O Olho do Mundo – A Roda do Tempo

Título: O Olho do Mundo – A Roda do Tempo – Livro 01

Título Original: The Eye of the World – Book one of The Wheel of Time

Autor: Robert Jordan

Ano de publicação: 1990 (EUA); 2013 (Brasil)

País de Origem: Estados Unidos

Tradução: Fábio Fernandes

Editora: Intrínseca – 800 páginas

Há cerca de dez anos atrás eu ouvi falar pela primeira vez da série A Roda do Tempo, criação de Robert Jordan. Creio que encontrei informações acerca dela em uma revista de RPG, a Dragão Brasil, cuja publicação foi encerrada em 2007 (se não estiver enganada). Aquela edição da revista falava mais sobre o jogo de role-playing game baseado na série, publicado pela Wizards of the Coast em 2001, mas eu me lembro de ter ficado impressionada com as imagens que vi na revista e com o pouco que li sobre a história e a ambientação da série. O tempo passou e eu nunca me esqueci desse título, que achei muito bonito e poderoso – A Roda do Tempo. Lembro de ter lido na revista que essa era uma série de fantasia que não perdia em nada para a famosa trilogia do anel, então, imaginem só o quanto eu fiquei curiosa na época.

Acontece que nenhum dos livros havia sido lançado aqui no Brasil, e nem havia previsão para isso. Anos depois, enquanto eu fuçava o skoob, de repente me deparo com O Olho do Mundo, o primeiro livro da série, cadastrado. Fiquei doida, mas o livro era uma publicação da Editora Caladwin, que havia encerrado suas atividades. Não consegui comprar, nem este nem o segundo volume, que também havia sido publicado – os livro estavam esgotados. Mas eis que, no ano passado, fico sabendo que a Editora Intrínseca pretendia assumir a tarefa de lançar os 14 volumes da série (14, sim. Rezemos). Um detalhe bastante triste é que o autor de A Roda do Tempo, Robert Jordan, morreu em 2007 antes de conseguir completar a série. Escrever o último volume ficou a cargo de Brandon Sanderson, que seguiu as extensivas orientações deixadas por Jordan e acabou desmembrando o  derradeiro livro em três, devido ao seu tamanho extenso.

Bem, mas voltando a O Olho do Mundo: chegou o Natal, pedi de presente, ganhei e agora venho aqui, no Livros de Fantasia, falar como foi a minha experiência com um livro que eu esperei uma década para ler :D.

O Olho do Mundo começa como tantos outros livros de fantasia clássica, seguindo os moldes da jornada do herói – temos um vilarejo pacato, Campo de Emond, na região de Dois Rios, onde três rapazes aparentemente comuns vivem suas vidas também comuns. Eles são Rand Al’Thor, Matrim Cauthon (Mat) e Perrin Aybara. Sabemos, logo de início, que o inverno foi bastante rigoroso e incomum, com lobos saindo de suas tocas para atacar as pessoas. Por isso mesmo, a mudança de estação é aguardada com alegria. Um festival se aproxima, a estalagem de Mestre Al’Vere, o chefe da cidade, recebeu um menestrel – motivo de alegria – e, apesar de dois hóspedes estranhos – uma mulher ricamente vestida e um guerreiro soturno – estarem causando certo estranhamento na cidade, tudo está voltando aos eixos e as pessoas estão seguindo com suas vidas após o inverno.

Pois bem. Apesar da aparente calmaria, fatos estranhos continuam ocorrendo. Rand, Mat e Perrin viram uma figura vestida de preto rondando a cidade, mas ninguém mais além deles avistou nada parecido.  Há corvos pousados nos telhados. E, em uma noite, Campo de Emond é atacada por Trollocs – criaturas do Tenebroso, monstros que ninguém mais acreditava serem reais. A cidade só resiste por conta dos dois estranhos hóspedes da estalagem Fonte de Vinho: Moraine, a mulher, é uma usuária do Poder Único, uma Aes Sedai, e Lan, o homem, é o seu guardião, guerreiro habilidoso e severo. É Moraine que irá dizer que a razão para o ataque dos Trollocs está em um dos rapazes de Campo de Emond – Rand, Mat ou Perrin – ou talvez até mesmo nos três. Eles precisam partir, e rápido, pois o Tenebroso deseja colocar suas mãos neles. Assim, tem-se início a jornada dos personagens. Juntam-se a eles o menestrel Thom Merrilin, a jovem Egwene  e, posteriormente, Nynaeve, a Sabedoria de Campo de Emond, curandeira e líder do círculo de mulheres da cidade (embora ela seja relativamente jovem para o cargo).


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Primeiramente preciso dizer que demorei bastante para ler esse livro. Eu comecei a lê-lo em dezembro do ano passado e terminei apenas no começo desse mês. O motivo? Apesar de não ser tão descritivo quanto O Senhor dos Anéis, O Olho do Mundo é um livro denso, cheio de detalhes que precisam de tempo e uma leitura cuidadosa para serem absorvidos. O que eu estou querendo dizer é que não é uma leitura rápida e fluida. Assim como em O Senhor dos Anéis, há uma ambientação vasta e extensa nos sendo mostrada. São nomes, povos, acontecimentos, cidades, entre outras coisas, pipocando a cada capítulo. Robert Jordan tem uma narrativa bastante natural, digamos assim. Não há muitos parágrafos explicativos ou falas que procuram ser esclarecedoras. Muitas vezes eu tive a impressão de que estava acompanhando os personagens de verdade, sem que eles soubessem que eu estava ali, então os diálogos soavam bastante reais. Havia a menção a algum termo ou nome e nós só íamos ficar sabendo o que era realmente aquilo mais para frente na história, ou então entendíamos o conceito ao longo da narrativa, por meio das ações dos personagens (o que é o caso do termo Aes Sedai, por exemplo. Nós passamos a entender o que é uma Aes Sedai de verdade a partir das ações da personagem Moraine). Muita informação nos vai sendo dada a conta-gotas. Eu, particularmente, gostei bastante da estratégia, mesmo porque Robert Jordan tem um domínio impressionante de seu próprio mundo.

Apesar de ter demorado um bom tempo para ler o livro, isso não é sinal de que eu não gostei dele. Eu gostei, e bastante. Mas que fique claro que o livro não é uma fantasia repleta de ação e correria em todos os capítulos. Sim, tem sempre algo acontecendo, mas o ritmo do livro não é frenético. O enredo começa a ficar mais agitado mais para o final e aí sim o livro se torna um “page turner”. Antes disso, porém, acompanhamos uma jornada repleta de dificuldades e descobrimos cada vez mais coisas sobre o mundo de Jordan. Além disso, nós sentimos muito mais o impacto e o peso de uma mudança tão grande na vida de três rapazes que viviam em uma cidade pacata. Os personagens sofrem e nem tudo é épico e grandioso.

Pensando nisso gostaria de abrir um parêntesis. A capa do livro diz que “Jordan chega para conquistar o mundo que Tolkien começou a difundir”, uma citação do The New York Times. Inclusive, uma das primeiras críticas que li sobre o livro foi uma da Folha de São Paulo,  que basicamente diz que O Olho do Mundo “repete” a Saga do Anel. Também já vi comentários sobre A Roda do Tempo ser um pastiche de Shannara, série de Terry Brooks que foi confessadamente inspirada em O Senhor dos Aneis. De Shannara li apenas a trilogia da Bruxa Ilse (A Viagem), e não posso opinar com mais propriedade. O fato é que O Olho do Mundo tem sim elementos de SDA, mas, na minha humilde opinião, ele tem seu próprio charme, sabe usar os clichês de forma eficiente (é importante lembrar que Jordan escreveu o livro na década de 80) e não tem o mesmo maniqueísmo mais cristão da obra de Tolkien. Isso porque a série de Jordan tem um elemento original muito bacana, que é a inspiração em elementos das filosofias e culturas orientais. O poder mágico do mundo de A Roda do Tempo tem duas polaridades – o saidin, princípio masculino, e o saidar, princípio feminino (algo como o yin e yang taoísta). Acontece que o saidin foi corrompido pelo Tenebroso e os homens que o utilizavam ficaram loucos. Por isso mesmo, as mulheres são as únicas que podem utilizar o poder com segurança. Sim, as mulheres detêm muito mais poder no mundo de Robert Jordan, porque os homens que tentam acessar essa força mágica geralmente ficam loucos e, portanto, são vistos com muita desconfiança (são, na verdade, caçados!).

Ou seja, é um mundo de fantasia diferente da Terra-Média, com outro foco (inclusive, a ideia de um tempo cíclico, que se repete, chega a englobar o conceito de reencarnação). Embora a narrativa esteja centrada em personagens masculinos, porque os protagonistas são três garotos – o principal sendo Rand, temos presenças femininas de bastante força e relevância na trama. Moraine e Nynaeve, por exemplo, são duas personagens bastante críveis, bem desenvolvidas e com papeis marcantes.

Tocando no assunto personagens, devo dizer que esse ponto foi um pouco complicado para mim. Um dos outros motivos que me levou a demorar um pouco mais com a leitura foi o fato de que os personagens não são imediatamente carismáticos – com exceção de Rand, Moiraine e Tam – e eu demorei para me envolver, me apegar. No início todo mundo me parecia um pouco mal-humorado, ranzinza, ou simplesmente quieto. Mas isso muda de forma gradativa e me vi, ao final, apegada a quase todos eles. Infelizmente, uma das personagens não me desceu: Egwene, o suposto interesse romântico de Rand. Creio que ela seja um tipo de personagem que vá agradar bastante gente: a mulher que quer ser mais do que uma esposa e mãe de família, que quer sair de sua cidade pequena, ver o mundo e fazer grandes coisas. Legal. Claro que o problema, para mim, não está aí, e sim na personalidade de Egwene: ela é prepotente, insensível e só vê o que ela quer. Ela sente necessidade de se colocar em um patamar superior o tempo todo, por isso minha antipatia por ela começou logo no início do livro: em uma cena, Rand, Mat e Perrin estão conversando e ela chega, de repente, dando um sermão desnecessário nos três e dizendo que eles não deviam nunca sair da “barra da saia de suas mães”. O detalhe é que dois dos rapazes são órfãos de mãe… delicadeza zero, Egwene XD! Enfim, a personagem tem um tipo de personalidade que não me agrada em qualquer pessoa, real ou fictícia.


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Em compensação, ao final eu já queria abraçar Nynaeve e Lan, e Perrin e Rand também me conquistaram bastante. É legal destacar que Nynaeve é super ranzinza e adora dar bronca em todo mundo, mas ela tem uma personalidade que me pareceu muito mais natural e é aquele tipo de personagem que é azeda porque, no fundo, está preocupada com todos. Nynaeve é o verdadeiro “anão rabugento” de O Olho do Mundo. E ela foi a responsável por uma das falas mais lindas do livro. Não falo mais, só suspiro.

O que mais posso dizer? O Olho do Mundo é um livro que vai agradar quem gosta de uma boa ambientação e um mundo de alta fantasia construído de forma competente, com personagens cheios de defeitos, dúvidas e nuances. Se você está preocupado com alguma possível “falta de originalidade”, eu aconselho que deixe isso para lá e aprecie a riqueza própria do universo de Jordan. Porém, lembre-se: essa é uma série de 14 livros. Nem tudo é respondido aqui e a história de O Olho do Mundo termina sem, de fato, ter acabado. Vamos torcer para que a Editora Intrínseca não desista dessa incrível missão no meio da jornada.

 

9 Responses to “O Olho do Mundo – A Roda do Tempo”

  1. Melissa de Sá

    Menina, quando vi que você demorou quase 10 anos pra ler esse livro eu fiquei com o coração na mão. Já tive essa experiência pra ler um livro e foi horrível quando me decepcionei (foi a série A Sétima Torre). Soltei um suspiro de alívio quando vi que você gostou do livro.

    Eu estou de olho nessa série tem um tempinho, mas confesso que o número de exemplares em assusta (14???? Com mais três vindo aí…). No entanto, é um nome muito forte na fantasia, então imagino que uma hora ou outra irei ler (talvez quando estiver num momento mais tranquilo da minha vida).

    Eu meio que perco essa paciência com esse lance de comparar toda alta fantasia a Tolkien. Okay, entendo que Tolkien é o grande nome mesmo, mas não é como se todo mundo estivesse sempre imitando Tolkien. E o pior é que a maioria dos textos que vejo com esses argumentos são fracos, sabe. Parece que autor do texto não sabe nada nem de Tolkien nem da obra em questão.

    Quanto ao fato do livro ter um rítmo mais lento, isso sinceramente não me incomoda. Não acho que todo livro tem que ser um page-turner. Existem vários níveis de envolvimento que temos numa história, como você disse. Dizer que um livro é ruim só porque não foi lido em 24 horas é o mesmo que dizer que um pote de sorvete 2L é ruim porque não dá pra comer tudo de uma vez na sobremesa.

    O post ficou excelente, como sempre. Você tem uma capacidade incrível de fisgar a atenção do leitor. 🙂

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    • Liége Báccaro Toledo

      Melissa, hahaha, eu também fiquei com esse medo! Mas, felizmente, eu gostei bastante da leitura. Mesmo as partes que não me agradam, como a Egwene, por exemplo, são questões de gosto e personalidade, e não porque a coisa toda foi mal feita. Tem gente que fala que a narrativa do Jordan é pobre. Eu, sinceramente, não achei não. Achei que ele foi muito capaz na construção do mundo e do enredo, ao menos nesse primeiro volume. Agora, tem mais 13, né? Espaço para estragar tudo tem XD!

      Também não acho nada sábio ficar comparando tudo com Tolkien. Gente, referências são referências, todo mundo faz e pronto. Vamos aceitar isso. Agora, ficar comparando de modo a não conseguir aproveitar as peculiaridades de cada história, de cada mundo, é bobeira total. Eu consegui notar tantas coisas novas e diferentes em O Olho do Mundo… é o que você disse, nem todo mundo está querendo copiar o Tolkien. Muita gente que fala disso realmente não tem conhecimento de causa. Na crítica da Folha de São Paulo senti isso.

      Melissa, eu gosto desse ritmo mais lento XD, ainda mais na alta fantasia! Porque se formos pensar, é necessário que haja um tempo para que nós sejamos realmente inseridos no mundo e na trama. Se tudo for rápido, frenético, centrado na ação, acaba-se a construção da ambientação. Esse exemplo que você deu do pote de sorvete foi simplesmente perfeito. Temos diferentes tipo de relações com diferentes livros. E podemos aproveitar todos eles. Por isso mesmo nem me importei de demorar um tempo a mais em O Olho do Mundo. Saboreei mesmo!

      Leia sim, quando tiver mais tempo. Eu acho que você vai gostar :).

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    • Liége Báccaro Toledo

      Ah, Melissa, um detalhe que eu esqueci de dizer: os três últimos livros já foram publicados,eles estão incluídos dentre desses catorze! A série já foi finalizada (pelo menos isso, hehehehe XD).

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  2. Ótima resenha, de um ótimo romance.

    Há diversas semelhanças mesmo com O Senhor dos Anéis, assim como havia nas excelentes Crônicas de Prydain, e não vejo problema algum nisso. O universo de A Roda do Tempo é bastante rico e diferente da Terra Média, tendo uma identidade muito forte e bem estruturada.

    A maioria dos personagens são muito interessantes, e algo de bom que vemos aqui e que não pudemos aproveitar na obra do mestre Tolkien foi a exploração de vários tipos de culturas e etnias, coisa que Robert Jordan fez muito bem.

    Espero que tenhamos a continuação desta obra em nossas terras, pois é uma leitura de peso para todos os fãs de fantasia.

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    • Liége Báccaro Toledo

      Eu também estou torcendo para que a Intrínseca publique a série toda, Odin. Creio que o segundo livro já foi traduzido e a publicação está certa. Só espero que as vendas correspondam às expectativas e que a editora continue com o trabalho.

      Eu gostei de O Olho do Mundo e o mais interessante é que a gente percebe que ainda tem muita coisa para ser explorada. Realmente, acho que é uma leitura muito importante para todo mundo que gosta de fantasia!

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  3. Olá! Adorei a resenha. Tudo bem, confesso, sou hiper fangirl de A Roda do Tempo. Amo essa série, personagens, worldbuilding, a escrita do Robert Jordan (e do Brandon Sanderson).

    Gostei muito das suas ponderações em relação às outras séries de fantasia. É algo que nunca me incomodou na primeira vez que li a série, pois o RJ tem mesmo uma criatividade e escrita incríveis. Espero que você goste dos demais livros (o meu preferido é o sexto com o 12º e o 14º logo atrás rsrs).

    Bjos e excelentes leituras!

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    • Liége Báccaro Toledo

      Oi, Cassy! Puxa, que bom que você gostou da resenha! Eu sou ainda uma “iniciante” nesse mundo, mas confesso que gostei bastante mesmo da escrita do Robert Jordan, da ambientação, e dos personagens também (exceto pela Egwene, coitada! XD). Na verdade, achei incrível como eles conseguiram me conquistar de pouquinho…

      Essas minhas ponderações em relação às outras séries foram “causadas” por conta dos comentários que eu li sobre a série ser pouco original. Poxa, eu não achei nada disso! O mundo do RJ é tão rico… acho que as pessoas fazem uma análise muito preguiçosa das obras de fantasia de vez em quando, viu… é muita má vontade, sinceramente.

      Eu estou empolgada com as próximas leituras, Cassy! Também espero muito gostar deles!!

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  4. Caramba, Liége. Eu já tinha ouvido falar nessa história há muitos anos atrás, mas não imaginava que já fazia tanto tempo assim…
    Eu bem que gostaria de ler, mas por enquanto prefiro esperar para ver se os 14 livros serão mesmo publicados!! rs…
    beijos
    Camis

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    • Pois é, Camis, é complicado esse negócio de 14 livros. Parece que o segundo livro da série vai sair agora em maio mesmo, mas eu tenho medo de que a Intrínseca não publique a série inteira… é esperar para ver… vamos torcer!

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