O Silmarillion

Título: O Silmarillion
Título Original: The Silmarillion
Autor: J.R.R. Tolkien
Ano de publicação: originalmente em 1977
País de Origem: Inglaterra
Editora: Martins Fontes (2009)
Número de páginas: 460

E eis que minha última postagem do ano (sou eu, Liége, a colunista titubeante!) no Livros de Fantasia não poderia ser outra. Achei que uma boa forma de fechar 2013 por aqui seria resenhando uma das minhas obras de fantasia favoritas, e uma das leituras mais interessantes e imersivas que já fiz. Sim, estou falando da obra-prima de J.R.R. Tolkien, O Silmarillion.
O Silmarillion é um compêndio de histórias que começou a ser desenvolvido em 1917 pelo autor, enquanto ele sofria em uma cama de febre das trincheiras após a Primeira Guerra Mundial. Embora os primeiros rascunhos datem de 1925, foi nessa situação triste e penosa que Tolkien vislumbrou personagens, cenários e tramas essenciais para a criação de sua Terra-Média. Contudo, apenas em 1937, vinte anos depois, Tolkien chega a publicar uma obra – o famoso e querido O Hobbit, que foi um sucesso crítico e financeiro.

A partir desse sucesso, o editor de Tolkien pediu a ele que escrevesse uma continuação para O Hobbit, no que ele lhe enviou alguns dos rascunhos de O Silmarillion. O editor, no entanto, recusou a obra, considerando-a muito obscura e “celta demais” (por seu caráter épico e trágico que em muito lembrava as lendas e mitologias de outros povos, incluindo aí os celtas). A partir de então, Tolkien passou a trabalhar em uma outra história envolvendo hobbits, que posteriormente se transformaria em sua mais famosa obra – O Senhor dos Anéis.

Em 1950, o autor voltou a trabalhar com O Silmarillion, desenvolvendo questões filosóficas e teológicas relacionadas à cosmologia e ao desenvolvimento do mundo e do universo criado por ele. No entanto, Tolkien não teve tempo de revisar e concluir o livro adequadamente antes de sua morte. Foi então que, na década de 70, Christopher Tolkien, seu filho, uniu e editou as cinco partes que compõem O Silmarillion, de modo a produzir uma narrativa coesa. Finalmente, em 1977, sessenta anos depois dos primeiros vislumbres, o livro foi publicado postumamente.

É interessante comentar que Tolkien trabalhou demoradamente na construção de O Silmarillion, compondo as cinco partes que dele fazem parte separadamente. Ele frequentemente era assaltado por dúvidas em relação a passagens da história de Arda (o mundo/universo de Tolkien, onde obviamente está a Terra-Média). Como nós podemos notar mesmo quando lemos O Hobbit e O Senhor dos Anéis, essa história e a cosmologia de Arda foram sendo feitas aos poucos, de forma cuidadosa. E é isso que encontramos em detalhes em O Silmarillion, que narra desde a criação de Arda pela música dos Ainur (espíritos primordiais criados pelo pensamento de Eru Ilúvatar, o Deus supremo), passando pelo nascimento dos filhos de Ilúvatar (elfos e homens, posteriormente), guerras e conflitos envolvendo as Silmarils, pedras que possuem a luz das duas árvores sagradas de Valinor (uma espécie de paraíso no mundo de Tolkien), o surgimento do terrível Morgoth e de Sauron, a história de amor de Beren e Lúthien, a queda de  Númenor (entre muitas outras coisas)… ou seja, passamos pela Primeira e pela Segunda eras da Terra-Média, e chegamos até o começo da Terceira. Sendo assim, as cinco partes do livro são: 1 – Ainulindalë, que conta da criação do “mundo que é”; 2 – “Valaquenta (O Relato dos Valar)”, que dá a descrição dos Valar e Maiar, os poderes sobrenaturais do mundo de Tolkien; 3 – Quenta Silmarillion (A História das Silmarils), a maior parte do livro, que narra a história dos eventos antes e durante a Primeira Era; 4 – Akallabêth, que conta a história da Queda de Númenor e seu povo (humanos), na Segunda Era, e 5 – Dos Anéis de Poder e a Terceira Era, que traz um breve relato sobre os acontecimentos que iriam desembocar na história que vemos em O Senhor dos Anéis.

Eu diria que O Silmarillion é m livro maravilhoso, mas não aconselharia para quem não é bastante fã da obra e da escrita de Tolkien. Mesmo porque, ao contrário de O Hobbit e O Senhor dos Anéis, nos quais nós temos personagens envolvidos em um enredo com o qual conseguimos nos identificar mais facilmente, O Silmarillion possui uma “costura” bem alinhavada de trechos que passam por várias figuras e acontecimentos, por vezes contando fatos em uma só página e por vezes se estendendo muito mais. Temos uma profusão de nomes (e alguns personagens tem mais de um nome) e lugares diferentes, e sem foco e atenção, é bem possível se perder no que está acontecendo. Ou seja: não é leitura fácil e despretensiosa, e sim densa, exigente. O Silmarillion não é uma “história”, na acepção mais comum (personagens + situação inicial + conflito + clímax + desfecho), e sim uma narrativa mitológica, de gênese, origem. Ali o importante não é o individual, e sim o todo, o cosmo… portanto, os personagens aparecem de acordo com a sua importância naquele grande universo que vai sendo descortinado. E por mais que Tolkien traga ideias que em si não são originais (a história de Túrin Turambar ecoa lendas finlandesas, por exemplo, a própria criação de Arda por meio de música não é estranha a outras mitologias, Númenor é comparada à Atlântida), ele dá vida, carne, osso e muita poesia a todas essas narrativas, colocando uma alma e um senso de realidade em seus escritos que chega a ser palpável – e emocionante. Eu me lembro de ter sido arrebatada pela coragem do elfo Fingolfin ao desafiar Morgoth, pelo amor infindável de Lúthien e Beren, a elfa e o humano que se apaixonam, pela narrativa maravilhosa da viagem de Ëarendil pelos mares, pela trágica história de Túrin Turambar, pela queda da cidade élfica de Gondolin e de Númenor, a maior cidade dos homens na Segunda Era…

Impossível não se apaixonar pela força da narrativa de Tolkien nesse livro, e não ser tragado para seu mundo. No entanto, embora O Silmarillion seja a primeira obra a ser lida se formos respeitar a cronologia da Terra-Média, eu aconselho primeiro a leitura de O Hobbit, depois de O Senhor dos Anéis, e em terceiro O Silmarillion e outros como Contos Inacabados, exatamente pela densidade do texto. O Silmarillion não é um livro que se deve ler procurando apenas leve entretenimento. É quase como um estudo que fazemos para desvendar o apaixonante mundo de Tolkien. Ah, e quem reclama da ausência de figuras femininas fortes no trabalho do professor (se bem que eu acho Éowyn uma heroína incrível, e gosto das presenças de Arwen e Galadriel) poderá ver mais mulheres bastante relevantes em O Silmarillion, embora Lúthien, a mulher de maior destaque no livro, seja uma heroína romântica (eu, particularmente, não me incomodo nem um pouco com isso, ainda mais porque Tolkien não deixa de retratá-la como uma personagem forte, dando banho em muitas heroinas românticas de hoje em dia).

Fica aqui um adendo: foi lendo O Silmarillion que eu passei a entender melhor o espírito das histórias de Tolkien e da Terra-Média, e me tornei um pouco mais reservada em relação às adaptações cinematográficas. Eu adoro a trilogia O Senhor dos Anéis para o cinema até hoje, mas ver A Desolação de Smaug com todos aqueles combates de videogame, pirotecnia e personagens superficiais é um pouco difícil para quem entendeu que as narrativas de Tolkien são sobre um mundo bastante complexo e pessoas cheias de debilidades e paixões que enfrentam extremas dificuldades e mesmo assim conseguem sobrepujá-las para defender aquilo que lhes é caro (ou não – também temos muitas tragédias). Ao contrário do que as pessoas devem pensar depois de assistirem as adaptações de Peter Jackson, nem mesmo os elfos são perfeitos nesse universo – aliás, muito pelo contrário. O elfo Fëanor, por exemplo, é um grande exemplo de um personagem extremamente passional e vingativo, que morre vitimado pela própria obsessão.

O Silmarillion é uma obra tão marcante que obviamente inspirou muitos trabalhos, mas entre eles gostaria de ressaltar o álbum Nightfall in Middle-Earth da banda alemã de metal melódico Blind Guardian, um clássico e um álbum maravilhoso para quem gosta do estilo, que acompanha e musica várias passagens do livro. Destaque para a música Time Stands Still (At the Iron Hill), que narra a corajosa batalha entre Fingolfin e Morgoth e me arrepia da cabeça aos pés.

Se você gosta de Tolkien e quer saber mais sobre seu universo, e conhecer melhor a visão do próprio professor sobre ele… leia, leia sem medo, nem que seja devagar. Se você não gosta de narrativas mais rebuscadas ou densas, se não gosta de fantasia clássica medieval, se não curte essa pegada épica/mitológica, eu não recomendo. Mas fica a dica para uma leitura que foi, para mim, uma experiência de vida. Peço desculpas já pelo caráter superficial da resenha dada a profundidade da obra, mas eu escreveria um livro caso fosse abordar todas as peculiaridades de O Silmarillion… então, deixo aqui um apelo para que leiam caso a resenha tenha despertado a curiosidade de vocês!

 

13 Responses to “O Silmarillion”

  1. Melissa de Sá

    Liége, que resenha ótima! Achei que você falou muito bem da ambientação da obra e foi sincera na recomendação. Também deu pra sentir o tanto que esse livro foi importante pra você. Eu adoro esse toque mais pessoal nas resenhas. 🙂

    Sei que muita gente reclama do estilo do Tolkien, mas eu confesso que ele não me incomoda. É uma questão mesmo de entrar no clima da Terra Média e se acostumar. Tem algumas passagens lentas demais? Tem. Mas também o Stephen King costuma enrolar. Eu gosto do estilo do Tolkien – a ênfase dele é sempre no ambiente e nunca na ação – e a importância dele na fantasia é absurda. Toda essa criação de mitologia se tornou um marco para o gênero como o conhecemos hoje. E ele criou um mundo completo em todos os sentidos.

    Vou confessar que não li o Silmarillion todo, apenas trechos, mas meu marido tem esse livro e vivo namorando a ideia de lê-lo todo. Promessa de ano novo agora.

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    • Liége Báccaro Toledo

      Esse livro foi mesmo muito importante para mim, Melissa. A obra do Tolkien como um todo fez parte da minha vida numa época muito importante e ainda me é muito querida (acho que é semelhante ao que aconteceu com você em relação ao Harry Potter, né? Que eu também adoro, diga-se de passagem). O Silmarillion me ajudou até mesmo na criação do eu humilde mundo em O Enigma da Lua.

      O estilo do Tolkien também não me incomoda, nem um pouco, mas eu consigo entender porque tem gente que não gosta. Sim, ele é lento demais de vez em quando, mas eu até acho que essa minúcias realmente enriquecem a ambientação, que como você bem disse, é sempre o foco. Eu acho que, em um mundo onde a gente sempre está em um ritmo tão frenético, de vez em quando até faz bem entrar em contato com uma narrativa dessas, sabe… hoje em dia até as histórias tem que ser cheias de adrenalina e rápidas como o raio!

      Tolkien realmente tem uma importância absurda na fantasia, isso não se pode negar… leia sim O Silmarillion, Melissa. Como eu disse, não é um livro super fácil, mas é uma obra que você não precisa ler freneticamente, pode ir lendo devagar, saboreando cada parte. Meu cunhado, que também adora Tolkien, tem uma dica legal sobre O Silmarillion: se você gostou dos apêndices de O Senhor dos Anéis, vai curtir ler O Silmarillion. Acho que vale deixar esse conselho aqui :D. Mas eu acho que você vai gostar, Melissa, até mesmo porque já leu algumas partes.

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      • Melissa de Sá

        Sim, eu entendo isso que você quer dizer de ter uma ligação emocional forte com um livro… 🙂

        Eu também acho que às vezes é necessário dar uma pausa no rítmo frenético da vida. Inclusive, não é necessário ser frenético para que um livro seja bom. Infelizmente, isso parece estar virando uma regra por aí. Vários livros lentos são ótimos. Acho que muitos leitores precisam abrir mais a cabeça, sabe.

        Eu adorei o apêndice de O Senhor dos Aneis! Eu li partes de Silmarillion (eu lia na livraria, porque na época não tinha dinheiro pra comprar). Mas agora tenho um exemplar em casa, então não tem desculpa. Vou ler sim. Tenho certeza que vou gostar.

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  2. Parabéns pela resenha! A única obra que li de Tolkien foi a trilogia Senhor dos Anéis (já faz algum tempo, então não lembro dos detalhes), ainda assim, achei a experiência incrível: acho que nenhum outro autor que li até o momento construiu um mundo tão complexo e detalhado. Também gosto da maneira como ele explora os defeitos dos personagens. Há muito tempo que me interesso em ler “O Silmarillion”, mas depois de ler sua resenha me decidi por ler “O Hobbit” e reler “Senhor dos Anéis”, pelo que vejo terei uma experiência muito melhor!
    Abraços!

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    • Liége Báccaro Toledo

      Laís, obrigada!!

      O Silmarillion tem uma narrativa mais mitológica, Laís, e por isso eu acho que deve ser lido depois que a gente já se acostumou com a narrativa do autor e já está mais interessada nesse mundo maravilhoso dele. É um livro com um tom muito diferente, que eu não recomendaria como leitura para adentrar o mundo de Tolkien mesmo. Mas eu acho que, pelo seu interesse pelo mundo do professor, você vai curtir bastante, principalmente se fizer a leitura nessa ordem!

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  3. Oi, Liége.
    Quando terminei de ler O Senhor dos Anéis, quis ler todos os livros do Tolkien. O próximo que li foi o Hobbit e depois peguei esse livro… E foi aí que tudo desandou… Acho que não é o tipo de livro para mim, mesmo sendo fã dos outros livros do autor! O que é uma pena!!
    Quem sabe um dia consigo ler o livro até o fim!
    Beijos
    Camis

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    • Liége Báccaro Toledo

      Mas sabe, Camila, eu acho que muitos não gostam do estilo do Silmarillion mesmo, e não há nada de errado nisso. É um livro muito diferente, denso, como um tratado de mitologia mesmo, e certamente não nos prende como O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Minha paixão por ele está nos detalhes, na ambientação que vai sendo construída, nas narrativas heroicas e trágicas, até mesmo porque eu me interesso muito pela criação de mundos de fantasia e cosmologia por gostar de escrever. Mas certamente não é um estilo que agrada todo mundo.

      Eu espero que um dia você consiga ler até o final sim, porque afinal, eu acho um livro lindo, incrível, e que merece uma segunda chance XD. Mas eu entendo os motivos que levam as pessoas a não gostar.

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  4. Eu estou entre as fãs de Tolkien que passou com dificuldade por Silmarillion e Contos Inacabados. Mas isso aos 17 anos. Quem sabe, chegando aos 45 e com uma bagagem bem maior, eu consiga viajar mais harmoniosamente pelo épico?

    Belo texto, minha querida!

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    • Liége Báccaro Toledo

      Ah, Ana, mas eu acho que se eu tivesse lido aos 17 também teria tido dificuldades XD. Eu li aos 24, enquanto estava terminando o primeiro Enigma da Lua, e acho que foi o momento certo, porque fiquei encantada e inspirada pela narrativa. Contos Inacabados eu ainda não li, mas pretendo fazê-lo esse ano.

      Com certeza você leria com outros olhos agora, se surgir uma oportunidade dê uma segunda chance a ele XD.

      Obrigada por ter lido e comentado!

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  5. Acho que o Silmarilion lido fora das referências teológicas e filosóficas com as quais ele dialoga acaba sendo bem pouco aproveitado, ao contrário do Senhor dos anéis e do Hobith, por exemplo, que pode ser lido sem que conheçamos qualquer coisa a respeito de catolicismo, mitologia, filosofia e aquilo tudo que entupia a mente do Tolkien. É bonito e tudo o mais, mas essa força imagética é só uma parte do que está sendo dito. Creio que o li uma vez só, sendo pego mais pelo aspecto estético e mítico que ele põe ali, é tudo lindo mesmo, mas também cansativo e de pouca compreensão. Foi somente uns anos depois que comecei a ler sobre o Tolkien e a entender melhor o que ele queria dizer, pena que não há muitos estudos no Brasil sobre ele.

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