Outras Mídias: Enrolados (ou donzelas querem estar em perigo)

Título: Enrolados

Título Original: Tangled

Direção: Byron Howard e Nathan Greno

País de Origem: Estados Unidos

Ano: 2011

Duração: 100 min

Enrolados é nada mais nada menos que a adaptação da Disney para Rapunzel, o único conto de fadas de princesa que ainda não tinha ido pra telona. O filme é um retorno clássico ao musical de princesa: seres bonitinhos que ajudam a princesa, alguma cantoria, um cara galante pra… salvar? Ah, não, Rapunzel não quer ser salva. Na verdade, o que ela quer mesmo é ir direto pro perigo. 

No último fim de semana, reassisti Enrolados com minha sobrinha e meu esposo. Esposo não tinha visto o filme ainda e minha sobrinha já tinha visto tantas vezes que, é óbvio, queria ver de novo. Na empreitada, eu acabei me lembrando o que porquê tinha achado a coisa toda tão boa da primeira vez. Veja bem, eu tenho uma questão pessoal com esse filme (alegoria da vida, sabe como é) e tinha chorado horrores no cinema (mas eu sempre choro, então…). O que me impedia de rever era mesmo aquela dublagem maldita que o Luciano Hulck fez do Flynn (quem teve a ideia de colocar aquele homem inexpressivo pra dublar alguma coisa?)… Mas dessa vez tínhamos o DVD em mãos e assistimos no audio original (minha sobrinha achou o máximo ver todo mundo falando em inglês).

A garota com a frigideira…

Não é de hoje que a Disney tem retratado suas princesas de uma forma menos mi mi mi. Tirando aquele experimento horroroso metade animação e metade filme que foi Encantada (jura que tem uma música chamada “como vai saber que ele te ama?”), desde Mulan temos visto as mulheres pegando no pesado e indo salvar seus próprios mundos. Em A Princesa e o Sapo, a princesa do título é uma garota que trabalha duro para realizar seu sonho e abrir seu próprio restaurante e  Merida em Valente é melhor que o Legolas no arco e flecha.

Enrolados, no entanto, é algo no mínimo interessante. De início, presa numa torre, uma princesa perdida sem saber, Rapunzel se parece muito com uma princesa clássica (Cinderella, Branca de Neve, Ariel…): ela é inocente, tem amigos bichinhos fofos, arruma a casa toda, pinta, borda, é educada e boazinha. Mas logo percebemos alguns traços diferentes nela: Rapunzel é engraçada, criativa e quer sair pra ver o mundo lá fora.

Mas veja que quando eu digo “quer sair pra ver o mundo lá fora” não estou dizendo que ela está indo atrás de um cara que ela não conhece (alô, Princesa Ariel, sua doente!), estou dizendo que ela quer mesmo sair por conta própria e ver o mundo lá fora. Essa é uma das coisas mais legais de Enrolados: Rapunzel faz as coisas por conta dela, não porque está apaixonada. O envolvimento amoroso não é o que move as ações dela e a história toda. Pelo contrário, o romance é consequência.

O relacionamento amoroso é consequência, não o motivo de todas as ações da princesa…

Quando Flynn Ryder aparece na jogada, Rapunzel se aproveita da situação para realizar seu sonho: sair da torre e ir ver as luzes no céu (putz, a menina fez uma carta estelar só pra ver que as luzes só apareciam no dia do aniversário dela!). Ela não cai na lábia de Flynn, pelo contrário, é ela que vai desmascarando o cara. Mas nada no sentido “mulheres mudam homens através do amor”. Rapunzel não faz praticamente nada: ela faz o que quer e vai atrás de seus sonhos e Flynn simplesmente sente o impacto de tudo isso. Quando os dois eventualmente se apaixonam, ele próprio já caminhou em sua jornada ruma à mudança. Nenhum idealismo amoroso.

O filme, claro, brinca com vários clichés dos filmes de princesas mas o mais legal é mesmo esse empowerment que a princesa tem. É Rapunzel quem salva Flynn e não o contrário. No fim das contas, o beijo do verdadeiro amor é dado por ela e não por ele. Sem contar que Rapunzel é quem se safa de todas as situações bizarras que acontecem no filme. Engraçado, é que ela faz tudo isso sem usar muito o poder que tem (o cabelo mágico): na maioria das vezes ela usa a própria esperteza pra sair da situação.

No entanto, Rapunzel não foi tratada como uma machona no filme. Ela faz as coisas acontecerem, mas não é nenhuma Katniss. Pelo contrário. Ela é fofa, meio estabanada, um tanto inocente… mas também é esperta, inteligente e pro-ativa. Ooooooooopa, Rapunzel parece ser uma garota de verdade!

Pra mim, esse é o grande ganho do filme. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Rapunzel é uma garota com inseguranças e medos, com qualidades e defeitos. Ela é muito parecida com várias garotas por aí e talvez por isso o filme seja tão cativante. Talvez por isso a Disney tenha se decidido por chamar o filme de Enrolados e não de Rapunzel. Afinal, não é um filme de princesas clássico. É um filme sobre uma garota que quer ir de encontro ao perigo e a seus sonhos pra entender quem realmente é. Como todas nós.

Vai aí o trailer de Enrolados na versão original. Porque eu me recuso a linkar qualquer coisa que tenha sido dublada pelo Luciano Hulck.

Legal que já no trailer vemos essa inversão entre príncipe e princesa. Inclusive, a música “Trouble”, da Pink, tocando no fundo, já nos dá uma ideia do que esperar da Rapunzel.

Ah, e claro, como todo filme da Disney, esse filme tem músicas inesquecíveis.

O que vocês acharam desse filme?

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

21 Responses to “Outras Mídias: Enrolados (ou donzelas querem estar em perigo)”

  1. Karen Alvares

    Ah, deu vontade de ver! Foge completamente do clássico principe-salva-princesa. Gostei muito do trailer também! xD Vou baixar!!!

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  2. Ana Lúcia Merege

    Eu gostei! Tem até um cara como eu, que coleciona unicórnios… 🙂

    Sério, Rapunzel é o tipo de heroína que eu gosto, tem suas próprias motivações masssssss tem também a bondade, o idealismo e a ingenuidade inerentes a uma adolescente. Ainda mais uma que nunca saiu da torre (ou de uma comunidade protegida, como a Anna de Bryke – aliás elas têm traços em comum, não têm, Melissa?) . Já o cavalo me lembrou o Altivo de Caminho para Eldorado, onde os heróis são trapaceiros de bom coração como o Flynn. A animação é muito boa, vale a pena ver!

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    • Melissa de Sá

      Ana,

      Sim, realmente a Rapunzel parece com a Anna. Acho que as duas são jovens comuns: elas têm coragem mas também têm seus receios. E ainda tem a questão de elas serem conciliadoras: a Rapunzel resolve os conflitos sem brigar, né? Aquela cena em que ela acalma os caras da na taverna é um ótimo exemplo disso.

      Eu gosto do Flynn também e ele é realmente parecido com o Altivo. 🙂

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      • Ana Lúcia Merege

        Exato, conciliadora é a palavra.

        O cavalo, cujo nome esqueci, parece com o Altivo; o Flynn parece com o Tulio, né? Sendo que o Tulio é histérico, tem cara de espanhol e é dublado pelo Guilherme Briggs! 🙂

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        • Melissa de Sá

          O cavalo é o Max. E blé, eu me confundi no comentário. Eu acho o Túlio muito histérico mesmo. O Flynn é mais metido que histérico. Pelo menos inicialmente.

          Até a briga da Rapunzel com a mãe é mais conciliadora. Primeiro ela tenta conversar e mesmo quando tudo dá errado, ela faz um acordo com a bruxa, tranquilamente, sem briga e sem exageros.

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    • Melissa de Sá

      Ana, essa tela aqui tá uma coisa muito chata, esse fim de semana vou mudar a template. Eu descobri que é o update da própria template que tá fazendo isso e não tem jeito de mudar. Então eu vou trocar a template, né? Não dá pra continuar assim não.

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  3. Ah, eu gosto de Enrolados! Acho que essa reinvenção de Rapunzel foi muito bem bolada, embora eu entorte o nariz para mudanças de clássicos. Mas outro dia eu assisti Cinderela e… gente, que desenho sem sal!
    Quero dizer, o príncipe diz duas palavras O FILME TODO, não é nem ele que vai atrás da Cinderela e os dois estão perdidamente apaixonados depois do que? Duas horas juntos? O caso da Ariel também é estranho, se bem que mesmo antes ela queria conhecer o mundo dos humanos – mas a maior motivação foi mesmo o Eric… o.o”’
    Gostei da sua análise, Mel! Não tinha visto por esse ângulo ainda! Ah, e não gosto do filme Encantada, é muito chato! hahaha
    bjos

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    • Melissa de Sá

      Lucy,
      Acho que a última vez que assisti eu devia ter uns 10 anos. Nunca foi dos meus desenhos favoritos. Imagino que se eu assistir de novo, vou acabar morrendo de rir. Quer dizer, como assim o cara fala duas palavras e é amor eterno? Acabei vendo uma versão pequena no youtube http://www.youtube.com/watch?v=ggS61GeN-dA e é realmente chatinho.

      O filme Encantada é uma das coisas mais chatas que eu já vi e olha que podia ser bem interessante. Mas a Giselle é tão irritante e aquelas músicas são tão pedantes… ninguém aguenta!

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  4. Amanda Pavani

    Nossa, Enrolados é maravilhoso. Eu não vejo um defeito nesse desenho. As músicas são excelentes, especialmente mother knows best. Eu já estou decorando o filme… Mas tem uma coisa que me chamou à atenção no trailer: cês perceberam que tem cenas do trailer que não estão no filme? Tipo, ele nunca chega a dizer pra ela jogar os cabelos com aquela calma.

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    • Melissa de Sá

      Eu acho um absurdo esse filme não ter concorrido ao Oscar de animação. Injustiça total.

      É verdade, tem cenas que não tem no filme. Que coisa.

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  5. AAAAH, eu amo Enrolados!! AMO!!

    Concordo com o que você disse, Melissa, e, no fim, eu me identifiquei tanto com o filme que foi impossível não gostar. Basicamente vi minha adolescência retratada ali XD. Eu não sabia se ria ou chorava enquanto a madrastra cantava Mothers Knows Best, hahahaha.

    CAHAM, informações biográficas à parte, eu gosto bastante da personagem da Rapunzel. Ela é meiga, uma fofa mesmo, e mesmo assim o filme não a retrata como alguém bundona ou mole, ela faz as coisas, e do jeitinho dela. Outro ponto que me chamou bastante atenção foi o fato de que ela realmente parece uma adolescente, a aparência dela é condizente com a idade que tem, o que dificilmente acontece nos filmes da Disney.

    Gosto muito da história e do envolvimento gradual entre a Rapunzel e o Flynn. É uma graça e acho muito bacana que a coisa não tenha sido colocada como “ela mudou ele através do amor”. Que nada, os dois tiveram um impacto um no outro pelas suas atitudes e comportamentos como pessoas. Acho uma mensagem muito bonita.

    Você sabe, até pelo meu livro, que eu não me importo quando os personagens (femininos e masculinos) colocam a busca amorosa em primeiro lugar, acho que dependendo da história isso pode ficar coerente, bacana… o problema é que no caso de muitos romances por aí essa busca é algo “destrambelhado” por alguém que a personagem mal conhece, ou por alguém que a mocinha só gosta porque é lindo. E depois que a paixão vem, nada mais importa, ninguém mais importa. Putz, também não é assim. Como eu disse lá no meu blog uma vez, amor não é doença, muito menos doença psicológica XD.

    Por fim, como a Ana disse, Rapunzel é o tipo de heroína que eu gosto também. Aqui em casa a gente já viu muitas vezes, nós dois gostamos bastante.

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    • Melissa de Sá

      Liége,
      Eu também me identifico com esse filme a níveis pessoais. E realmente, “Mother Knows Best” meio que resume muita coisa que já aconteceu comigo. rs
      Eu não tenho nada contra romance, mas acho vazio histórias que têm só essa paixão fulminante como objetivo e força motriz. Tipo em Cinderella onde ela casa com um cara que nem conhece.

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      • Eu concordo, Melissa. É mesmo vazio e eu também não gosto. Hoje em dia é muito engraçado ver Cinderella, Branca de Neve e esses mais antigos. Eu sempre termino indignada com os casamentos entre dois completos desconhecidos XD. E acho que mesmo que a busca amorosa seja importante, a história sempre tem que ter outros elementos para ficar realmente palpável e interessante.

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        • Melissa de Sá

          Pois é, Liége. Eu gosto de histórias sobre buscas amorosas, mas resumir a vida a isso é mesmo complicado. Talvez seja por isso que esses desenhos antigos da Disney sejam tão estranhos. Tipo Branca de Neve: a menina tá caída na floresta e o cara chega e beija. Ela levanta e eles se casam. SEM TROCAR UMA ÚNICA PALAVRA!!! Mesma coisa com Cinderella: os dois dançam uma valsa num baile e já é amor eterno e casamento.

          Nesse sentido, gosto mais de histórias como “A Bela e a Fera”: existe aí uma convivência entre os dois. Eles se conheceram e se apaixonaram. É uma história sobre amor, mas é também uma história sobre superar diferenças. Isso faz com que ela fique mais rica e interessante.

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  6. Camila - Leitora Compulsiva

    Hahahaha,
    Adorei o seu post…
    Uma pena que acabei vendo a animação dublada e a voz do Luciano Hulk estragou tudo!! rs…
    beijos
    Camis

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    • Melissa de Sá

      Ai Camila,
      Ver a versão do Luciano Hulck é o fim da vida. Vale a pena ver de novo legendado, viu…

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  7. Nivia Fernandes

    Você acredita que ainda não assisti? Mas tenho muita vontade!
    Não sabia que chegava a ser tudo isso, uma mocinha normal e encantadora. Porque quando começa o “ah, ela é fofa” eu já fico desconfiada, acho que você deve imaginar. rs
    Bom, mais um filme para a lista! E sim, a Ariel é doente. huahuahuahuahua
    Hoje em dia essas histórias de casar com desconhecidos é uma loucura mesmo, por isso nem chega a colar. Mas nada tira da minha cabeça que isso foi a semente para o pensamento mais atual que existe: vou pegar um desconhecido na balada porque é natural.

    Beijos!

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