O Chamado de Cthulhu

Título: O Chamado de Cthulhu (conto)
Título original: The Call of Cthulhu
Autor: H. P. Lovecraft
Ano de publicação: 1928, na revista Weird Tales
País de origem: Estados Unidos

Saudações, queridos leitores do Livros de Fantasia! Hoje eu continuou em ritmo de terror! Pois é, será que peguei gosto pela coisa? Acho que sim. E é exatamente por isso que hoje vou resenhar um conto clássico e não muito conhecido aqui na nossa terrinha (ao menos não tanto quanto os trabalhos de Edgar Allan Poe, por exemplo): O Chamado de Cthulhu, de H. P. Lovecraft. Aliás, mais do que isso, vou falar um pouco sobre o universo desse autor e de como ele é interessante!


De acordo com a Wikipedia H. P. Lovecraft é considerado, hoje, um dos escritores de terror mais influentes do século XX, e mesmo assim nunca tinha ouvido falar bulhufas desse cara até começar a jogar RPG. O que acontece é que Lovecraft criou uma mítica tão forte que ela foi base para um cenário de RPG muito interessante, de nome Call of Cthulhu, e foi através desse sistema e de aventuras envolvendo um cenário de terror que eu conheci um pouco do que é chamado por aí de “Cthulhu Mythos” (ou mito de Cthulhu, em português), uma referência ao panteão de deuses e monstros criado por Lovecraft.

No jogo, nós entrávamos constantemente em contato com eventos sobrenaturais, situações bizarras e coisas estranhas, e então rolávamos testes de sanidade (!), porque sempre havia ligações absurdas entre elas. A premissa (em minha visão, na época) era a de que havia uma grande verdade oculta da humanidade, uma verdade sinistra envolvendo seres ancestrais escondidos nas profundezas. De fato, quanto mais insano, mais você se aproximava da verdade. Mas a que custo? Quem eram esses seres ancestrais? Por que eles existiam? Se importam conosco? Qual é o papel da humanidade nisso tudo?

A verdade? Somos apenas grãos de areia e não temos a mínima importância em um universo tão vasto. Para esses seres ancestrais, os Antigos, somos apenas gado, e a natureza não se importa minimamente com nossas vidas. Uma perspectiva aterradora, assustadora, e que lida, obviamente, com a nosso sentimento mais visceral: o medo.

Confesso que, na época, foi o medo mesmo que me afastou de conhecer mais sobre a obra de Lovecraft. Achei a perspectiva dele um tanto pessimista e passei longe – precisava de mais animação naquele momento da minha vida. Mas o fato é que, dia desses, peguei para ler o conto que foi um dos pontapés iniciais de todo esse mito criado por Lovecraft, O Chamado de Cthulhu, e me vi fascinada pela escrita do autor.

O Chamado de Cthulhu, escrito em 1926, é um conto em primeira pessoa que acompanha os relatos do sobrinho-neto de George Gammell Angell, um professor de Idiomas Semíticos na Brown University Providence, em Rhode Island. Esse sobrinho-neto torna-se herdeiro e testamenteiro de seu tio, e, como tal, precisa inteirar-se dos documentos dele e mover seus pertences para sua própria casa em Boston. No meio desses pertences, ele encontra uma caixa que o deixa bastante intrigado, e ao abri-la, acha uma pequena escultura de barro em baixo relevo, retratando uma criatura bizarra que ele mal consegue descrever… um monstro, com cabeça polpuda cheia de tentáculos, corpo grotesco e escamoso e asas rudimentares. Segundo o narrador, algo que “somente uma imaginação doentia poderia conceber”.

A partir daí, o sobrinho de Angell nos relata como ele passou a montar um quebra-cabeças, procurando desvendar a morte um tanto obscura de seu tio-avô. Os últimos esforços do professor haviam se concentrado em descobrir a ligação entre acontecimentos estranhos, envolvendo cultos a uma certa criatura aparentemente denominada “Cthulhu”, presente em diferentes épocas e lugares do mundo todo. Somos apresentados a uma realidade paralela de loucura.  Há sociedades e cultos secretos e um certo ar de conspiração e fim do mundo. Quem é Cthulhu? Por que alguns artistas e escritores, na primavera de 1925, foram acometidos por uma loucura coletiva envolvendo episódios de febres e pesadelos?

O simpático Cthulhu, saindo de sua cidade submersa, Ry’leh, para engolir nossas almas!

Temos, nesse conto, um relato fascinante que aos poucos vai juntando peças para nos revelar a natureza da criatura chamada Cthulhu – e também para nos revelar o que essa descoberta implica para toda a humanidade. O sobrinho do professor Angell nos conta tudo com precisão científica, e o relato é tão vívido que parece real. Lovecraft parte de vários acontecimentos aparentemente banais e tece entre eles uma rede de coincidências que, ao fim, se revelam como não coincidências. O sentimento de desolamento, de inevitabilidade, chega quando nos defrontamos com o grande Cthulhu, uma criatura alienígena mais antiga que o próprio planeta, e que habitou a Terra antes que nela houvesse qualquer vestígio da humanidade. Um dia ele vai voltar, quando as estrelas estiverem alinhadas. E então… corram para as colinas!!

Lovecraft imprimiu em seu terror elementos fantásticos que eram muito mais típicos na Fantasia e na Ficção Científica, e, a julgar por esse conto, fez isso de forma sensacional. O Chamado de Cthulhu é altamente descritivo, mas a meu ver isso foi bastante positivo, pois tornou os acontecimentos muito críveis, e a primeira pessoa contribuiu muito para deixar o leitor ligado. Talvez, ao final, você não sinta medo, mas sim um imenso desconforto.  Lovecraft postula que vivemos em uma abençoada ignorância, deixando de lado fatos que, se fossem correlacionados, nos tirariam a sanidade. Isso já fica bastante claro no primeiro parágrafo do conto:

“A coisa mais misericordiosa do mundo, eu acho, é a inabilidade da mente humana em correlacionar todos os seus conteúdos. Nós vivemos em uma plácida ilha de ignorância no meio de um oceano negro infinito, e não era para que pudéssemos navegar para longe. As ciências, cada uma esticando a corda em sua própria direção, têm nos causado pouco mal até agora; mas algum dia esse mosaico de conhecimento dissociado nos legará um terrível panorama da realidade e de nossa amedrontadora posição nesse lugar, tão terrível, que ou bem nós ficaremos loucos diante da revelação ou fugiremos covardemente da luz mortal para a paz e a segurança de uma nova Idade Negra”.

O conto nos dá inúmeros pontos de reflexão, e eu me peguei realmente pensativa após a leitura. Recomendo muito para quem gosta de um bom suspense, mas mantenha em mente que a narrativa elegante de Lovecraft é bastante rebuscada e pode cansar quem não gosta de muitas descrições ou quem aprecia uma escrita que vá mais direto ao ponto. Vale também dizer que a mitologia do autor não para por aí e temos outros contos envolvendo os Antigos, como Nas Montanhas da Loucura, A Sombra fora do Tempo e Um Sussurro nas Trevas. Além disso, temos outros deuses também, como Dagon, Nyarlathotep, Azathoth…

Lovecraft era com certeza um cara “pessimista”, por assim dizer. Seus mitos são uma metáfora da insignificância humana frente a um universo muito vasto, e nós não temos, em suas histórias, uma batalha entre bem e mal. Antes de serem malignos, os Antigos são completamente indiferentes à existência humana e ao nosso sofrimento. Imagine um cientista bastante frio e seus ratinhos de laboratório – é mais ou menos essa a sensação que ele nos passa. Os deuses encarnam verdadeiras forças da natureza, e nós não temos a quem recorrer. Eu gosto dessa concepção desesperançada? Não XD! Mas é interessante, e não pude deixar de me impressionar com a qualidade do que li e de refletir sobre várias passagens do conto. Além disso, lembremos que em 1926 a Primeira Guerra Mundial havia acabado há pouco tempo – e eu também não teria lá a melhor visão sobre o mundo e a razão de nossas existências depois disso. O mais macabro de tudo isso é que os contos de Lovecraft muitas vezes eram inspirados em seus próprios pesadelos…

Gostaria de terminar essa humilde resenha deixando aqui registrado o quanto Cthulhu está presente na “cultura pop”, ganhando pelúcias, desenhos”Chibi” (fofos) e até uma série de vídeos hilária chamada Calls For Cthulhu, na qual o terrível Antigo atende ligações de incautos e dá conselhos amorosos e existenciais. Vale a pena conferir, para quem entende inglês! Encontramos de tudo inspirado no Mito: camisetas , um excelente RPG de terror, jogos de tabuleiro e de cartas (tive a oportunidade de jogá-los e são excelentes), dados personalizados, “campanhas” de Cthulhu para presidente pela internet (por que escolher o mal menor? é o slogan), entre outros. Ou seja: vale a pena conhecer esse verdadeiro ícone que provêm de uma excelente narrativa de terror com toques de fantasia!

Chibithulhu! Ele só quer o seu amor! E a sua alma…

 

A representação do caos, da loucura e da desesperança também vem em pelúcia.

 

Cthulhu para presidente XD

 

Fica aqui também uma reclamação: eu tive bastante dificuldade para encontrar qualquer trabalho do Lovecraft na minha cidade. Acabei adquirindo um livro de contos dele, de bolso, mas foi só, e não tinha O Chamado de Cthulhu! Tentei então comprar o conto na Amazon,  mas fui impedida pelas reclamações sobre a tradução, e tive que recorrer ao pdf gratuito do conto no site contoaberto.org. Felizmente, a tradução é boa.


 

12 Responses to “O Chamado de Cthulhu”

  1. Cthulhinho! É, eu ia te passar o Cthulhu de crochê, mas vi que você já colocou ele de pelúcia e tals, é muito amor (e demoníaco hahahaha).
    Apesar de saber bastante também sobre o mito e, como você disse, já ter visto ele antes na cultura pop etc, eu nunca vi o conto pelos motivos que você disse: é difícil encontrar. Quase comprei na Amazon, mas disseram que a tradução era porca, e eu desisti. Agora vou pegar no site que você falou! 🙂
    Eu acho legal essa visão desesperançada do mundo. Acho que dá ainda mais terror, pela falta de esperança no futuro mesmo. Às vezes a gente sente isso no momento que vivemos, imagina o Lovecraft naquela época, após uma guerra…?

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    • Liége Báccaro Toledo

      Cthulhinho não é puro amor?? O de crochê é muito fofo também! O pior é que tenho um amigo que tem esse Cthulhu de pelúcia, e ele é uma fofura!!!

      O conto é muito bom, Karen, e estou aqui em casa com Horror em Red Hook, que pretendo ler em breve. Existem várias traduções de O Chamado de Cthulhu pela internet, mas esse pdf, apesar de ser do conto aberto, é difícil de achar por lá. Eu achei pelo overmundo, nesse link aqui: http://www.overmundo.com.br/banco/o-chamado-de-cthulhu-de-lovecraft-trad-de-ka-ak-kim

      Essa visão dele é mesmo muito interessante, não posso negar! Essa falta de esperança é uma das coisas mais aterradoras de todo o Mito do Lovecraft, e é bem isso: se a gente sente isso agora, de vez em quando, imagina ele na época do pós-guerra? Só digo que não “gosto” muito dessa visão porque, dependendo do dia, bate uma depressão básica, hahahaha!! Mas eu gosto muito de toda essa mítica que ele criou, é fascinante.

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    • Melissa de Sá

      Pois é, períodos pós-guerra são sempre marcados por pessimismo. Não tem como. Ainda mais a 1a guerra, que foi a guerra das trincheiras, uma coisa horrível mesmo (não que as outras não tenham sido, mas vocês me entenderam).

      Agora esse lance de criaturas horríveis vindo do oceano me lembrou aquele filme “Círculo de Fogo” que estava nos cinemas alguns meses atrás.

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  2. Hahaha “Cthulhu for president: Why choose the lesser evil” Muito bom!

    Voltando ao assunto, gostei muito da resenha, e acho muito interessante a maneira como Lovecraft descreve as coisas em suas obras, apesar de ter lido muito pouco a respeito.

    O detalhe interessante do terror que ele consegue criar é que além da total falta de esperança, é virtualmente impossível afirmar com certeza absoluta que isto realmente é apenas fantasia; em seus contos, ele menciona diversas religiões e cultos que de fato existiram/existem no mundo real. Ele menciona a decadência moral da sociedade contemporânea (algo que seu amigo, Robert E. Howard faz muito bem também) e afirma que a cidade oculta de Cthulhu fica nas profundezas do oceano. Como 95% de nossos oceanos são completamente inexplorados porque é impossível chegar a certos níveis de profundidade, não há como afirmar que “é ridícula a ideia de uma cidade escondida nas profundezas”.

    Isto sim é terror!

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    • Liége Báccaro Toledo

      Exatamente, Odin, ele escreve de um jeito que faz a gente ter um certo medo de que tudo aquilo seja real XD. O oceano com certeza é uma enorme interrogação, digamos que seja o lugar mais apavorante do planeta, pensando-se em todas as possibilidades inexploradas lá embaixo. De repente tem um Cthulhu dormindo por lá mesmo (GAAH!).

      O interessante é que Robert E. Howard e Lovecraft eram super amigos, e ambos dividiam essa visão pessimista… que nos põe para refletir, com certeza.

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  3. Será que só eu não conhecia esse Cthulhu?!
    Na hora que recebi o email sobre essa resenha, já comecei a me perguntar o que seria isso! rs… Agora já sei, mas vou confessar que não é o tipo de história que me anima!
    Beijos
    Camis

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    • Liége Báccaro Toledo

      Hahaha, oi Camila, pois é, mas o Cthulhu não é muito conhecido por aqui não! Eu mesma só ouvi falar dele por causa do RPG. Mas Lovecraft é um escritor que merece ser mais reconhecido.

      Eu gostei muito de ter lido O Chamado de Cthulhu, mas eu confesso que eu tenho que estar no clima para ler e aproveitar melhor esse tipo de história! E tem gente que não gosta mesmo, normal! Também não é o meu gênero favorito, mas é bom passear por coisas diferentes de vez em quando, até para arejar a mente :).

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  4. Melissa de Sá

    Então, esse é o momento que eu confesso a todos que não li nada do Lovecraft nessa vida. hahahahahahaha

    Eu sei, vergonha. Mas é que sempre tive medinho e mesmo quando tive que ler terror na faculdade, foi Poe (eu fiz uma matéria inteira do Poe. Fiquei um semestre todo só lendo Poe – okay, li um pouco de Hawthorne e Mellville também) e foi uma das melhores matérias que eu fiz com um dos professores mais legais da UFMG: o Júlio Jeha! Inclusive depois fiz outra matéria super legal com ele, Crime and Literature, em que li livros super legais sobre crime. Enfim. Momento nostalgia da faculdade….

    Eu não sabia desse conto, mas agora fiquei morrendo de vontade de ler. Quanto a traduções porcas… ainda bem que leio em inglês e posso me safar disso sem maiores problemas.

    O post ficou excelente, Liége. Adorei o modo como você descreveu o mote do conto e contextualizou sem ficar chato. Muito bom mesmo! Orgulho da minha colunista.

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    • Liége Báccaro Toledo

      Putz, Melissa, eu também li muito Poe na faculdade. Adorava!! Lembro até hoje de uma análise fascinante que a minha professora Edna fez de O Corvo… ai, ai.

      Olha, eu ainda vou me aventurar mais pelo universo do Lovecraft, e não sei se não vou ficar tremendo nas bases, ahahaha! Mas pode ler O Chamado de Cthulhu tranquila que não dá tanto medo, é mais um desconforto mesmo. Eu gostei muito, muito mesmo! Eu até ia tentar ler em inglês mesmo, mas o Lovecraft é muito rebuscado e fiquei com medo de não entender tão bem!

      🙂 🙂 🙂 Eu que tenho orgulho de ser colunista do blog 🙂 🙂 🙂

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  5. Felipe Alvares

    Nossa, muito legal sua review do Cthulhu. Sou fã de carteirinha do Lovecraft desde quando descobri ele através do GURPS Horror que fazia várias menções aos Cthulhu Mythos. Infelizmente HP não é um cara muito famoso e é meio renegado do mundo do terror.

    Só não recomendo o Montanhas.. desisti dele quase no final pq eh muito rebuscado.

    Caso você não conheça tem um filme mto bom de 2005 do Cthulhu:
    http://www.youtube.com/watch?v=7r8AKTXk74M

    Existe uma série de card games chamada Hecatombe ( também inspirada no HP) rmas não fez muito sucesso, e tem uma penca de game boards de Cthulhu por aí (mas haja doletas para comprá-los);

    Se você ler alguns dos contos do Conan (os contos não os romances) vai perceber que o Robert E Howard também fazia uns monstros bem piradinhos que nem o HP.

    Hail Cthulhu!

    Responder
    • Liége Báccaro Toledo

      Puxa, Felipe, muito obrigada! Fico feliz que tenha gostado. É verdade, o GURPS Horror tem mesmo menções ao Cthulhu Mythos! Pois é, é uma pena que Lovecraft seja meio obscuro, porque eu pelo menos achei a escrita dele excelente, e a mitologia que ele criou é muito interessante. Não há como não refletir por meio da metáfora que ele cria.

      Já tinha ouvido falar desse filme, oba, ele é bom?? Vou assistir \o/

      Esses jogos são muito caros! Ainda bem que tenho um amigo que vai constantemente para os EUA e que é bastante fã do Lovecraft. É por meio dele que conheci o autor, e nós acabamos jogando um jogo muito bacana de tabuleiro, que eu acho que era o Arkham Horror, e o Munchkin Cthulhu, que é muito, muito divertido!

      Robert E. Howard também tem umas criações estranhas, né? Eu também gosto do universo que ele criou, e eu lembro pelos meus humildes conhecimentos das histórias do Conan que os deuses também não estavam nem aí para os humanos, numa concepção parecida com a do Lovecraft. Vou procurar ler os contos!

      Hail Cthulhu!

      Responder

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