Noites Negras de Natal e outras histórias

Título: Noites Negras de Natal e outras histórias
Autoras: Karen Alvares e Melissa de Sá
Ano de publicação: 2012
País de origem: Brasil
Número de páginas: 70

 

Foi no Natal do ano passado que eu, Liége (voltei!), adquiri o e-book Noites Negras de Natal e outras histórias, um trabalho a quatro mãos escrito por ninguém mais ninguém menos do que a Melissa de Sá, dona desse blog que nós amamos, e pela Karen Alvares, outra muy talentosa escritora que já teve seu conto A Dama das Ameixas resenhado por aqui (eu comprei e li outro dia também, e me debulhei em lágrimas. Recomendado).

Essas duas amigas tiveram a divertida ideia de escrever contos que abordassem a temática natalina em narrativas de horror.  Em dezembro de 2012, elas lançaram o e-book na Amazon, como se para “comemorar” o Natal, e eu achei uma iniciativa muito bacana (inclusive, foi a partir daí que eu resolvi tentar colocar o meu próprio livro na Amazon, e, por meio das dicas da Melissa, voilá! Consegui!).

Antes de iniciar a resenha, tenho que confessar duas coisas: eu não sou muito fã de histórias de terror. Isso porque sou muito medrosa, e me impressiono com certas coisas. Foi exatamente por isso que eu demorei para finalmente ler Noites Negras de Natal. Mas a espera compensou, e muito.

Noite Negras de Natal possui quatro contos: O Último Panetone de Natal, Lembranças Vermelhas, Setor B12 e A Morte do Cisne. O primeiro e terceiro contos são de autoria da Karen Alvares, já o segundo e o quarto são da Melissa. Aqui já tenho um primeiro ponto positivo a comentar: temos uma alternância de estilos muito bem-vinda, que dinamiza a leitura e a deixa mais fluida. As duas autoras têm, cada uma, o seu jeito de contar histórias e fazer terror, e esses estilos casam muito bem, presenteando-nos com modos distintos de provocar tensão e medo.

O Último Panetone de Natal, de Karen Alvares, tem como centro um casal, Rafaela e Pablo. Os dois estão em plena estrada na noite de Natal, viajando no simpático fusquinha verde de Pablo, o azeitona. Infelizmente, os motivos da viagem não poderiam ser mais soturnos: Rafaela deseja ver com os próprios olhos a estrada onde seus pais morreram em um acidente de carro, há exatamente um ano.

A tensão já está presente logo no início do conto. Há uma clara desestruturação do psicológico de Rafaela e do relacionamento entre ela e Pablo. Karen construiu muito bem esse início, pois eu consegui lamentar junto com Pablo a mudança de sua namorada: de uma pessoa alegre e aberta para uma garota fechada, irritada, que já quase não ri. Rapidamente, mas não de forma descuidada, a autora nos traça um perfil convincente dos dois personagens, e à medida que eles dialogam e trocam farpas, vamos nos sentindo cada vez mais tensos.


Faminto, o casal resolve passar a noite em uma velha pousada – aqui, achei muito bacana a descrição do ambiente feita por Karen. Temos uma casa que parece uma “casa de bonecas velha”, com toalhas floridas e quadros pendurados pela parede, e um balcão com um globo de neve. Todo esse ambiente aparentemente inofensivo vai contrastar com o que virá logo em seguida: um assustador e insólito desfecho, no qual o bizarro impera. Não há explicações detalhadas do porquê ou do como, mas isso deixa tudo mais arrepiante ainda. Achei a construção do ambiente, dos personagens e da tensão muito, muito bem feita. Temos até uma dose de erotismo nesse conto, e acredito que tenha sido, em termos, o mais violento, mas a violência casa muito bem com o enredo.

Lembranças Vermelhas, de Melissa de Sá, foi um dos meus contos favoritos do livro. Estamos em véspera de Natal e uma família comemora, aos trancos e barrancos, a data em um sítio no interior de Minas. Acompanhamos os pensamentos de Julian a observar, sarcasticamente, o comportamento afetado de seu irmão André, sua esposa, uma escocesa chamada Marion, e seus dois filhos pequenos, Nicholas e Maureen. Quem nunca se enfastiou em uma reunião de família? Quem não presenciou conflitos e disputas sendo veladas com sorrisos e até mesmo hipocrisia? É assim que vamos sendo introduzidos ao “clima” de  Lembranças Vermelhas.

Novamente, temos uma descrição de ambiente primorosa, que só vai corroborar para construir, aos poucos, a tensão que vai desembocar no clímax. Temos o quadro do pai morto que olha a todos no corredor, uma piscina esverdeada que ninguém usa há tempos, a casinha velha do velho caseiro, já falecido, a chuva que vem colaborar na sensação de profundo isolamento, e a rena vermelha das crianças, que parece assustadora – e é, naquela noite de tempestade! Estamos isolados no sítio junto com Julian, que se vê, em um momento, sozinho e tendo de tomar conta dos sobrinhos por algumas horas. Espere… será que ele viu a luz acesa na casa do seu Hermílio? E esse tilintar de metal se batendo, de onde vem? Por que Nicholas está com os braços roxos? A partir daí, a coisa pega fogo! Final excelente e até mesmo com um toque de humor negro, embora eu não tenha conseguido rir…

A partir de então, temos dois contos que não envolvem o Natal, como sugere o “outras histórias” do título. O terceiro conto é o excelente Setor B12, que, junto com Lembranças Vermelhas, também foi um dos meus favoritos.

Em Setor B12, Karen nos faz acompanhar a trajetória de Beto, um homem que precisa muito de um emprego. Pronto, a tensão também já está logo no início: quer situação mais desesperadora do que precisar enlouquecidamente de um emprego há meses, sabendo-se que há uma criança e uma esposa para alimentar em casa – enquanto houver uma casa, pelo menos? Sentimos a angústia de Beto junto com ele – e é aí que vem um velho esquisito, agourento, falar com ele. “Nessa obra eles aceitam de tudo, até velhos e negros…”, ele diz, ofendendo duplamente Beto.

Esse velho ainda vai aprontar mais, pode contar com isso. Beto acaba conseguindo o emprego porque a obra em questão está muito atrasada, e vai parar no Setor B12 com o velho, é claro, e mais alguns rapazes – o Caçamba e o Calças Molhadas. Além de aguentar o velho, Beto tem que lidar com a patroa arrogante e de voz de nariz entupido, Silva. E, como se não bastasse, rondam boatos sobre uma elevada taxa de acidentes e mortes na obra… e Beto começa a presenciar acontecimentos que comprovam a veracidade desses boatos.

Aqui o destaque vai para a construção dos personagens. Eu realmente consegui imaginar cada um deles com suas peculiaridades e diferentes personalidades – e me vi torcendo por uns e contra outros. A tensão foi sendo tão bem construída, que no final me vi de coração na mão. Sentimos a angústia dos personagens, e seu medo, pesadamente. O desfecho – bastante perturbador – me conquistou de vez. Gostei muito mesmo desse conto, e nunca mais vou olhar para uma construção do mesmo modo!

Por fim, temos o sombrio e belo A Morte do Cisne. Gente, eu terminei o conto dizendo: que lindo. Apesar de ser uma narrativa angustiante, pesada, achei todo o universo que a Melissa evocou maravilhoso. Ela se utilizou da dramática história do balé O Lago do Cisnes (que eu acho linda, aliás) e escreveu a sua versão dos momentos finais da princesa-cisne Odette. Toda a tristeza e o peso do mundo estão nas costas de Odette, e ela fala de seu amor amaldiçoado pelo príncipe Siegfried e da maldade de Rothbart, seu algoz, o mago que a transformou. Odette está presa. Odette não tem saída. Siegfried não poderá quebrar sua maldição. A ela só resta um desfecho…

Achei que nesse conto predomina muito mais um profundo sentimento de angústia do que um clima de horror propriamente dito. Mas que fique claro que temos cenas perturbadoras e violência em um clima bastante soturno, “gótico”. É um conto muito eficiente na construção de sua ambientação e atmosfera. O que mais me deixou impressionada é que mesmo uma pessoa que nunca tenha ouvido falar em O Lago do Cisnes vai entender o que está acontecendo ali. Melissa conseguiu condensar a história inteira no conto e vai nos soltando informações a conta-gotas, até que entendamos tudo o que está se passando. Achei isso incrível, sem exagero.

Ou seja, pessoal: eu recomendo MUITO, muito mesmo, Noites Negras de Natal. Fiquei sinceramente impressionada com a minha própria reação aos contos e com a qualidade do que li. Na minha concepção, escrever um conto de terror que se sustente em poucas páginas, assustando e causando tensão, não é tarefa fácil, e a Melissa e a Karen cumprem seus objetivos com maestria. Eu cheguei a reler o e-book, pois me envolvi bastante com as narrativas – e olha que não sou a maior fã do gênero!

Para quem ficou curioso, o melhor de tudo é que o e-book está lá na Amazon, por um preço módico de R$ 2,27. Literatura de alta qualidade e acessível. Melhor que isso não fica!


 

19 Responses to “Noites Negras de Natal e outras histórias”

  1. Excelente resenha, de um excelente trabalho.

    E o preço na loja da Amazon é realmente muito convidativo. Parabéns a todos os envolvidos, e sucesso!

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  2. Ah, Liége, fiquei encantada com sua resenha! Adorei o fato de ela ser enorme e fiquei tão feliz que curtiu os contos! Obrigada pelos elogios, sua resenha foi tão atenciosa e entusiasmada, fiquei muito contente que despertamos esses sentimentos em você! =) Esses livro é um filhote tão querido!
    Te falei né? Detesto a Silva. Eu a conheci. Mulher horrível. Argh, argh! E sim, não é a primeira vez que alguém diz que eu sou bizarra! Adoro ouvir isso! 😀
    Nossa, aquela rena da Mel… poutz, tive pesadelos com aquilo! O_o E ela é super habilidosa no último conto, eu não vi O Lago dos Cisnes, conheço a história por alto, e ela nos envolve completamente, mesmo leitores que não conhecem. Incrível. 🙂

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    • Liége Báccaro Toledo

      Karen, eu realmente gostei muito do e-book de vocês. A resenha foi entusiasmada porque eu me vi muito envolvida com todas aquelas histórias, eu, a medrosa! Em cada conto, em cada personagem, nós acabamos encontrando situações com as quais nos identificamos, e a caracterização de vocês é tão competente que não tem como não terminar cada conto com o coração na mão.

      Você falou sim sobre a Silva, argh! O que mais me irritava nela era o quanto ela repetia que ela era uma mulher honesta, e blábláblá. Gente, fico arrepiada só de saber que essa criatura existe e que você teve de aturá-la! E acho ótimo que você tenha se vingado dela literariamente, hahaha! Olha, os contos são mesmo bizarros, mas no melhor sentido possível! E achei muito interessante Setor B12 se passar em uma construção. Quando eu era pequena, tinha muito medo de ir ao prédio onde minha vó morava: ele era escuro, o estacionamento era um breu, e meus primos ainda diziam que havia uma mulher chamada Matilde (o nome do prédio) enterrada ali. O seu conto me trouxe lembranças dessa época, acredita? Para mim o Matilde sempre foi um lugar sobrenatural, hehehehe. A ideia de um prédio como a obra do Setor B12 é incrível.

      A RENA! Nunca mais eu confio em uma rena. NUNCA! E o detalhe das uvas passas com calda de morango? Achei ótimo. A Morte do Cisne é arrebatador também. Nossa. Não tem coisa ruim nenhuma no livro de vocês. Sério!

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      • Menina, te contar que só de ouvir o nome “Matilde” já me arrepiei. Sei lá, é um nome meio de filme de terror… hahaha Terrível, acho que agora entendi porque você se identificou com o conto! rs
        Mas eu também acho construções meio esquisitas… sei lá. Ainda mais de noite. Argh.
        Cara, a “Silva” ficava mesmo repetindo que era uma pessoa “honesta” e blábláblá. Era uma mulher horrível. Fazia tudo ao contrário do que dizia e culpava os outros pelos erros dela. Era histérica, metida e paranoica. Foi fácil escrevê-la porque eu já sabia direitinho como ela era… hahahaha VINGANÇAAAA! hohohohoho

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        • Liége Báccaro Toledo

          Sim, Karen, o próprio nome já é de arrepiar! Eu entrava no estacionamento de olhos fechados, porque eu tinha certeza que no meio daquela escuridão eu ia ver a Matilde! AAAaaah!

          Aqui em Londrina tem uns prédios abandonados que, oh… vou te falar. Que desespero olhar para eles à noite. As construções com aquelas lonas gigantes voando… se eu vir um velho cantando perto delas, então, agora vou correr com todas as forças!!!

          Nossa, eu conheço pessoas como essa Silva. Que horror, meu Deus. Ela deve realmente ser uma história de terror ambulante! Mas é para isso que temos a VINGANÇA, hahahaha!

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  3. Melissa de Sá

    Liége, que resenha maravilhosa e entusiasmada! Nossa, fiquei feliz demais que você tenha sentido tudo isso lendo nosso livro de contos. Sério, foi uma opinião muito importante pra mim. Principalmente sabendo que você faz resenhas honestas (mas não no sentido da Silva rs).

    Realmente, como a Karen disse, esse livro é um filho querido. E saber que você, que não é muito fã de terror, gostou tanta assim do livro é a coisa mais incrível do mundo. Que bom que conseguimos criar um clima e personagens cativantes. 🙂

    Quanto a Silva, gente, quem não odeia aquela mulher? Estou horrorizada de saber que a Karen a conheceu (como assim? Eu não sabia dessa). Vingança literária é tudo de bom. hahahahahaha

    Quanto a essa história do prédio Matilte… poxa, fiquei com medão, viu. Inclusive acho que a Karen podia aproveitar esse mote aí e fazer uma história sinistra sobre crianças numa garagem de prédio.

    Mais uma vez, obrigada!

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    • Liége Báccaro Toledo

      EU SOU MUITO HONESTA! (hahahahaha!)

      Pois é, Melissa, eu fiquei surpresa no final da leitura, exatamente por não ser fã de terror. Terminei querendo ler de novo! Foi uma experiência muito legal, e se eu passar a ler mais coisas de terror a partir de agora, podem se sentir responsáveis por isso :D. O clima e os personagens de todos os contos ficaram absolutamente cativantes. Não teve um conto em que eu não me interessei pelos conflitos dos personagens.

      Você viu que horror essa Silva existir de verdade? Vou ter pesadelos com isso! Hahahaha!

      Olha… o Matilde era um cenário perfeito para um conto de terror. Se você ou a Karen quiserem usar esse mote para uma história, eu ficaria muito contente! Realmente, só o nome Matilde já me dá arrepiiiiiios… e lá era muito, muito escuro. Era um prédio velho, com portas escuras, corredores mal iluminados… e o estacionamento no subsolo era muito sombrio. Nossa, eu ficava apavorada com a história da Matilde! Só ficava tranquila dentro do apartamento da minha vó, que era bonitinho, mas o prédio em si era horrendo! Quando eu estava para casar, vi dois apartamentos alugando lá em imobiliárias… bruuuu! XD

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