Excalibur

E hoje temos uma convidada muito ilustre no Livros de Fantasia. Trata-se de ninguém mais ninguém menos que a Cuca, a persona da Karen Alvares no Por Essas Páginas que resenha livros nacionais. Ela gentilmente nos cedeu sua resenha de Excalibur, livro que já entrou nas nossas expectativas por aqui. Como eu e Liége entramos nessa coletânea, nada mais justo do que ter outra pessoa comentando esses textos arthurianos. E com vocês, a Cuca!

Título: Excalibur – Histórias de Reis, Magos e Távolas Redondas
Organizadora: Ana Lúcia Merege
Autores: Ana Lúcia Merege, Roberto de Souza Causo, Liège Báccaro Toledo, Luiz Felipe Vasques e Daniel Bezerra, André S. Silva, Pedro Viana, A. Z. Cordenonsi, Ana Cristina Rodrigues, Marcelo Abreu, Melissa de Sá, Octavio Aragão, Cirilo S. Lemos.
Editora: Draco
Páginas: 248

A Cuca volta hoje vestida de Morgana! Mas é óbvio! Tem coisa mais a ver com a Cuca que a Morgana? Eu acho que não. Sou do time das bruxas. Sou a Cuca-Morgana! E venho ainda empunhando Excalibur (o livro, não a espada, ops). Hoje eu tô podendo! Aliás, já falei para vocês dessa antologia de contos lançada pela Editora Draco nesse post de expectativas recentemente, e confesso que estava com as expectativas lá em cima. Comprei o livro no evento da Fantasticon 2013 e logo comecei a ler. É com felicidade que digo que as expectativas foram alcançadas e essa é uma grande seleção da editora e da Ana Lúcia Merege.

A primeira coisa que me deixou bem satisfeita foi quando segurei o livro pela primeira vez. A edição está muito, muito caprichada. Papel amarelo e de qualidade, ilustrações dentro do livro e todos os contos têm páginas com ilustrações especiais. Além disso, nos rodapés, há sempre o título do conto e o nome do autor, o que eu acho uma atenção delicada tanto com os leitores, quanto com os próprios autores da antologia.

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O livro começa com um prefácio da organizadora e autora de um dos contos: Ana Lúcia Merege. Nele, a autora conta-nos um pouco sobre a história da lenda do Rei Arthur, as obras em que ela apareceu e ainda fala um pouquinho dos contos no final, quase como uma pequena sinopse deles. Gostei bastante disso, geralmente eu vinha no prefácio e lia sobre o que se tratava o próximo conto que leria. É um prefácio um pouco didático, mas está longe de ser cansativo, é bem interessante, principalmente para quem curte essas histórias.

Resolvi fazer essa resenha um pouquinho mais especial: sendo um livro de contos, li e fiz anotações sobre todos eles, e agora vou falar um pouquinho de cada um para vocês, na ordem em que aparecem no livro.

A Memória da Espada, Roberto de Souza Causo espadas5

Excalibur começa muitíssimo bem com um dos melhores contos de todo o livro. É centrado no personagem Darius, que é muito bem desenvolvido: em poucas páginas, você já se vê torcendo por ele, em detrimento do próprio Arthur – apesar de que eu nunca gostei do Arthur, então sou suspeita para falar… O autor conseguiu contar uma grande história em poucas páginas, utilizou de maneira incrível a personagem Morgana (ah, mas eu adoro a Morgana… *suspeita²*) e fez um belo trabalho com a trama escolhida já no título. O conto tem uma linguagem um tanto rebuscada, mas muito fluida. Faz parte do meu top 3 de melhores contos do livro.

O Espelho, Liège Báccaro Toledo espadas4

Nesse segundo conto temos uma nova abordagem do tema do livro, algo criativo e bem fora do comum. A escrita da autora é bastante envolvente e esse é o conto mais aterrorizante de todo livro (nem preciso dizer que adorei isso, né?). O final tem um toque macabro que chegou a me arrepiar. Apenas fiquei com a impressão de que, se o conto fosse um pouco maior, com mais algumas páginas, ele seria ainda melhor e o horror da personagem principal seria sentido pelo leitor com maior intensidade.

Momento Decisivo, Luiz Felipe Vasques e Daniel Bezerra espadas2

Aqui temos uma space opera bastante ousada para o tema, centrada em Lancelote. Acho bem difícil fazer uma space opera com tão pouco espaço e, realmente, o conto ficou bastante confuso, com muitos personagens e pouco desenvolvimento dos mesmos, de maneira que o leitor fica um pouco perdido durante a leitura. As referências arturianas foram bastante sutis e algumas vezes precisei reler para entendê-las. Infelizmente, não me agradou.

Cavaleiro Anônimo, André S. Silva espadas4

Conto muitíssimo bem escrito. É uma leitura envolvente e cheia de sentimento. A história fala de inocência, esperanças e sonhos perdidos, mostrando a jornada de um personagem muito bem desenvolvido e que, como diz o título, realmente anônimo. Gostei bastante dessa abordagem: o protagonista não tem mesmo um nome, ele nunca nos é dito durante o conto. Foi uma ótima leitura.

“Árvores são fortes. Vivem muito mais do que nós, sabe por quê? Porque da força que elas têm só brota a vida, nunca a morte. Homens deveriam ser mais como as árvores.” O Cavaleiro Anônimo, Página 66.

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Mau Conselho, Pedro Viana espadas5

Uma das abordagens mais criativas de todo o livro. E se toda a história de Arthur fosse uma farsa? E se Arthur… não fosse Arthur? É nessa premissa que a trama se baseia e todo o conto foi conduzido muitíssimo bem nas mãos desse autor de apenas e tão somente 16 anos! O quê?! Sério, gente, fiquei pasma, mas muito, muito feliz ao saber disso. Fiquem de olho nesse rapaz, ele tem muito talento para mostrar. Já aqui ele revela uma trama conspiratória bem amarrada, criativa e que encaixou perfeitamente no tema. Tem uma escrita envolvente e é exatamente o tipo de história que deixa o leitor dividido sobre por quem torcer. Meu tipo preferido de história, onde a linha entre o bem e o mal é tênue como na própria vida. Está no top 3 de melhores contos do livro.

A Solução Final, A. Z. Cordenonsi espadas3

Aqui temos uma abordagem steampunk da lenda arturiana, mas não achei que ela influenciou muito na trama. É um conto cadenciado e bastante descritivo, porém, apesar de ter gostado do final, achei que ele foi um pouco rápido demais. Senti uma visão maniqueísta de bem e mal; apesar de ser algo que sinto bastante no tema arturiano, não é algo que me agrade muito.

O Herdeiro de Shallott, Ana Cristina Rodrigues espadas4

Conto muito bem escrito, com personagens bem delineados mesmo em poucas páginas. A história é narrada pelo filho de Lancelote e tendo a gostar mais das histórias que dão maior atenção a personagens externos à lenda ou personagens originais. A autora tem um bom controle de seus personagens, dando profundidade a eles, encantando e emocionando o leitor com sua jornada.

A Fada, Marcelo Abreu espadas3

Ideia ótima e muito criativa. Aqui temos uma visão bem original: uma distopia arturiana. O autor, no entanto, demorou um pouco para encontrar o ritmo do conto; o começo foi confuso, o que torna as coisas um pouco difíceis para o leitor se situar no universo da história. É um conto dinâmico, com muita aventura e eu gostei bastante da figura da Morgana nele (ah, Morgana, Morgana!). Infelizmente, há algumas explicações desnecessárias; essas páginas poderiam ter sido utilizadas para outras explicações mais importantes.

Te vejo do outro lado.
As últimas palavras de Arthur. Eles se encontrariam após o término da batalha, ao final das pontes, já no outro lado das águas. Pensando agora, elas poderiam também significar outra coisa, tipo nunca mais vou te ver.” A Fada, Página 151.

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O Fio da Espada, Melissa de Sá espadas5

Esse é outro conto muito bem escrito, com palavras escolhidas com cuidado pela autora. A história tem um ótimo ritmo, flui com muita facilidade e, quando você percebe, já está no final do conto. Aqui acompanhamos a jornada de um aspirante a cavaleiro, um rapaz ousado e de origem humilde, que admira Arthur, mas acaba se tornando escudeiro de Lancelote, para desagrado de ambos. O personagem é muito bem escrito e o final é surpreendente, mas um pouco rápido. Durante a leitura percebe-se que houve uma boa pesquisa e cuidado com a lenda. As descrições são deliciosas, bem feitas e quase poéticas. Mais um conto para o meu top 3 de melhores contos.

“- E o que o rei poderia dar a pobres coitados como vocês?
– Como disse, senhor, somos pobres coitados. O que o rei não poderia nos dar?” O Fio da Espada, Página 163.

As Mãos Vermelhas de Isolda, Octavio Aragão espadas3

Bem escrito e com uma linguagem rebuscada, porém com uma história fraca, sem muita motivação. O final foi sem emoção ou surpresas, seguindo o ritmo morno de todo o conto. Aqui acompanhamos a história de um Lancelote já envelhecido, investigando o assassinato de um cavaleiro. Acho que o que mais me desagradou foi o próprio Lancelote aqui: não consegui sentir empatia com ele, na verdade, cheguei a ficar com raiva dele em alguns momentos. Talvez isso tenha influenciado minha leitura também.

A Dama da Floresta, Ana Lúcia Merege espadas4

Conto muito bem amarrado. Percebe-se aqui um cuidado todo especial na escrita do mesmo. Ler esse conto é quase como ouvir a história contada verbalmente; senti como se estivesse ouvindo minha avó contar uma história. A narradora é uma senhora, chamada de velha pelos outros, que viu muitas histórias em sua vida. Ela é a telespectadora de uma história maior; não é muito ativa na trama, exceto em uma cena em especial, que achei a mais incrível de todo o conto. Há poucos diálogos e muita narração, o que torna o ritmo do conto um pouco lento.

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O Rei às Margens do Rio, Cirilo S. Lemos espadas6

A Ana Merege, que organizou essa antologia, certamente guardou o melhor para o final. Não coloquei esse conto no meu top 3 porque ele está além disso: é o melhor conto do livro, na minha opinião. Tão bom que se eu pudesse dava 6 estrelas… e acabei dando mesmo, 6 espadas do Rei Arthur, porque ele merece. O que temos aqui é um conto ousado e bem brasileiro, brasileiríssimo (assim a Cuca fica apaixonada, né, gente?). A história se passa em um Brasil alternativo, mas temos vários e vários toques da nossa cultura, o que achei incrível, afinal, o tema é medieval, muito europeu, e o autor conseguiu essa abordagem tão brasileira. Incrível. Envolvente da primeira à última palavra, com descrições que são um deleite, belas, simples e tocantes. História muito criativa, louca, mas criativa. O final, porém, é um pouco aberto e talvez seja essa a única coisa que tenha me desagradado. Esperava outra coisa. No entanto, não estragou o conto, que continua sendo o meu favorito. Fechou o livro com chave de ouro.

“As flores eram feitas de papel colorido, dobradas com cuidado.
A vida é uma mentira, comentou Merlin.” O Rei às Margens do Rio, Página 232.

E aí? A Cuca-Morgana recomenda?

Com certeza, gente! Foi uma ótima seleção da Ana Lúcia Merege, com contos de bons a ótimos (e espetaculares, no caso do último). Li o livro na ordem e por isso posso dizer que a ordenação dos contos na antologia foi muito bem escolhida, intercalando gêneros, estilos, qualidade literária e temas. É um livro muito diversificado, de maneira que, mesmo se tratando de um tema único, é possível ler os contos um atrás do outro sem cansar. A revisão foi perfeita: não encontrei nenhum erro e vocês sabem como eu sou pentelha. E, como eu disse a vocês antes, a edição está super caprichada. Além de ótima leitura, é um livro muito bonito para ter na estante. Recomendadíssimo!

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Onde comprar: Livraria Cultura / Livraria Cultura (e-book) / Amazon (e-book)

 

Resenha originalmente postada em: http://poressaspaginas.com/a-cuca-recomenda-excalibur

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

19 Responses to “Excalibur”

  1. Mel,
    Posso dizer que estou doente para ler esse livro?
    Eu adoro coletâneas assim e depois de ler essa crítica da Cuca fiquei ainda mais aguada!! rs…
    Se eu comprar na versão e-book, será que você e a Liege me mandariam autógrafos digitais??
    Beijos
    Camis

    Responder
  2. Ana Lúcia Merege

    Mais uma vez, obrigada pela resenha supercompleta e por todo o apoio. Falando em meu nome e em nome da Draco, isso faz toda a diferença para nós.

    Responder
  3. Foi um prazer ler esse livro e resenhá-lo. E adoro estar aqui também no Livros de Fantasia. Todos vocês, Mel, Liège, Ana Merege, autores e a Editora Draco estão de parabéns por esse belo trabalho. =)
    A Cuca recomenda e muito Excalibur!

    Responder
  4. Melissa de Sá

    Então, depois de ter lido o livro todinho, venho aqui dar minha opinião. Realmente, é um livro muito bom, um prato cheio para quem gosta de histórias arthurianas ou/fantasia medieval. Inclusive, acho que o livro é um pra quem é super fã da lenda e outro pra quem não é. São das leituras bem diferentes, mas agrada os dois grupos.

    Concordo com tudo que a Karen disse nesse post e concordo com todas as estrelas dadas. Maaaaaaaaaaaaaaas, como alguém que já leu e releu muita coisa arthuriana nesse vida, meu top 3 seria: “O Espelho” (Liége Báccaro Toledo), “Cavaleiro Anônimo” (André S. Silva) e “A Dama da Floresta” (Ana Lúcia Merege).

    “O Espelho” porque além de eu ter adorado a abordagem que a Liége deu e ter levado um susto no final do conto, aquela cena final, a melancolia da protagonista Mary, aquilo ganhou meu coração. Não teve jeito. Eu adoro uma mulher melancólica. hahaha Também queria que o conto fosse um pouquinho maior pro fim, mas isso não influenciou o tanto que gostei dele.

    “Cavaleiro Anônimo” escolhi por conta do modo com que o autor trabalhou essa ideia de amadurecimento, que é algo que muito me agrada (não é a toa que esse é o tema do meu próprio conto rs). A narrativa é incrível, com ótimas escolhas. Não tem frase fora do lugar nesse conto.

    “A Dama da Floresta” é um prato cheio para quem já leu muito Arthur nessa vida. O conto inteiro é uma grande homenagem às narrativas de Arthur, especialmente a de Marion Zimmer Bradley. Cheguei no final às lágrimas por conta daqueles dois últimos parágrafos. Meu coração arthuriano balançou com esse conto.

    E qual seria o melhor de todos todos? Entendo como “O Rei às Margens do Rio” é brilhante, mas eu escolheria “Mau Conselho” (Pedro Viana). Que isso. Criativo, bem escrito, bem desenvolvido. Adorei. E como assim o autor tem 16 anos, minha gente. Pelo texto, eu nunca daria essa idade.

    Enfim, é isso. Só pra falar um pouquinho dos contos e do livro. Sempre vale a pena ler pra tirar as próprias conclusões.

    Fiquei incrivelmente feliz em fazer parte dessa antologia ao lado de trabalhos tão bacanas. 🙂 Parabéns à Draco e à Ana Lúcia Merege por esse trabalho.

    Responder
  5. francirlaini

    Olá Melissa,
    eu estava procurando por livros de fantasias e sobre Arthur e me deparei com esse site e imediatamente quando vi a promoção deste livro, eu já estou participando e desejo muito ganhar.
    Beijos!

    Responder

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