5 coisas que você precisa saber antes de começar a ler Desventuras em Série

Não é segredo pra ninguém que eu sou fã de Desventuras em Série, essa coleção de 13 livros escrita por Lemony Snicket. E também não é mistério que eu simplesmente acho que essa é uma das melhores séries já escrita. Está chocado? Então é hora de começar a ler esse post. Convido todos vocês a dar uma olhada – ou uma segunda olhada, em alguns casos – nos preceitos básicos dessa história incrível.

Aaaaaaaaaaaaaaaah! Não se assuste, é verdade, esses livros são fora de série!

Vamos começar?


Pra quem não sabe, a série conta a história de Violet, Klaus e Sunny Baudelaire. Três irmãos que perderam os pais num misterioso incêndio. Levados por sr. Poe, um banqueiro incompetente, os Baudelaire vão parar na casa de Conde Olaf, um homem pertencente a uma misteriosa organização que só quer roubar o dinheiro das crianças. Ao longo da série, os irmãos tentam escapar de Olaf e descobrir mais sobre seus pais enquanto se deparam com situações inusitadas e desventurosas.

1. Desventuras em Série é que nem cebola, você tem que enxergar as camadas.

É um livro que pode ser lido de diversas formas. Você pode lê-lo como um livro infanto-juvenil comum, com um tom engraçadinho irônico, que conta as aventuras e desventuras dos órfãos Baudelaire. É a leitura mais superficial, mas ainda é agradável, principalmente pra crianças e adolescentes.

Vá descascando a cebola e descubra os segredos narrativos… Sem pressa e com muita diversão.

Ou você pode ler como uma história que está criticando várias instâncias da sociedade, apesar do tom engraçadinho irônico. Exemplo: o primeiro livro da série, Mau Começo, é uma crítica ao sistema de adoção, tutela e herança, o quarto livro, Serraria Baixo-Astral, vai criticar o trabalho escravo e o quinto volume, Inferno no Colégio Interno, o sistema educacional e o bullying. Seguindo nessa linha, cada livro vai criticar um aspecto da sociedade e aí temos o mundo da moda, o sistema judiciário, o preconceito, as massas e até mesmo a organização da própria sociedade. Assim, aquela estrutura repetitiva da história – órfãos Baudelaire vão pra novo tutor, Conde Olaf aparece, Baudelaires descobrem a verdade, ninguém acredita e fuga – não se torna repetitiva de forma alguma. Ela serve pra mostrar que na verdade TODAS as instâncias da sociedade repetem o mesmo comportamento negligente e pouco crítico.

E temos ainda uma terceira leitura possível, aquela que vai sacar as referências literárias ao longo da série e em como Lemony Snicket está criando e recriando histórias que já foram contadas antes. Essa é pra experts.

2. O narrador é irônico

Isso pode parecer um pouco óbvio, mas em várias resenhas que eu vejo internet afora – a maioria reclamando dos livros – parece haver um descaso com esse fato. A questão é que o narrador das Desventuras em Série é irônico, destila ácido e tiradas certeiras e se você ficou confuso com alguma passagem, certamente é porque ele está sambando na sua cara e você nem percebeu.

Ah, Lemony… você nos dá tiradas o tempo todo, mas nós te amamos.

A primeira instância do narrador irônico é justamente porque ele fica o tempo todo dizendo pra você não ler o livro, porque a história dos órfãos Baudelaire é tragédia atrás de tragédia. Os livros terminam sempre com uma “carta ao editor” em que o narrador – Lemony Snicket – escreve coisas como essa (leiam sem medo, pois não há spoilers):


Caro Leitor,
Se você está em busca de uma história sobre jovens animados que se divertem a valer num internato, bateu na porta errada. Violet, Klaus e Sunny Baudelaire são inteligentes e engenhosos, e você talvez imagine que eles se sairiam muito bem no colégio. Mas não foi o caso. Para os Baudelaire, o colégio veio a ser mais um desastroso episódio em suas vidas infelizes. Para dizer a verdade, nos capítulos que constituem esta história pavorosa, eles enfrentam caranguejos que mordem, exames hiper-rigorosos, castigos duríssimos, fungos gotejantes, recitais de violinos, exercícios de D.O.R. e o sistema métrico.
É minha solene obrigação passar a noite inteira pesquisando e escrevendo a história dessas três crianças desgraçadas. Quanto a você, entretanto, nada impede que se entregue a uma bela noite de sono tranqüilo. Para conseguir isso, eu sugeriria: escolha um outro livro.
Respeitosamente,
Assinatura.gif
Lemony Snicket

Alguém tem dúvida de que isso é altamente irônico? O narrador diz o tempo todo para não se ler o livro, mas obviamente ele está fazendo isso apenas para chamar a atenção do leitor, para criar um engajamento de leitura. Eu fico pasma quando leio em algumas resenhas pessoas dizendo que o narrador está sendo verdadeiro e que não quer que os leitores leiam o livro. Gente, isso é sério? Preceitos básicos da narração, né? É apenas um artifício para fisgar o leitor e iniciar duas coisas muito importantes em Desventuras em Série: a ironia e a paródia.

3. Paródia

Desventuras em Série está parodiando várias narrativas. Através do narrador irônico, várias narrativas são parodiadas ao longo da série. Para entender o que é paródia, clique aqui. A primeira delas é a do romance realista do século XIX, aquelas histórias sofridas de órfãos que passam horrores nas mãos de pessoas injustas. O maior nome para essas histórias é certamente o inglês Charles Dickens, que escreveu vários romances nessa linha, sendo os mais famosos David Copperfield e Oliver Twist.

Clima gótico e óculos escuros modernosos? Paróoooooooooodia.

Desventuras em Série vai usar vários clichés dessas histórias de Dickens, mas ao invés de levá-los a sério, vai parodiá-los através de um narrador irônico. Quando o narrador Lemony Snicket fica enfatizando extensivamente como a vida dos órfãos Baudelaire é sofrida e difícil, ele está parodiando essas narrativas do século XIX. Qual o efeito disso?

Criar um deslocamento na leitura. Ou seja, o leitor – se ele for um leitor crítico – vai sentir-se estranho porque a história dos Baudelaire é mesmo bastante triste mas a insistência do narrador em enfatizar isso, faz com que uma sensação estranha ronde toda leitura. Essa sensação enfatiza o teor crítico do livro. Ou seja, através de um exagero desse tom de sofrimento e tudo mais, o leitor vai perceber que na verdade a narrativa é toda construída, ou seja, trata-se apenas de uma interpretação da história dos Baudelaire, não a história de verdade. O que leva a conclusão de que todas as histórias são construções, nunca a verdade. E mesmo que o narrador de Desventuras em Série diga e rediga que está contando os fatos como realmente aconteceram, isso é impossível. Uma história tem sempre um ponto de vista e um tom (que pode ser trágico, cômico, aventuresco), nunca é neutra ou imparcial.

Existem outras paródias ao longo do livro também, feitas através de referências a outros livros e os próprios nomes dos personagens. Por exemplo, Baudelaire é o nome de um poeta francês do século XIX, conhecido pelo teor dark de sua poesia.

4. Ironia – vamos lembrar de novo que Lemony Snicket está sendo irônico.

Todo volume da série começa com uma dedicatória a uma mulher chamada Beatrice. Não, essas dedicatórias não são aleatórias e já denunciam o tom irônico característico da narrativa. Por exemplo, em Inferno no Colégio Interno a dedicatória é:

Para Beatrice —
Você estará sempre no meu coração,
na minha memória
e no seu túmulo.

Parece uma declaração de amor séria, mas a última linha quebra toda a expectativa. Ela é bizarra e sem noção. E aí vamos lembrar da nossa amiga paródia. Lemony Snicket está parodiando aqueles poemas de amor do século XIX, como os de Edgar Allan Poe. Aqueles poemas em que a mulher amada é maravilhosa, linda, inatingível, e frequentemente morre no final da história. rs

Tente de novo…

O leitor então tem que ficar atento durante os livros para esses pequenos comentários irônicos. A maioria das coisas que o narrador fala são irônicas. São piadas, paródias, pastiches, referências engraçadinhas e descobri-las faz a leitura muito mais legal.

5. E no final você não vai descobrir muita coisa.

Você é daqueles que não gostou do final de Lost e odeia os livros do Stephen King porque eles não explicam nada? Então Desventuras em Série vai te deixar #chatiado. E depois não adianta xingar no seu blog literário ou no twitter porque o objetivo da série nunca foi descobrir um grande mistério, mas sim criar uma narrativa cheia de misturebas e ironias ao mesmo tempo que conta (ou não) a história dos órfãos Baudelaire.

Não se deixe enganar: não existe um mapa pra resolver mistérios nessa série.

No final, o que importa é a crítica feita. A crítica à sociedade, às pessoas, à própria literatura, à mistura de realidade com ficção. O que importa é pensar que o herói só é herói porque alguém quis assim e que o vilão só é vilão porque alguém quis assim. E que os Baudelaire podem ser vilões e Conde Olaf pode ser herói. É tudo uma questão de ponto de vita, de estrutura narrativa e de, mais importante, quem está contando a história.

*

Com esse post começo minhas resenhas de Desventuras em Série e espero que todos estejam dispostos a olhar os livros com outros olhos. Ao longo das resenhas, vou comentar mais das ironias e paródias e do narrador irônico (quem não ama Lemony Snicket?). Não pensem que para ler os livros é necessário ter uma formação em teoria da literatura. Não! O importante é estar atento, disposto a entender as coisas de um jeito que não é necessariamente ao pé da letra e não levar tudo TÃAAAAAAAAAO a sério. Assim, a leitura dessa série vai ser muito mais rica e interessante.

Vejo vocês por aí!

P.S: sim, Desventuras em Série virou filme. E sim, vou resenhar o filme também.

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

20 Responses to “5 coisas que você precisa saber antes de começar a ler Desventuras em Série”

  1. Tava esperando um empurrãozinho para começar a ler a série, acho que agora vai, rsrs. Com que frequência vão sair as resenhas? De repente dá pra acompanhar.

    Responder
    • Melissa de Sá

      Cássio, estou pensando em resenhar um ou dois livros por mês. Assim não fica cansativo, nem difícil de acompanhar pois os livros são pequenos. Seria ótimo se você lesse junto! 🙂 As discussões iam ficar mais interessantes…

      Responder
  2. Jéssica de Sá

    Resenha perfeita Mel!
    Desventuras em série é bom demais! Lendo a sua resenha, me lembrei que em diversos livros aparece aquele tipo de personagem que é uma pessoa boa, mas que não reclama de nada e tem medo de tudo. Acho que é o caso do Hector(?) em A Cidade Sinistra dos Corvos e daquele senhor que não gostava de discussões em O Elevador Ersatz. Acho que tem mais personagens que representam esse esteriótipo, mas não estou lembrando agora…

    Parabéns! Adorei!
    Beijos

    Responder
    • Melissa de Sá

      Ah que bom que gostou! 🙂 Sim, tem sempre esse personagem que é bonzinho mas que não quer conflito, uma crítica mesmo à ideia de que sem ação, estamos fazendo o mal e não o bem. Porque a ausência do bem já é o mal.

      bjs!

      Responder
  3. Como leitora assídua,sem ofensas,houve uma má interpretação da tal ”ironia”.O autor,na verdade,se chama Daniel Handler e Lemony Snicket é um personagem.É uma ótima matéria,e o seu blog é incrível,mas passei grande parte das minhas férias pesquisando sobre a série de livros e consegui obter( principalmente com base nessas páginas : http://pt-br.desventurasemserie.wikia.com/wiki/Desventuras_em_S%C3%A9rie ; http://pt-br.desventurasemserie.wikia.com/wiki/Beatrice_Baudelaire) diversas informações sobre a desventurada família Baudelaire.Beatrice Baudelaire é a mãe dos órfãos que, após negar o pedido de casamento proposto por Lemony(cujos motivos estavam em um livro de 200 páginas escrito por ela),casou-se com Bertrand Baudelaire,consequentemente,o pai das crianças.Desculpe-me pelo incômodo,espero não haver lhe fornecido nenhuma informação já conhecida e que tenha entendedido a relação entre Lemony e Beatrice,retirando a ironia daquela dedicatória previamente(provavelmente) não compreendida

    Responder
    • Oi Alícia, que bom que você gosta do blog!

      Sim, eu conheço a história da Beatrice com o Lemony Snicket (e sei que ele é um personagem/pseudônimo de Daniel Handler). Mas a questão é que a ironia permanece. Ele está ironizando o estilo usando no Romantismo do século XIX. Na verdade, ele faz isso o tempo todo como narrador! Não importa que o romance tenha existido, o narrador faz referência a esse tipo de literatura em suas dedicatórias.

      abs

      Responder
  4. muito bom o post, estou lendo o livro em inglês e, apesar de ir aos trancos e barrancos, mas entendendo as situações, fica aquela vontade enorme de ler em português, principalmente agora, para me ater ás tais referencias e características da narrativa.

    Responder
  5. Nossa, eu achei essa série que a Netflix vai lançar um máximo, fui procurar saber mais e descobri que tinha livros, não fazia ideia, e, depois descobri ainda que existe o filme. Estou em choque! Fui procurar os livros e me deparei com a sua resenha, me interessei ainda mais pela leitura, quero ler logo! :O

    beijos,
    Mandy.
    deloucostodossomosumpouco.blogspot.com.br

    Responder
  6. Estava fazendo algumas buscas relacionadas a série da Netflix baseada nos livros e encontrei essa sua espetacular resenha! Vi que é uma postagem antiga, mas você fez aqui algo tão maravilhoso que não consegui resistir em comentar. Você mostrou um olhar incrivelmente inteligente sobre os livros e tenho quase certeza que, se eu houvesse lido esse livro anteriormente (não conhecia, mas agora que conheço, prefiro assistir toda a série antes), não teria tido essa sua interpretação.
    Parabéns! Fique com DEUS!

    Responder
  7. Você me daria a permissão de citar seu blog e esse post em um dos vídeos pro meu canal? Pretendo falar “Coisas que precisa saber antes de ler/ver Desventuras em serie” com meus pontos e opiniões e concordando com os que escreveu nesse post. Parabéns pelo seu trabalho!

    Responder
  8. Olá Melissa,
    Gosto muito de incentivar a leitura em meus filhos e foi em pesquisas que encontrei esta série.
    Você acha que uma criança de 9 anos conseguiria ler e entender estes livros?
    A linguagem seria apropriada pra ele?
    Obrigada!

    Responder
  9. Eu já li essa série e só não chorei porque não sou um desses, mas eu esperava um final feliz, sem a morte ou sumiço dos Quagmire. Eu andei pesquisando na Internet o final da história e descobri que no livro The Beatrice Letters há indícios que Beatrice Baudelaire está viva e que ou os Quagmire e Baudelaire estão vivos e juntos pois os dois tiveram o mesmo destino ou que todos morreram.

    Responder

Leave a Reply

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>