Revista Trasgo #01 – piloto

Título: Revista Trasgo #01 – Edição Piloto

Editor: Rodrigo Van Kampen

Autores: Hális Alves, Karen Alvares, Marcelo Porto, Claudia Dugim e Melissa de Sá

Ilustrador: Felipe Pagliuso

Editora: Independente

A Revista Trasgo é um projeto do editor Rodrigo Van Kampen, e, segundo o site da própria revista, ela “surge no mercado para preencher a lacuna deixada por uma série de revistas de contos que popularam o imaginário da ficção científica brasileira nas décadas de 70 e 80. Se hoje é possível criar uma revista sem os altos custos de impressão e logística, por outro lado é necessário um material de qualidade para se diferenciar no mar de sites e comunidades de contistas”. Dá para ver que essa é uma ideia muito legal, certo? Na Revista Trasgo, que é uma publicação digital, temos contos nacionais de ficção científica e fantasia, e o que eu acho interessante é que esse tipo de publicação serve como uma espécie de vitrine para os autores contemporâneos. Embora hoje em dia, graças à internet, tenhamos a oportunidade e a possibilidade de divulgar nosso trabalho de forma muito mais fácil e acessível, se destacar no meio de um mar de material literário disponível não é tarefa fácil. Iniciativas como essa permitem que um autor alcance um público maior e se destaque. Portanto, se você é um escritor iniciante, que tal dar uma olhada no site da revista e enviar seu material? O mais bacana é que você percebe que a Trasgo é feita com muito cuidado e seriedade pela qualidade dos contos que encontra nesta edição piloto.

Confesso que fiquei sabendo da Trasgo e me interessei por ela por conta da presença da Karen Alvares e da Melissa de Sá (dona dessa blog lindo!) neste primeiro volume. Não sei se vocês se lembram, mas as duas me deixaram muito empolgada com Contos Negros de Natal e outras histórias e já pude atestar a qualidade da escrita das moças em outros trabalhos. O fato é que eu nunca havia lido nada nesse formato de revista digital e posso dizer que gostei bastante da experiência. Grande parte dos contos me fez sair da minha zona de conforto, e flertar com novas temáticas e estilos sempre inspira.Bem, mas vamos aos contos. Temos cinco: Ventania, Azul, Náufrago, Gente é tão bom e A Torre e o Dragão.

Ventania, de Hális Alves, traz um cenário distópico e pós-apocalíptico. Só que no Nordeste brasileiro. Logo de início, já achei interessante a construção de imagens que foi se fazendo: me imaginei na praia junto com a personagem que inicia a história, vendo as enormes e corroídas hélices de captação de energia eólica. Aliás, o autor foi bastante descritivo e achei que ele foi muito eficiente na construção da ambientação e das cenas. A escrita de Hális Alves é impressionante, na minha opinião, chegando até a ser rebuscada, utilizando metáforas e eufemismos de um jeito muito habilidoso e que confere beleza à narrativa. Não é um texto que simplesmente flui, é preciso lê-lo com atenção, prestar atenção aos detalhes. Gosto desse tipo de leitura – confesso que fiquei um pouco cansada em alguns trechos, mas na minha opinião leituras mais densas são assim mesmo. A questão é que nem sempre estamos com cabeça para fazê-las, mas isso não tira o mérito do texto.




Bem, mas voltando ao conto: basicamente, ele conta um episódio na vida de várias pessoas que procuram sobreviver em uma enorme torre, que já foi um prédio comercial imenso e próspero. Esse lugar é a salvação de todos que nele vivem, e precisa ser protegido de um bando de mutantes que está indo até ali para atacá-lo. O que irá acontecer? Por qual motivo esses seres estão desesperados a ponto de invadirem a torre massivamente? Essa e outras perguntas vão sendo respondidas ao longo do texto, ainda que nem tudo seja explicitado. O final é rápido e ágil, e te deixa com o coração na mão. Um conto muito bom, mas que pode cansar aqueles que preferem uma leitura mais leve.

Depois dele temos Azul, da Karen Alvares. Eu já conhecia Azul porque tinha lido o conto no wattpad da autora. Lembro que já naquele momento eu fiquei bastante marcada pela narrativa insólita de Azul. Na verdade, o conto segue a trajetória de uma personagem comum, que poderia ser qualquer um de nós: Nora, uma moça que saiu de uma festa incomodada com um beijo que não queria ter trocado, um pouco zonza por conta da bebida, e pegou um ônibus para voltar para sua casa. É nesse ônibus que ela vê alguém bem diferente… e a partir daí nós temos uma narrativa instigante, na qual a Karen usa e abusa da cor azul de diferentes formas (achei muito legal a forma como ela trabalhou com isso, pois vamos nos sentindo angustiados com as várias imagens e detalhes que ela cria) e nos entrega um mal estar que não passa. Apesar do conto ter um desfecho, fica aquela sensação de nó no estômago, de que você quer explicar, quer entender, mas não consegue. No fim você só quer esperar que aquilo seja algo impossível de acontecer. O conto parece um pesadelo (e a Karen disse que foi inspirado em um sonho do marido!) e eu sinceramente achei uma narrativa excelente. Mas penso que seja um conto para quem gosta de narrativas mais subjetivas, em que as coisas não são explicadas tin-tin por tin-tin (essa subjetividade é uma característica que muitas vezes é muito importante na construção do terror e da tensão).

Em Náufrago, de Marcelo Porto, nós acompanhamos um historiador que está atravessando o mar em uma balsa. Novamente vamos ao Nordeste brasileiro e vemos um acontecimento aparentemente banal – a pane na balsa e o seu funcionamento interrompido – se transformar em algo surpreendentemente tenso. O historiador – Diogo – passa por poucas e boas, tenta proteger a todo custo uma garotinha com quem havia conversado na travessia, a esperta Catarina, e no final se encontra em uma situação completamente incrível. A narrativa é bem fluida, gostosa de se ler, e eu sinceramente achei o conto muito criativo e bacana. É daquele tipo de texto que te deixa sorrindo no final, jogando com acontecimentos e fazendo as coisas se encaixarem.

Além disso, pontos para as descrições de cena do autor também. Algumas delas, a meu ver, são bastante difíceis de imaginar e narrar (como um incidente envolvendo duas embarcações), mas eu consegui compreender tudo, mesmo não sendo lá uma pessoa que andou em balsas a vida toda.

Gente é tão bom, de Claudia Dugim, certamente foi o conto que me causou mais “estranhamento”, digamos assim. A narrativa é bastante exagerada, “rasgada”, mas isso acontece porque o conto todo é uma ferrenha crítica, repleta de ironia e sarcasmo. A narradora ácida me causou repulsa, mas ao mesmo tempo me fez rir e identificar ali uma série de comportamentos e pensamentos tão comuns a nosso tempo e nosso mundo. Sua extrema falta de sensibilidade é cômica e retrata toda uma situação social que conhecemos muito bem. Ao chegar ao final eu achei o conto muito interessante e inteligente, exatamente por conta do caráter meio alegórico, que pretende ser uma crítica mesmo. Como pessoa que gosta de escrever digo que fiquei bastante impressionada, pois acho que não é fácil escrever um conto desses e atingir a medida certa entre o absurdo da história e a sutileza da ironia e da crítica.

Por último, não menos importante, vem A Torre e o Dragão, da Melissa de Sá. Esse era o conto que estava mais dentro da minha “zona de conforto”, por se tratar de uma narrativa de fantasia medieval, com características bem clássicas destas e dos contos de fada: temos uma torre, uma princesa, um cavaleiro, cidades muradas, torneios… pois bem, mas não pense que o conto da Melissa se mantem dentro dos modelos clássicos ou mesmo estereotípicos (existe?) desses gêneros. Bem, eu posso dizer que temos duas histórias sendo contadas em A Torre e o Dragão: a  história da princesa e a do cavaleiro Tristram. Logo no começo, você já percebe que esses dois personagens estão entrelaçados e que suas buscas diferem, mas seus anseios se completam. Temos uma melancolia latente em todo o texto, mas eu acho que isso só o tornou ainda mais bonito e profundo. Gostei muito das descrições que a Melissa fez dos questionamentos e sentimentos da princesa, e, como alguém já disse em uma resenha, creio que temos um enfoque mais psicológico nesse conto, que desemboca em um final surpreendente e emocionante (ainda que de forma novamente melancólica). Foi um dos meus favoritos na revista, mas sou sincera e digo que gostei de todos, absolutamente todos.




Fica aqui o meu parabéns a todos os envolvidos na composição dessa excelente edição. Além dos contos, você encontra na revista entrevistas muito bacanas com todos os escritores participantes e ilustrações lindas (mesmo). E tudo isso “de grátis”, à disposição de todos nós na hora que quisermos. Precisa de mais alguma coisa para você ir atrás da Trasgo? Clica AQUI e se joga!

 

13 Responses to “Revista Trasgo #01 – piloto”

  1. Liége, que resenha brilhante! Uau! Obrigada pelos comentários elogiosos sobre Azul, fico bem feliz quando você diz que curtiu, pois sei que ele sai bastante da sua zona de conforto (e que ele é um conto bem bizarro! rs).
    E sim, foi um sonho do meu marido. Tenho várias histórias que são sonhos que ele me conta. Ele tem uma mente bizarra.
    Gostei bastante da seleção de contos dessa edição. O da Mel eu já conhecia faz tempo e ela realmente dá uma rasteira nos estereótipos nesse conto. Ventania é bem denso, mesmo, e Náufrago foi simplesmente brilhante! Gente é tão bom é tão irônico e revoltado que eu também ri várias vezes, mas ele traz uma reflexão muito interessante.
    Foi uma experiência incrível publicar na edição piloto da Trasgo. A revista é muito caprichada e o Rodrigo é super competente. Estou ansiosa pela próxima edição!

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    • Liége Báccaro Toledo

      Ah, obrigada, Karen! E só agora percebi que tem uma frase mal colocada ali na parte em que eu falo de Azul, o final. Agora consertei e acho que ficou mais claro – quis dizer que a subjetividade é importante no terror, e não explicar tudo bonitinho XP.

      Eu gostei muito de ler a Trasgo, achei todos os contos muito bons. Ela trouxe temas que saem mesmo da minha zona de conforto, e mesmo assim eu gostei bastante da leitura, o que já demonstra a qualidade das histórias. Mas eu acho que, como alguém que gosta de escrever, tenho que estar aberta. Procuro sempre tentar embarcar no clima de cada leitura, entendê-la, compreender a proposta da história.

      A Trasgo é uma revista muito bacana mesmo, e a vocês só posso dar os parabéns por ter feito parte dessa excelente edição piloto. Que venham as próximas!

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    • Liége Báccaro Toledo

      Ah, e Azul é bizarro mas eu adorei. Descobri que gosto de coisas assim XD, principalmente quando são bem feitas!

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  2. Olá, Liége, muito obrigado pela crítica, é ótimo poder enxergar a revista pelos olhos de outra pessoa, é um grande incentivo a continuar construindo cada edição da revista!

    Falando nisso, saiu ontem mesmo a Edição 02!

    Deixa só passar a euforia do lançamento da segunda edição que vou divulgar essa ótima crítica nos canais da Trasgo.

    Muito obrigado, e um abraço!

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    • Liége Báccaro Toledo

      Rodrigo, vocês estão de parabéns, a revista ficou mesmo excelente! Vou lá agora baixar a segunda edição!

      Obrigada pelo comentário e que bom que gostou da resenha! Realmente os contos são todos muito bons e quis passar os motivos que me fizeram apreciar cada um deles.

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  3. Claudia Dugim

    Liége, obrigado pelas palavras. Senti-me privilegiada pela companhia da Karen, da Hális, enfim, de todos. E o Rodrigo colocou toda a sua sensibilidade de editor neste trabalho. Foi algo muito enriquecedor.

    Grande abraço.

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    • Liége Báccaro Toledo

      Eu que agradeço, Claudia, e parabéns pelo conto divertido e crítico! Eu gostei muito de todos os trabalhos e achei que o Rodrigo fez uma seleção muito boa mesmo, porque a diversidade só enriqueceu a revista e deu um brilho especial a cada conto. Enfim, parabéns mesmo a todos vocês!

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  4. Show de bola a resenha!! Cada trecho dela, contando sobre cada conto, me fez ficar mais curiosa ainda pelo material, uma vez que já tinha visto o pessoal compartilhando informações sobre ele pelo Facebook.

    Assim que terminei de ler a resenha, baixei o arquivo. Lerei nas aulas vagas da escola XD

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  5. Melissa de Sá

    Liége, fiquei feliz demais que você tenha gostado do meu conto, de verdade. 🙂 Ainda mais você sendo toda especialista em fantasia clássica, né?

    Então, eu me senti muito feliz publicando na Trasgo justamente porque tinha tanta gente boa na revista. Meu conto favorito foi “Ventania”. Adorei aquele clima pós-apocalíptico misturado com um jeito mais poético de narrar. Inclusive a narrativa mais rebuscada não me incomodou. Pelo contrário, até me ajudou a entrar no clima da história.

    “Azul” é um dos meus contos favoritos da Karen. Aquele final sempre me deixa arrepiada. Já “Náufrago” me cativou: apesar de eu já ter sacado o que ia acontecer, mesmo assim me envolvi com o conto, com o protagonista Diogo e com a tensão dentro daquele ferry boat. “Gente é tão bom” veio com um humor tão negro e ácido que eu até assustei. Mas o pior é saber que aquela protagonista – tão sarcástica que beira a crueldade – é gente comum, gente que até convive com a gente. Assustador.

    Enfim, gostei dos contos dessa edição e já baixei a segunda!

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    • Eu adorei o seu conto, Melissa! Achei maravilhoso, mesmo. Hahaha, e não sou especialista não, mas posso dizer que fantasia é o que eu mais leio, pelo menos. E o enredo e a escrita do seu conto me conquistaram por completo.

      Mas, é como eu disse, eu gostei de todos os contos, e achei isso muito bacana. Mesmo eles sendo bem diferentes entre si, todos têm seus atrativos e dão uma diversidade sensacional para a revista. Eu também gostei bastante de Ventania e a narrativa mais rebuscada também não me incomoda, mas eu lembro de que estava muito, muito cansada no dia que li esse conto, então acabei me cansando um pouco no meio da leitura também, mas mais por motivos externos do que qualquer coisa. Putz, a narradora de “Gente é tão bom” realmente assusta por ser um tipo de pessoa que existe, e aos montes. Brrrrr!

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      • Melissa de Sá

        Bah, você é especialista sim. Nem vem. Super considero a sua opinião. 🙂

        Eu gostei muito da diversidade da revista e espero que eles mantenham essa qualidade pros próximos volumes. Inclusive prefiro uma revista com 5 contos bons do que aquelas que publicam uns 50 em que a gente tem que sair escavando pra ver se acha alguma coisa de qualidade… Já baixei a segunda edição e torço bastante pra que a revista dê certo.

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        • Liége Báccaro Toledo

          Eu também, Melissa! Torço para que dê muito certo. Ah, eu também considero muito a sua opinião… e olha, mandei um conto para a Trasgo. Torça por mim XD!

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