.

Dragões de Éter continua com os livros Círculos de Chuva e Corações de Neve. O site oficial da série pode ser acessado aqui e o site oficial do autor, aqui.

Curiosidade: esse livro encabeçou a lista dos mais vendidos da Submarino e ganhou um fandom (comunidade de fãs) próprio com direito a fanfics (histórias escritas por fãs) e tudo.

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

14 Responses to “Dragões de Éter Vol.1 – Caçadores de Bruxas”

  1. Nossa, o livro parece interessante! Eu não tenho nada contra clichés também, dizem que todas as histórias já foram contadas, o que importa é o jeito como se conta, hehehe, mas é chato mesmo quando um livro se propõe a algo no início e depois terminada indo para o lado oposto. Mas essa coisa das contos de fada me lembrou uma graphic novel que li, acho que chama “Fábulas”, que é muito legal, não deixa de ser uma proposta diferente. O duro é que realmente não gosto quando as coisas vão rápido demais…

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    • Sim, o que muda não é clihé, né, mas o jeito que se conta. E eu achei que esse livro se confundiu na proposta e se deu um tiro no pé no fim.

      Já ouvi falr dessa graphic novel sim. Mas não sei onde acho pra comprar, você poderia me indicar?

      Eu também não gosto de coisas indo rápido demais. Eu sou fã do drama e do conflito. hahaha

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  2. Oi Mel,
    Minha experiência com esse livro foi completamente diferente da sua! Engraçado é que a sua “especialização” em livros de fantasia te dá um olhar muito mais crítico do que o meu! rs…
    Agora que li sua resenha, até parei para pensar em algumas coisas…
    beijos
    Camis

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    • Camila, eu leio fantasia demais hahahaha. Não fiquei boa da cabeça. Mas é como eu comentei com você outro dia, quanto mais lemos, mais vamos ficando exigentes. Eu aposto que em “romance sobrenatural” (que é sua especialidade), você também já está bem mais crítica.

      bjs

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    • Rebeca, o livro é bem escrito e tem muitos bons momentos, mas é super cliché no fim. Se você gosta de histórias clichês, é uma boa pedida.

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  3. Adorei a resenha!! Muito bem fundamentada. Fiquei com a impressão que é um livro para passar o tempo, mas não para esperar grande coisa.
    Me interessou por ser literatura nacional.

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  4. Eu não consegui terminar essa saga. Minhas desculpas aos fãs, mas ainda bem que o preço pelo qual os comprei foi barato, porque de outra forma seria um gasto de dinheiro. São três livros grandes e cheios de personagens, mas a história anda menos que um paralítico, além de não ter nenhum objetivo concreto além de citar a existência de personagens de diferentes histórias no mesmo mundo. Draccon ganharia muito dinheiro e perderia muito menos tempo se fizesse essa história em HQ ao invés de livros.

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    • Melissa de Sá

      Guilherme, eu tive exatamente a MESMA sensação que você. Ainda bem que comprei o livro numa promoção, porque se tivesse pagado caro eu teria ficado muito chateada. Não animei a ler os outros dois livros justamente por essa característica que você falou: parece que tudo existe lá pra dizer que os personagens de contos de fadas vivem no mesmo universo. E além disso, achei a história extremamente cliché e sem foco. Não me cativou mesmo. Okay, ele é um best-seller nacional, mas tem horas que me pergunto porquê… Sei que ele tem vários fãs. Vai entender…

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