Desventuras em Série Vol.1 – Mau Começo

Título: Mau Começo

Título original: Bad Beggining

Autor: Lemony Snicket

Ano de publicação: 2001 (primeira edição de 1999)

País de origem: Estados Unidos

Tradução: Carlos Sussekind

Editora: Cia das Letras – 152 páginas

Mau Começo, como o próprio nome já diz, é o início da série de desventuras dos irmãos Violet, Klaus e Sunny Baudelaire. Lemony Snicket é o narrador irônico que, dedicando tudo à memória de sua amada morta Beatrice, decide contar a história dos Baudelaire em 13 livros de 13 capítulos cada. Numa história cheia de símbolos e referências, o leitor tem que saber ler as pistas e assim aproveitar cada pedacinho dessa série deliciosa.Desventuras em Série é frequentemente mencionada como uma série steampunk ou mesmo gótica. Steampunk porque o vestuário e a tecnologia são da época da invenção da máquina a vapor, como se fosse um século 19 alternativo. Gótico porque o clima é soturno, há vários castelos e outros lugares inóspitos, e um quê de mistério e sobrenatural não muito bem explicado. Mas quem leu o artigo 5 coisas que você precisa saber antes de começar a ler Desventuras em Série vai se lembrar que na verdade o narrador está ironizando as convenções desses gêneros literários. Ou seja, os clichés acontecem (a mocinha é resgatada, pode ser que um mistério misterioso seja resolvido), mas sempre de um modo irônico e um tanto absurdo.

Em Mau Começo, Violet, Klaus e Sunny recebem a horrível notícia de que seus pais morreram em um incêndio criminoso que destruiu toda a mansão da família. A família Baudelaire é extremamente rica e as três crianças são as únicas herdeiras. O Sr. Poe, um banqueiro totalmente inepto, inadequado e idiota (rs), é o responsável por fazer com que o testamento de mãe e pai Baudelaire se cumpra. O problema é que o sr. Poe lê tudo ao pé da letra: quando o testamento dos Baudelaire diz que seus filhos devem ir para o parente mais próximo, Poe brilhantemente os manda para Conde Olaf, um primo distante que vive a alguns quilômetros da cidade. É.


Obviamente que Olaf só está interessado na fortuna dos Baudelaires. Além do nome conde, Olaf é um ator desempregado e em decadência que mora numa casa caindo aos pedaços. Mas apesar disso, ele realmente acha que é um bom ator. O que, desde a primeira cena, fica claro que ele não é. Quando descobre que não poderá ter acesso à fortuna das crianças (que será de Violet quando ela fizer 18 anos), ele logo trata de parar com a atuação (que já era medíocre) e mandar as crianças pro sótão com uma imensa lista de tarefas ultrajantes pra fazer.

Assim temos um claro diálogo com os livros de órfãos do século XIX, como David Copperfield e Oliver Twist. Mas diferente dos livros de Dickens, os Baudelaire dificilmente se dão bem, como o narrador não cansa de nos dizer o tempo todo. E Lemony Snicket é um narrador brilhante com suas ironias e comentários atravessados.

Não sei se vocês já perceberam, mas as primeiras impressões muitas vezes são inteiramente falsas. (…) Na primeira vez que você experimenta queijo gorgonzola, pode achar que é forte demais, mas, quando você for mais velho, pode querer não comer outra coisa na vida a não ser queijo gorgonzola. (…) Eu gostaria de poder dizer para vocês que os Baudelaire estavam enganados nas primeiras impressões. Mas aquelas impressões – de que o conde Olaf era uma pessoa horrível e de que sua casa era um chiqueiro deprimente – estavam absolutamente corretas.

Violet é a irmã mais velha, 14 anos, e é uma inventora. Ela possui uma mente lógica e boa para trabalhos manuais. Klaus, o irmão do meio, 12 anos, é um apaixonado por livros e tem uma memória fora do comum. Sunny é apenas um bebê que mal fala (apenas grunhe) e morde tudo que vê pela frente. Apesar de parecerem caricatos (pois Violet sempre vai inventar alguma coisa, Klaus vai ler um livro que vai ajudar a resolver a situação e Sunny vai ser fofinha rs), ao longo dos livros essas características vão sendo questionadas e desenvolvidas de um jeito interessante. Então fiquem de olho!

Ah sim, o que me leva a falar do olho. Conde Olaf tem uma estranha tatuagem em forma de olho no tornozelo e a torre de sua mansão decadente também tem a forma de um olho. Sua trupe teatral se assemelha estranhamente a uma gangue de criminosos e o comportamento abusivo do próprio Olaf parece ligar isso tudo a comportamentos pouco aceitáveis pela lei. Mas, o que é que ele está tramando para ficar com a fortuna das crianças? E o que a peça de teatro O Casamento Maravilhoso tem a ver com tudo isso?

Mau Começo é uma crítica brilhante a como o sistema de herança e testamento pode ser absurdo, muitas vezes prejudicando aquelas que deviam estar sendo ajudados. Também é um comentário sobre como leis, quando levadas ao pé da letra, podem ser absurdas e nocivas. Quando ler este livro, pense mais no que numa história juvenil: pense no quadro maior, no que está sendo questionado. E no narrador, porque como eu disse, ele é a melhor parte do livro.

Curiosidade: o nome Baudelaire é uma referência ao poeta francês Charles Baudelaire, que costumava vaguear pelas ruas de Paris à noite e tinha um comportamento considerado por muitos como excêntrico. Baudelaire é famoso por seu livro de poemas intitulado As Flores do Mal.




Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

10 Responses to “Desventuras em Série Vol.1 – Mau Começo”

  1. Eu sou apaixonada por essa série, eu adoro as críticas que o autor embute na história, e que dó que eu tenho dos irmãos. Eu acho o Lemony um narrador fantástico, adoro como ele as vezes nos antecipa os acontecimentos, dando spoiler da própria história. Eu tenho um ódio tão mortal do Sr. Poe, ele é a imagem perfeita de um burocrata.

    bjs

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    • Melissa de Sá

      Os spoilers do Lemony são a melhor parte da história! hahahahahaha A gente fica “como assim???????” de choque quando ele conta tudo, mas fica doido pra ler o resto e ver o “como aconteceu”.

      Verdade, senhor Poe é o exemplo do burocrata. Não tinha pensado nisso, mas ele é literal, idiota e não consegue pensar por ele mesmo.

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  2. Ô dó dessas crianças viu!
    Para mim que li o livro pela primeira vez, com certeza o que mais marcou é a narrativa, como o narrador joga com o leitor, brinca com nossa teimosa expectativa de um final feliz.
    Ele consegue ao mesmo deixar claro que essa não é uma história feliz, mas ao mesmo tempo alimentando aqui e ali nossa esperança. Tanto é verdade que ainda espero que a história desses irmãos tenha um final feliz, mas… sabe como é né.

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    • Melissa de Sá

      Pois é, Cássio. As nossas expectativas vão pra cima e pra baixo o tempo todo nessa série. Mas a esperança é realmente a última que morre nesses livros.

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    • Melissa de Sá

      O problema é que a série é imensa, o bom é que os livro são pequenos. A edição também é lindona, né? Acho que são bons livros pra ler entre livros maiores, sabe. Quando a gente tá naquela ressaca literária. rs

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  3. A escrita do Lemony Snicket é realmente muito marcante, especialmente a maneira como ele joga com o leitor. Mesmo avisando que essa não é uma história comum, de final feliz, ainda assim, aqui e ali vai alimentando a expectativa e nossa teimosa esperança de ver os irmãos terem sim, um final feliz. Essa mistura de esperança e dúvida é que leva o leitor a devorar o livro até o fim, ou quase fim.

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    • Melissa de Sá

      Sim, Cássio, eu também tenho essa sensação. A gente fica tão apreensivo que vai lendo e lendo e na hora que vê… acabou o volume e tem que esperar pra próxima sessão de desgraças.

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    • Melissa de Sá

      Cássio, não tem problema nenhum, gosto muito dos seus comentários por aqui. 🙂 É que o primeiro ficou perdido como spam um tempão, não sei porque…

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