Especial de Natal: O Quebra-Nozes

É Natal é Natal e uma das histórias mais ouvidas nos cantos por aí é justamente O Quebra-Nozes. Essa história infantil de fantasia sobre uma menina, um boneco quebra-nozes e suas aventuras na noite de Natal é contada e recontada de diversas formas todo fim de ano. Temos vários especiais de filmes, seriados, desenhos animados e peças de teatro passando por aí justamente com essa trama. Mas vocês sabem qual é a origem desse conto de Natal? Leiam esse post para descobrir.


Errou quem disse que é o ballet O Quebra-Nozes. ho ho ho Eu também fiquei pasma. Mas O Quebra-Nozes original é um conto de E.T.A. Hoffmann, um autor alemão do século 19. Hoffman escreveu várias histórias de horror e fantasia e um de seus contos mais conhecidos é “O Homem de Areia” (“Der Sandmann”). Inclusive o nome de Hoffman não é estranho (sic) para quem estudou um pouco de psicanálise, uma vez que Freud interpretou “O Homem de Areia” em seu famoso ensaio “O Estranho” (“Das Unheilmiche”) de 1919.

O Quebra-Nozes e o Rei Rato ( Nussknacker und Mausekönig) foi publicado em 1916 e é considerada uma obra de fantasia infantil. Na história de Hoffman, Marie, uma menina de sete anos, ganha de seu padrinho, um relojoeiro, uma espécie de relógio-castelo com bonecos que se mexiam dentro dele. De início, Marie e as outras crianças da casa ficam maravilhadas com o presente, mas logo perdem o interesse nele porque por mais que um relógio-castelo seja interessante, ele se torna repetitivo depois de um tempo. Entediada, ela encontra um boneco quebra-nozes e seu pai, tentando animá-la, diz que a garota será a guardiã dele. Quando o irmão de Marie quebra o maxilar do boneco ao tentar quebrar uma noz muito grande nele, Marie cuida do boneco colocando uma “bandagem” nele, coloca-o para dormir e diz a ele que seu padrinho consertará seu maxilar quebrado. Nessa hora, a menina tem a impressão que o boneco sorri.

O conto de Hoffmann.

Mas as coisas ficam mais estranhas. Enquanto todos dormem, Marie tem a impressão de ver seu padrinho sentado no relógio-castelo, de modo que o mesmo não dê as badaladas da meia-noite. Um monte de ratos sai da geringonça, as bonecas lá dentro tomam vida e o Rei Rato, que tem sete cabeças, aparece para uma verdadeira batalha. O quebra-nozes se junta à confusão e quando ele está quase sendo sequestrado pelo Rei Rato, Marie o salva, mas acaba se cortando com um pedaço de vidro. Na manhã seguinte, a garota acorda e conta a todos o que aconteceu, mas ninguém acredita, dizendo que era tudo alucinação por causa de sua ferida, que a deixou com febre. Mas o padrinho da menina conta a ela uma história sobre a maldição do Quebra-nozes, uma história bastante estranha. Ainda intrigada com tudo que ouve, Marie começa a ser ameaçada pelo Rei Rato e decide defender o Quebra-nozes a todo custo. No final do conflito, ela viaja com o Quebra-nozes para uma terra mágica e vê coisas incríveis.

Não vou contar mais da história, mas já digo que ela é um pouco diferente da que estamos acostumados. Um pouco mais estranha, eu diria. Vocês podem comprar o ebook do conto de Hoffmann por um preço muito barato (pouco mais que R$2) na Amazon e Kobo (em inglês). Em português, vocês podem encontrar em qualquer antologia de contos do Hoffmann. Não achei nenhuma versão em ebook traduzida. Mas tem o original alemão, que é gratuito, caso alguém queira. rs

Em 1844. Alexandre Dumas pai (sim, aquele de Os Três Mosqueteiros) fez uma versão para essa mesma história entitulada Histoire d’un casse-noisette, conhecida em inglês como The Tale of the Nutcracker (O Conto do Quebra-Nozes, numa tradução para português). Pelas informações que encontrei na internet, Dumas acrescentou vários detalhes à história de Hoffmann, mas manteve a linha de história original. No entanto, Marie na versão de Dumas se chama Mary e o Quebra-nozes ganha o nome de Nathaniel.  Pode parecer estranho que um autor faça uma versão da história de outro, mas é preciso ter em mente que no século 19 essa era uma prática comum e a noção de direitos autorais estava ainda se desenvolvendo. Existe uma publicação da Penguin com a história de Hoffmann e de Dumas juntas. Vocês podem enocontrar na Amazon e Kobo (em inglês). Não achei traduções do texto de Dumas para português.

Alexandre Dumas pai fez uma versão para a mesma história.

O Quebra-Nozes de Dumas fez bastante sucesso na época e inspirou a criação do ballet O Quebra-Nozes. Tchaikovsky, depois do bem-sucedido A Bela Adormecida (1890), foi convidado a compor mais um ballet. Novamente, ele trabalhou com Marius Petipa (grande coreógrafo do ballet russo) que escolheu a adaptação de Dumas para um ballet em dois atos. Petipa parece ter sido bem exigente com Tchaikovsky, precisando detalhes bastante específicos para a composição. No entanto, Petipa ficou doente durante o trabalho coreográfico e seu assistente, Lev Ivanov, fez grande parte das coreografias. Então quando falamos no Quebra-Nozes de Petipa, estamos na verdade falando do Quebra-Nozes de Petipa e Ivanov.

Alguns detalhes foram omitidos nessa adaptação, o mais significante deles é a parte em que o padrinho de Marie conta a ela a origem do Quebra-nozes. No ballet, o primeiro ato é a Noite de Natal da família e o segundo é a viagem para a terra mágica. Os nomes dos personagens também variam. O libreto de Petipa mantém o nome Marie, mas em algum momento ela passou a se chamar Clara (não encontrei exatamente quando). Na história de Hoffmann, Clara é o nome da boneca de Marie. Na Rússia, a protagonista tem o nome de Marsha.

O engraçado é que O Quebra Nozes, lançado em 1892, teve resenhas ambíguas. A maioria das críticas negativas apontavam o fato de o ballet ser dançado quase que majoritariamente por crianças (na época, Clara e o Quebra-Nozes, os grandes protagonistas, foram interpretados por dois alunos de ballet, não por adultos, como vemos com frquência hoje em dia). A prima-bailarina só aparecia no final do segundo ato, para dançar o Grand Pas De Deux (quando um bailarino e uma bailarina dançam juntos) da Fada Açucarada e Seu Cavaleiro. As críticas mais positivas ficaram mesmo para a música de Tchaikovsky.

Na produção original de O Quebra Nozes: Stanislava Belinskaya como a menina Marie/Clara e Vassily Stukolkin como o irmão de Clara, Fritz.

Desde então, muitos revivals e adaptações do ballet aconteceram. Inúmeros coreógrafos refizeram O Quebra-Nozes e hoje em dia é mais comum ver Clara e o Quebra-Nozes sendo interpretados por adultos. Algumas coreografias são mais baseadas na obra de Petipa e Ivanov, outras já constroem algo totalmente diferente.

A tradição de se dançar O Quebra-Nozes no Natal começou em 1944, quando o San Francisco Ballet, companhia dos Estados Unidos, remontou o espetáculo com enorme sucesso. Desde então companhias de dança dos EUA e de todo o mundo preparam uma versão de O Quebra-Nozes para o fim do ano.

Pode-se dizer que é por causa do ballet e seu enorme sucesso nos EUA que O Quebra-Nozes se tornou uma tradição natalina. É impossível hoje acompanhar o número de adaptações literárias, fílmicas e artísticas dessa história, que realmente tomou conta do Natal. Quando criança, lembro que sempre via algum desenho animado contar essa história num especial de fim de ano e o primeiro filme que vi com essa história sendo contada inteira foi um filme da Barbie. Sério.

A música de Tchaikovsky para esse ballet é muito mais conhecida do que se pode imaginar. Certamente é possível reconhecer trechos desse ballet não só no Natal (quando toda loja de departamento toca), mas também em valsas de quinze anos, casamentos e outros eventos. Mas vale a pena conhecer as origens: que seja o conto de Hoffmann ou o ballet. É arte para todos os gostos.

A seguir, alguns trechos famosos do ballet:

Variação da Fada Açucarada

Toca SEMPRE.

Valsa das Flores

Gente, isso aqui tem em TODA festa de quinze anos.

Um Natal fantástico para todos vocês!

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

12 Responses to “Especial de Natal: O Quebra-Nozes”

  1. Liége Báccaro Toledo

    Ai, que texto gostoso de ler, Melissa! E essas músicas do balé, então… eu sugiro que todo mundo assista Fantasia, da Disney (o primeiro) para ver essas duas delicadezas musicais de Tchaikovsky em uma versão animada maravilhosa… se bem

    Eu até sabia que O Quebra-Nozes era um conto alemão, mas nunca me toquei de ir atrás para ler… deve ser muito interessante mesmo!

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    • Melissa de Sá

      Que bom que você gostou! Eu fiquei surpresa ao saber que essa história era um conto. Eu não sabia. Fui descobrir enquanto pesquisava… E sim, eu me esqueci de Fantasia, que tem váaaaaaaaaaaaaarias músicas do Tchaikovsky! Uma ótima introdução a esse compositor, aliás.

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      • Liége Báccaro Toledo

        Eu só sabia porque estudei em um colégio de freiras que vieram da Alemanha por um bom tempo, e se não me engano teve um teatrinho lá… mas lembro de alguém ter me contado que era uma história alemã 😀

        Ai, Fantasia é uma maravilha e realmente tem um monte de Tchaikovsky… é tão lindo!

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    • Melissa de Sá

      Ué, to esperando então uma resenha sua de Fantasia. Acho que esse é um desenho que tem tudo a ver com o blog…

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    • Melissa de Sá

      Camila, que bom que você gostou! Eu também não sabia que era um conto, fui descobrir quando escrevi esse post. Mas foi legal saber as origens. Até porque o Hoffmann é um autor importante pra fantasia em geral.
      bjs

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  2. Li seu blog e creia, são informações importantes e de muita clareza. Estamos iniciando ensaios para que as crianças do Projeto Sapatilhas (www.projetosapatilhas.art.br), incentivado pela Lei Rouanet e patrocinado pela ZF do Brasil (empresa alemã), utilizem parte do Quebra-Nozes para apresentação de conclusão deste projeto.
    Peço sua permissão para utilizar trechos de sua fala, citando a autora, para que as crianças conheçam a origem do conto e os detalhes que se seguiram até chegar ao balé.
    A apresenta ocorrerá no próximo dia 05 de dezembro de 2015, na cidade de São Bernardo do Campo – SP nas depedências do clube esportivo da empresa.
    Como é um projeto de cunho sociocultural, que contempla crianças em vulnerabilidade e não tem condições de acesso a espaços que proporcionem o ensino da dança, o ingresso das pessoas da comunidade e público em geral será gratuito e esperamos reunir perto de 400 pessoas no evento.

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