Coraline [Coraline]

Título: Coraline
Título no Brasil: Coraline
Autor: Neil Gaiman
Ano de publicação: 2002
País de origem: Inglaterra
Editora: Bloomsbury– 185 páginas (no Brasil, publicação pela Rocco com 192 páginas)

Nessa novela (grande demais para ser um conto, pequena demais para ser um romance) sinistra e assustadora, Neil Gaiman consegue entrar no universo infantil e suas referências ao mesmo tempo que vai tecendo uma história inesquecível e perturbadora. Através da protagonista Coraline, uma garotinha que já é velha demais pra brincar de bonecas mas nova demais para entender os adultos, o leitor entra num mundo de ilusões e sonhos onde nada é o que parece ser. E claro, dá pra morrer de medo.

Coraline é um livro de leitura bastante rápida, mas também muito impactante. Ao contrário do que o senso comum faz pensar, não é um livro infantil, apesar de poder ser lido por crianças também (mas suspeito que elas ficariam com muito, muito medo). A história nos apresenta Coraline Jones, uma garota esperta, corajosa e curiosa que encontra uma misteriosa porta em sua casa. A mãe de Coraline diz que a porta não leva a lugar nenhum, somente a uma parede fechada. Mas em um dia em que encontra a porta aberta, Coraline não resiste em dar uma espiada e vai parar em sua outra casa. Uma casa exatamente igual a sua. Mas com comida melhor e mais diversão. E também mais perigos.

É importante dizer que esse é um livro mais fantástico que de fantasia. É importante saber a diferença entre os dois. Infelizmente, as editoras brasileiras insistem em utilizar os nomes errados. Não, A Guerra dos Tronos não é ficção fantástica, é fantasia. O Senhor dos Aneis é fantasia. Mesma coisa com os livros do Raphael Draccon. O problema é que no Brasil, o nome “fantasia” acabou sendo utilizado para literatura infant0-juvenil. Harry Potter pode ser fantasia, mas A Guerra dos Tronos, bah, isso é livro adulto, então não é fantasia. É fantástico. Mentira!

Um livro de fantasia pressupõe a criação de um mundo alternativo com alguma interferência do sobrenatural/magia. Esse mundo possui regras próprias, uma história própria e razões de ser. Esse mundo pode ter ou não ligações com o mundo comum (o “nosso mundo”). Por exemplo, em A Guerra dos Tronos não há qualquer ligação, nem O Senhor dos Aneis. Já Harry Potter o mundo alternativo coexiste com o mundo corriqueiro, em segredo, enquanto que em A Torre Negra e As Crônicas de Nárnia, há passagens que levam pessoas do nosso mundo para o outro mundo alternativo.

Já um livro fantástico aborda outra coisa. O fantástico não apresenta qualquer explicação, as coisas simplesmente acontecem. Não há regras, não há história, não há criação de mitologia nem razões de ser. De repente o personagem entra num mundo mágico (ou em mundo estranho e diferente, não necessarimanete mágico) sem pé nem cabeça e passa por uma experiência fantástica. Pronto. Explicação zero. Só experiência. Escritores de livros fantásticos: Machado de Assis (em alguns contos), Murilo Rubião, Neil Gaiman (apesar de ele escrever fantasia também) e Júlio Verne, pra citar alguns.

Entederam a diferença entre fantasia e fantástico? Então por favor, vamos usar o termo correto pra falar das coisas. O que isso vai mudar na sua vida? Bem, vai fazer você usar o termo correto. São conceitos diferentes que devem ser usados para coisas diferentes. Essa coisa de que livro de fantasia é coisa de criança infelizmente só existe aqui no Brasil e precisamos combater essa ideia. Usar a palavra “fantástico” pra tentar fazer soar mais sério é um erro.

Então, Coraline é um livro com elementos mais fantásticos. É uma experiência um tanto assustadora que vai agradar leitores que não exigem explicações nos mínimos detalhes. Pessoalmente, não senti tanto medo, mas acho que é porque já tinha visto o filme. No entanto, as cenas que não estavam no filme realmente me deram medo. Muito medo. Sério. Recomendado!

Em 2009, como já mencionei, essa história virou um filme de animação stop-motion. No Brasil ganhou o nome brega de Coraline e o Mundo Secreto. Vale a pena ver também!

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

13 Responses to “Coraline [Coraline]”

  1. Karen Alvares

    Mel, eu adorei a resenha (e a explicação da diferença entre fantástico e fantasia). Eu já tinha uma leve desconfiança e desejo de ler esse livro, mas agora quero muito mais lê-lo. Ainda mais porque você disse que é assustador. =D

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    • Que bom que gostei. Acabou ficando um post teórico, mas esse é um assunto que eu queria falar já a um tempo. É uma confusão de termos que me estressa muito, sabe!

      Eu acho que você vai gostar de Coraline. É tipo uma história infantil perturbadora. E eu acho que o Neil Gaiman é ótimo, ele parece que dá droga pro leitor… hahahahaaha

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  2. Também adoro Neil Gaiman, li American Gods que é maravihoso. Aliás o livro é considerado Fantasia tb rsrsrsrsrs
    Parabéns pelo post que ficou ótimo. Realmente o pessoal confunde muito o termo fantasia. Livros iguais O Senhor dos Aneis e A Guerra dos Tronos são classificados como Fantasia Épica ou Alta Fantasia, o que os diferencia do tipo de fantasia dos livros de Harry Potter.

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    • Eu já gostava do Neil Gaiman por conta de Stardust, mas achei Coraline ótimo. Recomendo.

      Quanto a essa coisa de fantástico e fantasia, e as categorias da fantasia é uma complicação que as editoras só fazem piorar.

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  3. Eu li esse livro em uma noite de insônia (!). Foi uma experiência muito legal, porque eu comecei a ficar com medo, e parecia que tinha mesmo mergulhado no mundo da Coraline. Adoro o Neil Gaiman, acho as coisas que ele cria muito legais.

    Ficou mesmo muito bom o post com essa diferenciação entre fantasia e fantástico! Muito importante saber.

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    • Eu imagino que ler esse livro numa noite de insônia deve ser mesmo apavorante! hahahahaha

      Pois é, o Gaiman cria coisas incríveis, né?

      Que bom que gostou do post teórico. Mas é que uma coisa importante, mas que ninguém presta atenção.

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  4. Só tenho a agradecer pela otima explicação, nunca mais esqueço. É dificil entender como uma pessoa que realmente gosta de ler pode ter preconceito com uma historia, ninguém é obrigado a ler algo que não lhe interessa, mas fazer isso por que considera um livro infantil é bobagem. Esses dias eu li Emily the strange, a protagonista tem apenas 13 anos mais é super perspicaz e filosofa bastante, e eu tinha medo de a historia ser infantil, viu só essas coisas acontecem e me surpreendi muito com uma historia muito boa e divertida. Eu já vi o filme de Coraline, mas nem sabia que era livro (mais um para a lista), eu tenho a qui em casa do Neil, Coisas frageis que ainda não tive a oportunidade de ler por ter algumas coisas para ler na frente. Bjs

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    • Pois é, Ju, ainda tem muito preconceito com livros de fantasia por aí. Muita gente acha que todos são livros infantis! Inclusive já vi livro inapropriado para crianças como “A Torre Negra” em pratileira infanto-juvenil! Um absurdo!

      E tem livros infantis geniais. Eu super recomendo a série “Desventuras em Série”. Sensacional. Vou dar uma olha nesse “Emily the strange”. O nome me deixou curiosa!

      Eu adorei o jeito de escrever do Neil Gaiman! É bastante criativo e dá uns sustos na gente…

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  5. Oi Mel,
    Adorei a explicação terminológica!
    Eu sempre tenho dúvida!! Na verdade sou péssima para classificar qualquer gênero de livro, então me limito ao gostei, não gostei, não li ainda!! hehehehe
    Estou com alguns livros do Gaiman na estante, mas ainda não consegui ler nenhum deles, acredita!! Na verdade eu fico dando uma enrolada básica porque acho que vou ficar com medo!! hehe
    Já vi o Coraline algumas vezes, inclusive com uma capa mais bonitinha, mas ainda preciso ler e ver se gosto da escrita do Gaiman, antes de sair comprando outros livros dele!!
    beijos
    Camis

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    • Camila, eu acho que classificar nem é tão importante, mas é que essa confusão que as editoras brasileiras fizeram com essa coisa de fantástico/fantasia me deu nos nervos. E como estudo essa área, achei que seria legal abrir um parênteses e explicar. Espero que não tenha ficado chato.

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