Entrevista com Ana Lúcia Merege

Ana Lúcia Merege aceitou, super simpática, responder a perguntas enviadas por leitores do blog e pela equipe do Livros de Fantasia. Nessa entrevista ela vai falar um pouco sobre sua trajetória como escritora, comentar sua personagem mais famosa, a Anna de Bryke, de O Castelo das Águias, e discutir um pouco o cenário dos livros de fantasia atualmente.

Quem enviou perguntas e seguiu o regulamento direitinho, ganhou dois marcadores de livros da Ana! E quem ganhou foi: Karen Alvares e Alvaro (Pai Nerd). Por favor, me enviem o endereço de vocês por e-mail para que eu mande os marcadores.

Só pra recapitular: Ana Lúcia Merege é autora de diversos livros de fantasia, sendo o mais famoso deles, O Castelo das Águias, publicado pela editora Draco. É dela também Pão e Arte (Editora Escrita Fina, 2012), O Caçador (Franco Editora, 2009), O Jogo do Equilíbrio (Fábrica do Livro, 2005) e o ensaio Os Contos de Fadas (Claridade, 2010); além contribuições em antologias de contos.

as relações humanas estão sempre em primeiro plano, ou quase sempre.  No fundo é disso que trata a literatura, não é?

Venha conhecer mais sobre a Ana Lúcia Merege, essa figura super agradável e simpática, e o universo de Athelgard!

1. Olá Ana Lúcia, primeiramente parabenizo pela iniciativa em escrever livros de fantasia. Minha primeira pergunta se refere ao ato de escrever esse gênero literário. Que te levou a escrever livros de fantasia, ou ainda, em sua opinião, qual a importância desses livros em nossa vida? (Anderson Borges, Lindy Hopiando)

 Oi, Anderson, muito obrigada. Olha, a opção primeiro foi por escrever, no início poemas e histórias soltas sem início nem fim. O gênero foi se definindo de acordo com o que eu ia imaginando e, claro, com as influências às quais todo escritor está sujeito. Acredito que escrevemos o que gostamos de ler e do jeito como gostamos de ler. O jeito vai se aprimorando e a escrita vai ficando com a nossa cara, mas o conteúdo e o gênero podem mudar ou não. No meu caso foram poemas, tentativas de contos e romances históricos e por fim fantasia. Acho que esse gênero mexe profundamente com seus leitores, pois , assim como contos de fadas, trabalha com arquétipos, com a jornada do herói, com a projeção de um “eu” melhor e mais heroico. Agora, uma coisa: eu comecei a escrever muito jovem, não existia internet, não se falava de fantasia como gênero no Brasil, ou pelo menos não que eu soubesse. Eu escrevia o que gostava de ler sem a consciência de estar fazendo literatura de gênero, coisa que hoje os autores costumam ter. Talvez por isso não veja muita importância no rótulo: estamos fazendo literatura e querendo que seja boa, que seja lida, que chegue ao público, independente de ser fantasia ou não.

2. Ana, Athelgard é um cenário muito especial, com seus saltimbancos e magia criada pelo poder da palavra. Gostaria de saber quais foram suas principais influências para criar essa ambientação, e também saber qual foi sua principal inspiração para criar a Anna de Bryke, minha personagem favorita de O Castelo das Águias! (Liége Báccaro Toledo, O Enigma da Lua)
“O Castelo das Águias” é o título mais proeminente de Ana Lúcia Merege até agora.

Liège, as histórias de Athelgard foram surgindo aqui e ali antes que eu pensasse em agrupar tudo numa terra só. Nessa terra há referências de muita coisa – História, Magia, Mitologia – mas, principalmente, Mitologia Nórdica, pois as pessoas em Athelgard descendem de povos como os elfos e os vanir e veem os deuses nórdicos como heróis míticos. Há um pouco de vários povos, como você pode perceber ao visitar os recantos de Athelgard. Inclusive há nativos americanos, que inspiraram o povo da Anna. Eu queria que fosse um alter-ego meu, só que mais jovem e mais corajosa: uma contadora de histórias com um temperamento conciliador, que conseguisse  o que quer pela palavra e pela negociação.Adicionei umas coisas típicas de elfo da floresta, outras de bardo, mas eu acho que ela se destaca mesmo por esse jeito estratégico de ser.

3. O gênero fantasia foi, durante muito tempo, dominado por homens. Os livros eram escritos por homens e tinham como protagonistas personagens masculinos. Essa maré começou a mudar bastante nos últimos quinze anos. Em O Castelo das Águias, você coloca uma protagonista feminina. Você acha que existe alguma diferença entre um livro protagonizado por uma personagem feminina ou masculina? Você acha que isso cria uma diferença no público alvo do livro?

Para mim a diferença não está na protagonista feminina, mas no enfoque dado ao romance. Um livro com romance como tema central atrai mais leitoras que leitores, isso é fato. Vamos ver se o segundo, narrado por Kieran, equilibra mais as coisas.

 4. Atualmente vemos surgir no mercado editorial livros que apostam em certos “tipos”. Isso acontece bastante com protagonistas femininas, que muitas vezes caem em dois “tipos”: as frágeis e desajeitadas ou as super fortes e decididas. Por conta disso, muitos leitores vêm com visões pré-moldadas sobre personagens femininas ao ler os livros e encontram resistência quando não acham esses “tipos” em alguns livros. Como você lida e como tem sido a recepção da sua personagem, Anna de Bryke (protagonista de O Castelo das Águias), que foge bastante desse padrão?

A Anna vem sendo muito criticada justamente por conta dessas expectativas, mas acho que o principal problema é que, no livro 1, muitas vezes ela não é a protagonista em cena. Ela é uma mestra de sagas narrando a história na qual o protagonista, geralmente, é Kieran, por quem ela está apaixonada. E como apaixonada, e adolescente, eu acho que é natural às vezes ela parecer meio boba ao falar dele, mas isso também foi criticado. Engraçado é que muita gente me disse que achou a personagem supercoerente com a idade e a situação: nem Bella nem Katniss, mas uma pessoa de verdade, amando, crescendo e aprendendo.

Agora, quem não gostou dela por achar que é parada, que é passiva, vai gostar do livro 2, por uma das duas razões: porque ela aparece menos e porque, quando aparece, dá para ver que adquiriu outra postura com a experiência. É esperar para ver.

5. Como você vê a questão do romance entre personagens na fantasia? Como você costuma trabalhar essa questão nos seus livros?
“Pão e Arte” também é ambientado no universo de Athelgard.

Eu acho que surge naturalmente. Você imagina histórias com romance, histórias sem romance, histórias com romance onde este é o foco principal… Todos os meus livros têm romance, até o Pão e Arte, embora ali ele esteja no pano de fundo, pois é narrado por um menino muito novo. O Castelo das Águias enfatiza o romance entre Anna e Kieran, o que continuará nos próximos livros da série, mas em O Caçador e O Jogo do Equilíbrio vemos o amor como motivação para que o personagem se supere. Alguns contos meus não têm romance, mas as relações humanas estão sempre em primeiro plano, ou quase sempre.  No fundo é disso que trata a literatura, não é?

6. Outra pergunta que, provavelmente, deve te visitar constantemente é a seguinte: considerando o universo da fantasia de inspiração medieval pós-George R. R. Martin, que você pensa sobre a excessiva violência utilizada por muitos autores atuais na construção desse imaginário? ( Anderson Borges, Lindy Hopiando)

Acho que as pessoas querem passar uma ideia de “se é medievel, então é sujo, sexual e sangrento”. Martin faz isso assim como Bernard Cornwell. Eu sou fã dos dois, mas sim, algumas vezes acho que há um excesso de violência, que isso é desnecessário e frequentemente nada acrescenta. Mas não tenho problema em ler, como não tive problema em escrever cenas um pouco mais sombrias em antologias de que participei, como “Martelo das Bruxas”, da Ed. Argonautas. Já a série do Castelo é para jovens e jovens adultos, então sexo e violência existem, mas são tratados de forma sutil. Não superficial: sutil. Aí vai uma grande diferença.

7. Ana, todos nós sabemos o quanto é difícil publicar aqui no nosso país. Gostaria muito de saber qual foi sua maior dificuldade para publicar aqui no Brasil e também como foi esse processo entre procurar uma editora e conseguir a tão sonhada publicação, o que você fez, como se sentiu etc. E se você tem alguma dica para os escritores iniciantes que estão tentando entrar no mercado. E, claro, parabéns e sucesso sempre! (Karen Alvares, Papel e Palavras)
“O Caçador”, primeiro livro da escritora, entra no universo da Branca de Neve por um outro ponto de vista…

Tive uma sorte danada, Karen. Depois de ter meu livro “O Caçador” recusado por várias editoras, fiz uma edição independente que chegou às mãos do editor Fernando Franco, de Juiz de Fora. Ele se interessou pelo livro e o republicou, e depois aconteceu o mesmo com o de não-ficção, “Os Contos de Fadas”, pela Editora Claridade. Já O Castelo das Águias se deve a uma porta aberta pelos contatos que fiz na rede. Eles me levaram a ser convidada para uma antologia, cujo editor, Erick Santos, estava começando a entrar no mercado com a Draco. O Erick perguntou se tinha romance para publicar, eu tinha, mandei o Castelo – e aí começou um processo de reconstrução, pois fizemos todo um trabalho em cima do livro que levou a mudanças não só no texto, mas a minha maneira de encarar a carreira de escritora.

A consciência que adquiri nesse processo é a dica que dou a vocês. Querem ser escritores mesmo ou só publicar um conto aqui e outro ali? Estão sabendo que nem todo mundo fica famoso, nem todo livro dá grana, os críticos caem de pau e o seu livro talvez não seja tão bom quanto você achava? Se quiser mesmo isso, então é trabalhar duro, pesquisar muito, fazer contatos na rede, ficar de olho em antologias abertas, procurar outros escritores com quem debater, acreditar em seu trabalho e ao mesmo tempo ser humilde. Ah, e escrever sobre o que gosta, claro que tentando encontrar sua própria voz. Não interessa se o que está na moda é zumbi. Se você gosta de elfo, escreva história de elfo. Prometo que pelo menos eu vou ler.

8. Gostaria de saber um pouco sobre sua trajetória até chegar ao primeiro livro impresso. Normalmente isso que preocupa a maioria dos escritores que estão iniciando e tem pouco conhecimento do labirinto que é entre a nossa escrivaninha e a mesa do editor interessado em publicar. Depois o segundo passo, que e´uma vez o livro impresso, a divulgação. Sei que você é bastante atuante e participante e tem uma boa imagem junto a nós, seus pares e aos leitores. Mas, como fazer com que o livro chegue às mãos do leitor realmente interessado? (Sei que não basta confiar no marketing da editora e dos livreiros). Um grande abraço e desejo de sucesso! (Álvaro – Pai Nerd)

Álvaro, isso é muito complicado, muito mesmo. Eu mantenho há dez anos o meu blog, A Estante Mágica de Ana, com artigos sobre Mitologia e Literatura que são procurados por pesquisadores, e muita gente vem a saber do meu trabalho por lá. Também procuro estar atuante na rede e no meu trabalho, na Biblioteca Nacional – dei cursos na Casa da Leitura e conheci algumas pessoas na área da Educação, que para autor de juvenil são muito importantes. Publico artigos na Ciência Hoje das Crianças e em outras revistas, dou palestras em escolas, em eventos… Ou seja, tento aparecer dentro de meios onde há leitores e estímulo à leitura e torço para que o boca-a-boca aja a meu favor. Quanto às editoras, seu marketing é diferenciado: a Franco tem divulgadores em escolas e aparece pouco na rede, já a Draco faz muito marketing em rede e investe em e-books… Ambas as coisas são boas à sua maneira, mas de fato não bastam, é preciso o autor definir seu público-alvo e tentar se inserir ali de alguma forma. Fica difícil, não temos cultura literária no Brasil, mas na verdade em todo lugar existem dificuldades. Não podemos desanimar.

“O Jogo do Equilíbrio”: um dos contos da autora que é vendido separadamente no formato ebook.
9. Como você vê a proliferação dos ebooks no Brasil? Você já sentiu o impacto desse novo meio de ler livros no seu trabalho?

O mercado só faz crescer. Eu acho ótimo, a tendência é termos algumas obras apenas em e-book, mas isso é bom também. Os meios se transformam, o importante é que as pessoas leiam, escrevam e compartilhem!

10. Você participa de várias antologias, inclusive como organizadora. Gostaria de saber como foi esse seu envolvimento com antologias de contos e como você se organiza para escrever contos do universo Athelgard. Pra você, é muito diferente escrever um romance longo e escrever um conto?

Acho que a ideia dos contos, das antologias, foi meio que um prolongamento das ideias que tenho para escrever. A gente curte um universo – o arturiano por exemplo, da Excalibur (antologia da Draco) – e vem a vontade de partilhar com outros, de criar alguma coisa que seja mais plena, que ofereça mais perspectivas do que somente a sua. Aí você idealiza algo e leva em frente.

Quanto ao universo de Athelgard, atualmente eu tenho mil notas sobre ele, mas ainda há muito espaço para criação. Até que sou uma escritora disciplinada, estabeleço um cronograma de acordo com as prioridades e em geral consigo cumpri-lo, principalmente em se tratando dos livros de Athelgard.

A estrutura dos contos e romances é diferente. No conto é preciso dizer tudo em palavras precisas, o romance oferece mais espaço para o desenvolvimento, mas é preciso cuidado para não ser prolixo. Eu tenho mais facilidade com textos longos, principalmente de Athelgard, pois as histórias se ramificam, sempre tenho algo a dizer a mais a respeito do lugar, do personagem. Mas tenho treinado contos mais curtos e acho que alguns ficaram bem legais.

11. Algum recado que você queira deixar pros leitores do Livros de Fantasia.

Vocês estão em boa companhia, a fantasia existe desde as primeiras mitologias e nos ajuda a sonhar e a mudar o mundo. Leiam de tudo, mas continuem apostando na fantasia, ainda temos muitas histórias para contar!

*

Agradeço imensamente a todos que enviaram perguntas e contribuíram para que essa entrevista fosse tão interessante e instigante. Como eu sempre digo, são vocês, leitores, que fazem esse blog ser o que é. 🙂 Também agradeço à Ana, que topou fazer essa entrevista. Além de escritora talentosa e dedicada, ela também é uma amor de pessoa.

Quem ficou interessado em adquirir um livro da Ana Lúcia Merege, é só clicar no nosso Projeto Novos Livros de Fantasia e procurar pelo nome do livro. Logo abaixo, vocês vão encontrar links de locais de compra.

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

7 Responses to “Entrevista com Ana Lúcia Merege”

  1. Karen Alvares

    A entrevista ficou realmente instigante. Parabéns a você, Mel, que organizou tudo isso e, principalmente, parabéns à Ana, que além de ser uma escritora talentosa, é também muito bacana! 🙂
    Fiquei muito feliz por ver minha pergunta respondida e também porque as outras perguntas foram muito boas! Reli várias vezes a resposta da Ana à minha pergunta e percebi que tudo o que ela falou é exatamente o que eu quero (exceto a parte dos elfos… gosto de ler sobre eles, mas não consigo escrevê-los rs).
    E eu ganhei marcadores!!! Vou agora mesmo enviar meu endereço! 😀

    Responder
    • Melissa de Sá

      Ah, que bom que gostou. 🙂

      Eu adorei a entrevista e realmente achei que as respostas fizeram pensar em muita coisa. Foram respostas muito sinceras sobre assuntos bem espinhosos.

      Responder
    • Melissa de Sá

      Ana, nós que adoramos a sua participação! Foi com certeza um dos posts mais instigantes já publicados aqui no blog.

      Responder
  2. Camila - Leitora Compulsiva

    Mel, parabéns pela entrevista!!
    Adoro conhecer mais sobre os escritores!!
    beijos
    Camis

    Responder
  3. Adorei a entrevista! As questões sobre personagens femininas e sobre a violência no gênero fantasia foram muito legais.

    Eu acho interessante isso, porque eu gosto muito da Anna de Bryke exatamente por sair desse padrão Bella/Katniss. Até para escrever o meu livro estou tentando me espelhar um pouco no que a Ana fez e equilibrar mais as meninas, para que fiquem verossímeis. Eu acho que é super difícil fazer isso, porque personagens femininas tendem a cair em estereótipos mais facilmente :(, embora muitas vezes os masculinos também caiam naquele estereótipo de galã-herói (e o Kieran também é bem diferente nesse sentido). Enfim, parabéns, Ana, pelas respostas, e Melissa, por ter conduzido a entrevista tão bem!

    Ah, e obrigada por ter selecionado minha pergunta, Melissa!! o/

    Responder
    • Melissa de Sá

      Liége,

      Que nada, a sua pergunta foi super legal! Que bom que gostou do resultado da entrevista, eu também achei que ficou super interessante.

      Obrigada por contribuir!

      Responder

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