Mulheres nos Livros de Fantasia

Em 2012, no Dia Internacional da Mulher, fiz um Top 5 Mulheres na fantasia, lembram? Dessa vez decidi refletir um pouco mais sobre como as mulheres andam aparecendo nos livros de fantasia atualmente e o que é que podemos dizer sobre alguns esteriótipos das personagens femininas.

Será que precisamos mesmo ficar na dicotomia garota frágil ou moça machona?

Vou começar esse post contando uma pequena história:

Em 2012, recebi uma mensagem da escritora Ana Lúcia Merege agradecendo pela resenha que fiz para o livro dela, O Castelo das Águias. Uma atitude normal e muito gentil, que muitas vezes acontece com autores nacionais que são resenhados aqui no Livros de Fantasia. Ana ressaltou que tinha gostado do jeito que tratei a personagem principal de seu livro, a jovem Anna de Bryke.




Inicialmente, estranhei o comentário. Cheguei a perguntar porquê, afinal, Anna é uma personagem interessante e bem desenvolvida no livro: uma jovem (recém-saída da adolescência) que é apaixonada por sagas (literatura), que deixa para trás a vida que conhecia, praticamente tribal, para arriscar ser professora numa escola renomada de magia e artes. Anna tem seus conflitos, defeitos, problemas. Pra mim ela desde o começo se destacou como uma personagem forte e interessante. Mas pelo que a autora me contou na época e pelo que depois li na net, algumas pessoas não gostavam dela.

Okay, todo mundo pode ter os motivos que quiser para não gostar de personagem X ou Y. Mas os motivos que encontrei pra não gostarem de Anna de Bryke foram simplesmente ridículos. Aparentemente as pessoas não gostam da personagem porque ela é, pasmem, normal.

Sim, sim. É esse mesmo o motivo. A personagem não vive um amor impossível no livro, não decepa cabeças e não é desastrada e frágil. Sendo assim ela não serve como heroína. Ela vira uma chata e pronto. Afinal, só existem duas opções para personagens femininas em livros de fantasia de acordo com alguns pensamentos aí: ou ela é a moça frágil e desastrada que vive um amor impossível ou ela é uma machona violenta que também vive um amor impossível. Se a personagem estiver fora disso, blé, ela está fora.

Estamos nos século 21 e as pessoas ainda acham que pra ser protagonista feminina ou você é uma mocinha suspirante ou uma chuta-bundas descontrolada que de preferência use jaqueta de couro.

A dicotomia Bella Swan – Katniss Everdeen

Como se só existissem dois tipos de protagonistas mulheres possíveis.

Que merda é essa? Okay, não sou de usar esse tipo de vocabulário, mas eu não posso deixar de dizer “Que merda é essa?”. Nós temos todos os tipos de protagonistas masculinos em livros de fantasia: caras inseguros, engraçados, charmosos, valentões, tímidos, covardes, corajosos e leais. Vamos de Aragorn a Tyrion passando por Talan e Arthur (em suas várias encarnações). Por que não podemos ter essa mesma variedade em relação às protagonistas femininas?

É como se para uma protagonista mulher só houvesse dois caminhos: 1) ser a Bella Swan e 2) ser a Katniss Everdeen. Qualquer coisa no meio é chata, entediante e ninguém gosta.

Só que 50% da população é formada de, pasmem, mulheres normais!

Sim, mulheres que não são mocinhas que esperam no carro ou guerreiras corajosas. Mulheres que são um pouco dessas duas coisas. Mulheres complexas, com qualidades, defeitos. Mulheres que mereciam ser melhor representadas.

Infelizmente muita gente pensa que essa dicotomia Bella Swan e Katniss Everdeen realmente existe. Inclusive existem resenhas por aí que parecem categorizar as personagens femininas nesses pólos e se elas saem disso é porque são personagens chatas ou fracas.

Personagem forte não é necessariamente aquela que chuta bundas

Katniss Everdeen é uma mulher forte, isso todo mundo parece concordar. Ela sobrevive aos Jogos Vorazes, sustenta a família, atira flechas em pessoas e animais. Trinity, da trilogia Matrix, também é. Afinal, ela atira em todo mundo, usa roupas legais e é boa de briga.

Roupas de couro e armas não bastam para fazer de uma personagem alguém forte.

Só que vou desapontar vocês, pessoas. Essas coisas não definem uma mulher forte, muito menos uma boa personagem feminina. Pelo menos, não por si só.

Um boa personagem feminina possui uma história própria. Ela tem suas próprias razões, motivos, medos, inseguranças. A história dela é relevante pra o andamento da trama como um todo, não apenas o motor pra um romance decolar. A função dela vai além de ser um par romântico. Ela é uma personagem complexa.

Complexa como todos nós humanos.

A Liége Báccaro Toledo, colunista aqui do blog, postou em seu blog, O Enigma da Lua, um texto que tocava no assunto e vou citar aqui uma frase dela que é bem emblemática:

Uma personagem chuta-bundas pode ficar tão estereotipada quanto uma personagem romântica e delicada.

Leia o texto completo: “Sobre romance, amor e personagens femininas”.

E vamos voltar à Trinity do Matrix. Ela chuta todas as bundas. Mas qual a função dela no filme além de ser o grande amor do Neo? O que sabemos da vida dela além de que ela ama Neo? O que a levou ser quem é? A história dela é relevante pra trama do filme além do fato de ela ser o par romântico de Neo? Existe alguma cena de impacto com Trinity no filme em que ela esteja sem Neo que seja de alguma relevância pra trama (não vale as cenas em que ela fala sobre Neo com outras pessoas)?

A resposta é não. Então não, Trinity não é uma boa personagem feminina pois ela não é complexa nem bem representada.

Lutar é o de menos. O importante é uma história relevante pra trama.

Por outro lado, Mako Mori, em Círculo de Fogo, é uma boa personagem feminina. Sim, ela também é par romântico do protagonista. Ela também chuta bundas. Mas Mako tem uma história pessoal relevante. Ela tem conversas que não são sobre/com Raleigh. Sua trama é importante e contribui pro desenvolvimento do filme como um todo. Mako tem medos e anseios pessoias que não giram ao redor de seu par romântico. Mako é uma personagem complexa.

Então cuidado da próxima vez que necessariamente taxar a mulher de jaqueta e revólver como personagem feminina forte.

O teste de Bechdel

Se você tem amigos antenados, já viu essa expressão no twitter ou no Facebook. O teste de Bechdel é uma ideia muito simples da quadrinista de mesmo nome. Um filme (ou livro, ou série de TV, etc) representa bem mulheres quando:

1. Tem ao menos duas mulheres com nome

2. que conversam

3. sobre algo que não seja um homem.

Pode parecer muito simples, mas é absurdamente baixa a quantidade de filmes (ou mesmo livros) que passam no teste de Bechdel. 60% dos filmes de Hollywood não passam nesse teste de acordo com a o website Vocativ.

Mulheres têm uma vida. Elas falam de várias coisas. Como assim filmes e livros não conseguem representar isso?

Em “As Brumas de Avalon” existem mulheres de todos os tipos.

E olha que estamos falando aqui de filmes de todos os gêneros. Se formos começar a falar de obras de fantasia, a coisa complica um pouco mais.

A fantasia de certa forma sempre foi um gênero predominantemente masculino. Um exemplo disso é que seu maior clássico, o Senhor dos Aneis, falha miseravelmente no teste de Bechdel: as duas mulheres com nome (Arwen e Éowyn – que inclusive são apaixonadas pelo mesmo homem rs) não conversam entre si nem com outra mulher com nome durante as mais de mil páginas do livro.

Sim, Arwen e Éowyn têm ações importantes no livro e é importante que nós, como leitores, sejamos capazes de reconhecer isso, mas O Senhor dos Aneis é um livro de homens. Os homens fazem, decidem, lutam em sua grande maioria. Isso não quer dizer que temos que jogar o livro pela janela, mas sim que temos que parar para pensar sobre ele. Afinal, foi a partir de Tolkien que a fantasia contemporênea como conhecemos se desenvolveu.

Claro que nos últimos anos tivemos livros que colocaram em cheque essa noção: As Brumas de Avalon é uma versão da lenda arthuriana contada do ponto de vista feminino; As Crônicas de Gelo e Fogo também apresentam um leque de mulheres interessantes e complexas; Nihal é a grande protagonista das Crônicas do Mundo Emerso; e Katniss Everdeen é mesmo uma personagem interessantíssima em Jogos Vorazes.

Não só Daenerys com dragões é uma boa protagonista. Catelyn, apesar de odiada por alguns fãs, tem uma história interessante e relevante.

Mas a grande maioria das capas de livros de fantasia que vejo por aí nas livrarias me mostram cavaleiros armados. As mulheres nesses livros ainda são minoria e quando são guerreiras ainda se vestem da forma ridícula e absurda apenas para agradar os fãs masculinos (por que uma armadura é pra proteger, né, gente, não pra sensualizar!).

E os resenhistas ainda se apoiam nessas falsas ideias do que é uma personagem forte, o que me faz voltar à Anna de Bryke. Ela se apaixona por um homem mais velho, resolve se casar com ele bem depressa e muitas vezes aceita o que os outros dizem. Mas sua história em O Castelo das Águias é muito maior que isso: ela vivencia o amadurecimento pessoal, luta pelo que acredita (porque lutar não é só chutar bundas), tenta conciliar o que pensa com o que lhe é apresentado. Ela é, de novo, pasmem, uma mulher enfrentando problemas normais que as mulheres, pasmem mais uma vez, enfrentam todos os dias.

Ter um romance não faz uma personagem mais fraca. Nem casamento. Nem filhos. O que faz uma protagonista feminina fraca é a ausência de motivos, trama, anseios que sejam independentes de uma figura masculina.

Na verdade, podemos ter tantas boas personagens femininas na fantasia quanto quisermos porque existem todos os tipos de mulheres! Corajosas, traidoras, companheiras, medrosas, conciliadoras, românticas, superficiais, filósofas… é só dizer!

Que tenhamos mais não só Annas, mas também Meggies (Coração de Tinta), mais Claris (Crônicas de Salicanda), Lyras (Fronteiras do Universo), Eloras (O Enigma da Lua), Claras (A Maldição da Pedra) e Dubhes (As Guerras do Mundo Emerso)!

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

34 Responses to “Mulheres nos Livros de Fantasia”

  1. Mel, teus textos são brilhantes. Sou ainda mais tua fã por causa deles. Não tem o que tirar nem por, o texto está perfeito. Concordo em tudo. Se há uma coisa que me irrita mais ainda do que livros que têm estereótipos femininos, são leitores que reclamam dos livros que saem deles. Preguicinha dessa gente, viu.

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    • Melissa de Sá

      Karen,
      Esse post é meio que um desabafo, sabe. Ele já estava no rascunho aqui há um bom tempo e achei que o Dia Internacional das Mulheres seria uma ótima data para soltá-lo. Pois é, meu problema é justamente com os leitores porque muitos livros recentes estão tentando sair desse esteriótipo, mas tem gente que insiste na dicotomia moça frágil/mulher machona.

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  2. Melissa, que postagem incrível! E que honra ser citada nela, puxa, puxa! E você citar a Elora… olha, vou te contar uma coisa.

    O texto que eu escrevi no meu blog surgiu justamente por causa dessa dicotomia que eu andava notando. Inclusive a Elora sofreu um pouco de rejeição assim como a Anna de Bryke. Tive uma amiga que leu o livro e me disse repetidas vezes que ela não estava gostando da Elora, que ela era muito insegura, irritante, que era meio bunda-mole (ela não usou esse termo, mas imitou a Elora com cara de mocoronga, hahaha!). Se ela é assim mesmo não sei, eu não acho, mas expliquei para minha amiga que o meu objetivo era fazer da Elora uma menina comum de quinze, dezesseis anos, que vive uma vida tranquila na sua cidade, estuda para ser algo que ela quer ser, e que gosta do seu melhor amigo. Ou seja, uma adolescente normal. Ressaltei que ela não permaneceria assim – com o tempo ela se tornaria uma pessoa mais madura e forte, mas eu queria que isso fosse um processo, que fizesse parte do crescimento dela – coisa que eu tentaria demonstrar dentro do livro. Procurei fazer o mesmo com a Valenia, não queria que ela se resumisse à ser a “garota problema”. Queria que elas fossem pessoas! Acho isso tão importante… porque muitas vezes nós somos apresentados à personagens femininas que já estão prontas, que não mudam, que estão ali para serem arquétipos, acessórios. E isso inclui as princesas delicadas e as chuta-bundas. Como você bem disse usando o exemplo da Trinity, não é porque a personagem é “durona” que ela vai ser uma personagem forte e relevante dentro da história. Geralmente as pessoas têm facilidade para enxergar isso com as personagens mais frágeis, mas as chuta-bundas também aparecem como meras figuras decorativas em muitos casos.

    Eu gostei absurdamente da Anna de Bryke e já falei para a Ana Lúcia Merege que ela é uma das minha personagens favoritas. Sério. Gosto muito como a Ana criou uma personagem que é tão carismática sem precisar forçar nada. Ela é uma personagem que a gente sente que existe e que está ali do nosso lado, de tão palpável. Também sentia isso com Hermione e com Katniss (vontade de abraçar e dar um prato de comida, por favor!). E com outras, todas com seu próprio jeito.

    Quanto ao Senhor dos Anéis, concordo que temos que pensar sobre isso. Não precisa mesmo jogar o livro pela janela (NÃÃÂO! XD), como você disse, só basta refletir. E pensar sobre o contexto em que Tolkien escreveu sua história, seu mundo naquela época. As coisas são diferentes agora e essa diferença tem que estar refletida nas histórias que a gente ouve e conta. Precisa. Então não vamos cair em estereótipos de novo, em dicotomias, porque isso não faz bem para ninguém. Não somos massa de pão esperando uma forma para se encaixar, somos pessoas. As personagens também.

    Outra coisa que me incomoda muito é a constante sexualização das personagens femininas. Sério, fico doente com esse negócio de biquíni de cota de malha, com mulher lutando semi-nua enquanto geral tá armadurada até os dentes, porque não faz sentido. Eu realmente detesto ver personagem feminina reduzida a item de embelezamento e decoração. Esse é um problema que atinge o cinema e os games em larga escala… enfim.

    Um viva às personagens femininas diversas!! (e fico feliz que o meu livro passa no teste de Bechdel XD).

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    • Melissa de Sá

      Liége,

      Eu gosto da Elora (não é a toa que a citei no final do post): ela é uma personagem que tem motivos pra agir assim. No começo ela é muito ingênua, vivendo naquele mundinho dela, sendo um pouco meio boba até… mas à medida que as coisas acontecem, ela vai amadurecendo. Dá pra perceber ao longo do livro. E imagino que em O Círculo dos Sete ela já esteja um pouco diferente. A questão é que Elora é romântica e tranquila, isso não quer dizer que ela seja uma personagem ruim. Dentro dessas características, ela amadurece. Como amadurecem milhões de mulheres que são assim no mundo todo!

      Quanto ao O Senhor dos Aneis, acho que é nossa obrigação sermos críticos e conscientes com o que gostamos. Não é só porque amo esse livro que vou ficar cega para o fato de que só há duas mulheres em mais de mil páginas! Claro que existe um contexto histórico pra isso, mas precisamos lembrar que Tolkien influenciou milhares de livros de fantasia, que mesmo 50 anos depois, continuam seguindo essa “tradição” de não colocar mulheres. Aí a desculpa do contexto histórico não se aplica mais…

      Nossa, eu acho que dá pra escrever um post só pra sexualização das personagens femininas! Fizeram isso com a Hermione, nos filmes. Tem poster da série em que ela tem um peitão e parece bem mais velha do que é. Lembro muito também da Elizabeth, de Piratas do Caribe, que ficou super sensual nos filmes seguintes, mesmo a personagem sendo uma moça esperta e inteligente. Se formos pensar no lance de armaduras então… putz, é de dar raiva! Muitos artistas colocam uma ombreira e uma bota… e pronto, a mulher tá de armadura! Só que com barriga de fora, seios praticamente à mostra, coxas de fora, costas desprotegidas…. coisas que não fazem o menor sentido numa batalha! Imagina, o primeiro chute no estômago e morre a criatura.

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      • É bem isso, Melissa. A Elora era ingênua, até meio boba, vivendo no seu mundo de todo dia, mas as circunstâncias mudam e ela também. Eu acho importante mostrar o antes porque é como você disse, o mundo é feito de pessoas normais, que evoluem ao longo do tempo. Tanto que penso que o amadurecimento dos personagens no livro até foi refletindo o meu próprio amadurecimento como pessoa e também como escritora, digamos. Eu criei a Elora aos quinze e escrevi o essencial daquela parte do começo aos dezesseis, hahaha XD. Minha própria visão de mundo era outra.

        Sim, também acho que a desculpa do contexto histórico não se aplica mais. Hoje em dia não há mais sentido para colocar apenas homens o tempo todo nas histórias de fantasia, e mesmo Tolkien podia ter colocado mais mulheres, né (eu ia gostar muito se houvesse uma mulher na Sociedade do Anel) XD, mas ainda assim acho incrível o que ele fez com a Éowyn. É uma participação pequena, eu sei, mas é muito poderosa e todo mundo lembra da cena dela. Ah, Melissa, nós temos quatro mulheres, na verdade XD – A Galadriel e a Fruta D’ouro também contam, né XD (bom, tem a Rosinha também). Brincadeiras à parte, eu acredito que esse cenário está mudando (espero).

        Sobre esse tema da sexualização, é o que você falou, tem tanto a se dizer que dá para fazer um post. Isso me dá gastrite.

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        • Melissa de Sá

          O mais legal da Elora é justamente ver como ela amadurece. Eu particularmente gosto de acompanhar desenvolvimento dos personagens, principalmente de protagonistas que são “escolhidos”. Odeio quando o personagem se descobre numa profecia e miraculosamente se torna uma pessoa madura e capaz de lidar com o que está à sua frente. Patético.

          Que bonito que o desenvolvimento da Elora é uma paralelo com o seu. 🙂 Eu tenho uma personagem que também me acompanhou, mas ainda não publiquei a história em que ela participa.

          Poxa, desculpa do contexto histórico não rola, né? Realmente, temos Galadriel e Frutura D’oro. Acho que não pensei nelas como mulheres por elas serem “etéreas e idealizadas” demais. Mas sim, são mulheres também. Uma pena que não conversam entre si. 🙁 Mas uma coisa é Tolkien fazendo isso na década de 40, outra é fazer isso em pleno século XXI!

          Fique à vontade pra escrever um post sobre sexualização das mulheres guerreiras. Eu iria adorar um post assim!

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  3. Ah, só mais uma coisa: agora me dei conta de que no ano passado, quando você fez o seu top 5, eu ainda não conhecia a Katniss. Agora, três livros lidos e dois filmes assistidos depois, eu posso dizer: que personagem! Eu me afeiçoei tanto a ela, é até engraçado. Tinha um apego enorme por ela e pelo Peeta. Katniss é um exemplo de personagem forte e complexa, com motivações palpáveis e personalidade muito real, passa longe de ser um simples esteriótipo. Puxa. Obrigada por ter me influenciado a ler Jogos Vorazes, Melissa \o/.

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    • Melissa de Sá

      Katniss! Eu gosto demais dela, mas não pelos motivos que as pessoas costumam gostar. Vejo muita gente aí idolatrando a Katniss porque ela chuta bundas, mas a personagem é muito mais que isso. Ela faz tudo pelas pessoas que ama, ela é corajosa, ela é determinada. Pra mim, isso vale muito mais do que saber atirar com um arco!

      Parênteses: também amo o Peeta. hahahaha

      Ah, fico feliz de ter te influenciado a ler uma coisa que você tenha gostado tanto! 🙂

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  4. Como não ficar superfeliz e honrada com este post? Muito obrigada, Melissa, e muito obrigada, comentaristas. Espero que percebam as mudanças e o amadurecimento da Anna em A Ilha dos Ossos – e que ela continua a ser uma mulher comum, graças ao Grande Espírito! 🙂

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    • Melissa de Sá

      Oi Ana!
      Então, Anna de Bryke é um dos exemplos de personagem feminina que sai da dicotomia e é mal compreendida. Existem outros, mas foi ela a “inspiração”, digamos, desse post.
      Mal posso esperar pela chegada do meu exemplar de A Ilha dos Ossos para descobrir o que acontece com ela. 🙂

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  5. Oi, Mel.
    Como sempre, achei seu post super interessante e muito bem escrito, mas para mim foi até uma surpresa. Vários pontos que você abordou são completamente estranhos para mim. Não percebo nada disso nos livros que eu leio.
    Não vejo esse lance da dicotomia entre Bella Swan e Katniss Everdeen por exemplo porque nos livros que li encontrei personagens completamente diferentes do que você destacou. Para mim a Bella é uma personagem extremamente forte, enquanto a Katniss se mostra insegura em incontáveis momentos!
    Acho que a literatura tem tido êxito em mostrar as mulheres como elas são e talvez o preconceito seja muito mais do leitor do que do escritor!
    beijos
    Camis

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    • Liége Báccaro Toledo

      Camis, mas é bem isso que você falou mesmo, e acho que isso está dentro do que a Melissa abordou (a meu ver, hehehe, olha eu palpitando!). Creio que por vezes os leitores/espectadores (e me incluo nisso, porque todos nós por vezes caímos em armadilhas) esperam esses esteriótipos e querem enquadrar as personagens femininas nisso (forte X fraca, chuta-bundas X delicadas). E por isso mesmo até perdem a oportunidade de analisar e enxergar várias personagens em sua amplitude, com suas várias nuances. Tomam algumas características de uma personagem, e pronto: já decidem que ela é assim ou assado. Tanto que, por exemplo, no caso da Anna de Bryke vi uma crítica que dizia que ela se resignava a um “papel feminino tradicional” só porque ela resolvia não usar armas para resolver um conflito e no final se casava. E quando li o livro encontrei uma personagem com motivações para fazer tudo isso, com convicções, com uma vida. Mas muitas vezes as pessoas escolhem enxergar por meio dessa fórmula, como se houvesse certas características prontas que determinassem que uma personagem feminina é “forte” ou “fraca”. Acho que isso que cria a dicotomia, sabe… enfim, já falei demais!

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    • Melissa de Sá

      Oi Camis,
      Então, a questão da dicotomia Bella Swan e Katniss Everdeen é algo que acontece com os leitores, não com os livros. Felizmente, vários livros têm apresentado protagonistas que saem desses esteriótipos, sendo mais completas e mais complexas.
      O problema são os leitores, que muitas vezes reclamam quando a personagem principal sai desses dois tipos. E vale lembrar que essa leitura de que Bella Swan é super frágil enquanto que Katniss Everdeen é uma machona chuta bundas é bastaste errada e limitada. Pior ainda é esperar que todas as personagens femininas sejam assim.
      Sim, a literatura é uma grande ferramenta na representação mais coerente das mulheres. E foi esse mesmo o ponto do meu post: o problema está mais é com os leitores (e, infelizmente, muitas vezes com escritor).
      Espero que tenha esclarecido.
      bjs!

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  6. Adorei o post! Acho que as pessoas idolatram personagens como a Trinity ou a Katniss para tentar compensar o modelo Bella Swan. E elas acabam pecando por pender demais para o outro lado – quanto mais badass for a personagem, mais interessante/feminista ela parece. Falta reflexão, e infelizmente ainda há poucas boas representações femininas – aliás, eu nunca tinha ouvido falar desse teste de Bechdel, muito interessante!

    Faz tempo que procuro um bom blog de literatura, que fale sobre os tipos de livro que eu gosto. Este aqui foi um achado – os posts são muito interessantes e bem escritos! Parabéns! Vou vir aqui sempre. 🙂 Se quiser dê uma passadinha no meu, às vezes escrevemos sobre fantasia e sci fi.

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    • Melissa de Sá

      Bárbara, fico feliz que tenha gostado do blog e do post. Realmente, falta reflexão nessa área de personagem feminina, viu. Tanto em relação aos leitores quanto aos escritores e editores.

      Pode deixar que faço uma visita em breve. Espero te ver mais por aqui.

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  7. Nossa, adorei o post! Super concordo.
    Eu acho que os filmes que são feitos adaptados dos livros também contribuem para a imagem das personagens femininas, afinal o povo de Hollywood é ainda mais preso a essas ‘convenções’ de mulher fortona x mulher babona. Nunca imaginei a Katniss dos livros com uma beleza estonteante, muito menos a Hermione. Mas as atrizes escolhidas para os papéis se encaixam muito mais no quesito bonitona do que no quesito ‘garota normal’.
    E concordo com você que tem muito escritor/a que cria personagens femininas rasinhas, e que leitoras/es também procuram essas imagens. E também já recomendei livros pras meninas e ouço “mas tem romance? Se tiver só romance, vai ser chato” e também “se não tiver romance, não quero”.
    Enfim, acho que o importante é ter esse momento de reflexão, né?
    Parabéns pelo blog, voltarei mais vezes! 🙂

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  8. Sou uma minoria que gosta de tipos diferentes de personagens femininas e armaduras que protegem. Sobre Trinity, Neo é o único personagem complexo da trama. O resto é estereotipado: o mentor, o par romântico, o alívio cômico, o sidekick leal, o traidor, os figurantes, etc. Não invalida seu exemplo dela ser uma personagem feminina fraca, mas acho que foi muito mais por isso.

    Pra ver uma boa protagonista feminina, recomendo Artesia (uma HQ indie).

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    • Melissa de Sá

      Daniel, realmente, todo mundo em Matrix é bem esteriotipado mesmo… Eu gosto bastante da trilogia, tem sacadas brilhantes, mas essa parte da caracterização realmente deixa a desejar.

      Vou anotar sua sugestão! 🙂

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  9. Oi, Melissa,
    Não te conheço. Achei este texto no Facebook, compartilhado por um colega.
    Só vim aqui dizer que este foi o MELHOR texto sobre personagens femininas na fantasia que eu já li (e olha que já li coisa pra caramba sobre o assunto web afora). Ele vai direto ao ponto, sem rodeios, sem malabarismos, e diz exatamente o que precisa ser dito sobre o que é uma “mulher forte”. As pessoas sempre pensam na Trinity, na Lara Croft… e as mulheres DE VERDADE? Porque ficção também é “verdade” a seu próprio modo. E eu quero ver mais mulheres de verdade, com defeitos e qualidades menos óbvias e mais sólidas, na literatura, nos filmes, nos games.
    Estou divulgando loucamente seu texto (rs!). Muito obrigada por tê-lo escrito.

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    • Melissa de Sá

      Olá Camila, poxa, que bom que você gostou! Fiquei muito feliz que ele tenha sido bom pras suas reflexões. Na verdade escrevi esse texto justamente motivada por essas ideias erradas de que Trinity e Lara Croft são bons modelos de personagens fortes. Parece que são, mas se olharmos de perto, vemos que não são. Na verdade, elas vão na via contrária.

      Obrigada por estar divulgando meu texto. Espero que a gente se veja mais por aí.

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  10. Olá. Ótima abordagem. Acredito que a Éowyn se encaixa nesse contexto de personagem que tem sua própria motivação na história, mas que ao mesmo tempo constitui um fator determinante no enredo como um todo, afinal, ela mata o Rei Bruxo.

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    • Melissa de Sá

      Luciano, eu acho que a Éowyn tem sim sua própria motivação na história e ela certamente é um fator determinante no enredo como um todo. O problema é que Éowyn nunca conversa com outras mulheres e no final da trama ela volta ao ambiente doméstico, se casando com Faramir e abandonando suas motivações iniciais.

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  11. aline f costa

    Adorei essa discussão e o texto sobre essa dualidade que é sempre colocada volta e meia nas conversas.
    Amo o LOTR, mas concordo que é extremamente fraca a participação e atuação das personagens femininas!
    Adorei, Que possamos pensar mais e ter menos estereotipos!

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    • Melissa de Sá

      Aline, essa dualidade é irritante, não é? Também adoro e admiro muito LOTR, mas temos que ser críticos em relação ao que gostamos também.
      Que bom que gostou do texto. 🙂

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  12. Oi Melissa! Amei seu texto! Parabéns!
    Um dos meus gêneros favoritos é a fantasia e, realmente, temos uma defasagem imensa de personagens femininas complexas.

    Durante a leitura do seu post lembrei de uma personagem feminina que gostei muito. O livro é A Última Dama do Fogo, do brasileiro Marcelo Paschoalin. Não sei se conhece o livro ou o autor, mas se não conhece, vale a pena! A Deora é uma personagem muito interessante, com defeitos, fraquezas, mas muita determinação e a Mirhaanna é quase o Gandalf do Paschoalin (em uma comparação pobre hehehe). Podemos ver um crescimento enorme na Deora no decorrer da trama. Se te interessar, eu resenhei o livro no meu blog.
    Se tiver a oportunidade, tente conhecer! Acredito que não vai se arrepender!

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  13. Um pouco atrasada (um pouco?) mas A-MEI. Muito obrigada por tantas verdades neste post! Acabei de descobrir este blog e estou encantada!

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    • Melissa de Sá

      Roberta, que atrasada que nada. Nunca é tarde pra comentar. 🙂

      Fico feliz que tenha gostado do post e do blog. Espero te ver mais por aqui.

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  14. Ótimo post! 😀

    Eu bato nessa tecla o tempo todo no meu blog, mas é que se repete à exaustão. Acho que o que melhor pode ilustrar essa sensação de Personagem Feminina Forte que vive em função do homem é Tauriel, de O Hobbit. Ela foi colocada lá pra quebrar um pouco a machaiada do filme todo, mas sua única função é compor um triângulo amoroso ridículo. Isso nos representa? Claro que não!

    Eu acho que Katniss conseguiu quebrar uma sequência de personagens a lá Bella porque ela não precisa de um macho pra viver. Isso já a torna única, pois apesar de mostrar confusão sobre seus sentimentos, isso não domina a vida dela. A principal razão para ir para os jogos era para proteger a irmã. Ela não foi atrás de um macho e isso já me fez ser sua fã. 🙂

    Lembro de ter lido em algum lugar que as mulheres conseguem criar personagens mais profundos, mais reais, tanto masculinos quanto femininos. Mas o que tenho visto na young adult de ficção científica tem me desapontado um pouco. Assisti ao filme Divergente e me incomodou o affair da Tris com o Quatro. Como se ela não pudesse ser tudo o que quisesse, como se tivesse que depender dele. Eva segue esse mesmo caminho, Recomeço também, Startes idem…. Ao invés de criarem personagens mais reais, no estilo da Katniss, já que é bem claro que elas estão seguindo a esteira de Jogos Vorazes, elas estão criando essas personagens que dão a enganosa sensação de serem fortes, quando não são.

    Abraço! <3

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    • Melissa de Sá

      Concordo com você em gênero, número e grau!

      Eu também gosto muito da Katniss e gostaria de ver outras personagens bem trabalhadas. Também não gostei da Tris em Divergente. Tive essa mesma impressão sua: de que ela depende do Quatro pra tudo. Isso é um saco. Uma personagem que gostei muito recentemente foi a Alina, de Sombra e Ossos. Ela é ótima. Se envolve num romance mas isso não engole o livro inteiro. Ela continua sendo independente e tomando suas próprias decisões.

      Nem me fala de Tauriel… Pelamor!

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  15. Tenho que admitir que nunca pensei por esse lado quando encontrei um personagem feminino num livro,mas agora que vc falou eu lembrei de ter lido um livro que me incomodou um pouco com esse lance do estereótipo.

    “O Lado Mais Sombrio”, Nele a personagem principal compra briga com criaturas mágicas, mas é o clichê do clichê do que é ser adolescente com problemas na família.

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  16. Ótimo texto, serve para abrir os olhos de muita gente sobre variedade na construção de personagem, seja do gênero que for. Só discordo da definição de personagem bom/forte/bem construído. Profundidade, complexidade e alto nível de importância para a trama são, quando aplicadas concomitantemente à psiquê do personagem, características de um personagem primário. Claro que é uma maravilha quando achamos alguns personagens assim na trama, ASOIAF está aí para provar, mas não podemos esquecer que George Martin QUEBROU a estrutura quando montou um enredo sem protagonista. É esquisito pegar a exceção e taxar como regra.
    Acredito que um bom/bem construído personagem é o coerente, seja ele primário, secundário ou terciário, e sua importância e complexidade – caso existam – se devem a ele se classificar em uma dessas categorias.
    Não cheguei a ler todas as obras citadas no último parágrafo do post, mas as personagens citadas são todas protagonistas/primárias, e a maioria das personagens criticadas são secundárias. De qualquer maneira, o texto é ótimo, muito bem montado e escrito, e serve para muita gente rever seus conceitos.

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    • Melissa de Sá

      Obrigada, Daniel. Fico feliz que tenha gostado do texto.

      Sim, claro, Martin quebrou a regra. Mas tem como fazer boas personagens femininas mesmo que elas sejam personagens secundárias. É só desenvolver. 🙂

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