Por que as pessoas menosprezam a fantasia?

Olá, estimados leitores do Livros de Fantasia. Como vocês sabem pelo último post, a Melissa está passando por um período turbulento no Mestrado e precisa dar uma pausa nas atividades no blog 🙁 (todos dizem “aaaaah!”). No entanto, eu ainda estarei por aqui até ela voltar, e hoje gostaria de publicar um pequeno “desabafo” que eu originalmente tinha escrito para o meu blog. A Melissa curtiu o texto e pediu que eu publicasse no Livros de Fantasia também. O assunto tem tudo a ver com esse espaço e rendeu uma discussão bacana, e espero que vocês gostem. Vocês verão pelo post que meu objetivo não foi fazer um texto acadêmico XD sobre o assunto, e sim contar um pouco da minha experiência com algo que sempre amei e que muitas vezes é enxergado com um certo menosprezo (aposto que muita gente já passou por isso). Vamos ao texto!

O questionamento feito no título do post me acompanha desde a adolescência. Foi na adolescência que eu tomei consciência da minha paixão por criar histórias com essa temática, embora eu tenha gostado de fantasia (principalmente medieval) desde que me conheço por gente – isso veio comigo e nunca mudou. Tanto que meu filme favorito quando pequena era Willow – Na Terra da Magia, fantasia clássica com a típica jornada do herói em sua trama.

Quando eu tinha 15 anos, em 2001, O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel estreou nos cinemas. Antes disso eu já havia lido os livros e conhecia a história e, obviamente, estava encantada – mas foi com a explosão de Tolkien nos cinemas e o meu consequente envolvimento com o RPG que me vi cercada por um mundo do qual não queria mais sair. Eu descobri muitas coisas novas, coisas que nunca havia visto ou lido antes. Devorei Dragonlance e a trilogia do Vale do Vento Gélido, li As Brumas de Avalon, escutei metal melódico pela primeira vez e as nuvens se abriram ao som de The Village of Dwarves. Antes disso, simplesmente não tinha um grupo de pessoas que conhecesse e me mostrasse essas coisas. Por isso essa foi uma época muito importante para mim, uma descoberta um tanto tardia de coisas que eu teria gostado muito desde uma época mais tenra.

Mas, eu me lembro até hoje de uma discussão que tivemos em uma aula de geografia no colégio onde estudava. Uma professora de quem eu gostava muito, muito mesmo, ouviu a gente conversando sobre O Senhor dos Anéis. Alguém perguntou a ela se ela curtia, ao que ela respondeu que não, que preferia viver a vida real, que não gostava dessas coisas de elfos e anões. O tom dela e sua expressão diziam que ela achava aquilo tudo uma grande besteira. E isso, embora não tenha me deixado chateada na época (ela era, afinal, uma boa professora e eu realmente gostava dela), foi uma coisa que me marcou. Nunca esqueci das palavras dela e me lembro que na época fiquei me perguntando o que é que a afastava da fantasia, já que para mim esse gênero era uma paixão que me levava a escrever, era algo que não me tirava da vida, apenas me fazia enxergá-la de modo diferente.

Quando entrei na faculdade, esse tipo de opinião se tornou uma constante por parte de professores e alunos. Em Letras ninguém queria tratar desse tipo de literatura, Tolkien era motivo de chacota, e a atividade favorita de muitos alunos era zoar Paulo Coelho e fazer arzinho de superior ao falar o quanto seus escritos eram um lixo. Escuta, eu não amo de paixão Paulo Coelho, mas não conseguia compreender esse prazer tão grande em menosprezar a literatura mais popular e a de fantasia.

Até hoje não entendo muito bem certos argumentos utilizados para menosprezar a fantasia. Certo, há quem não goste mesmo do gênero, e não há problema com isso. Eu não gosto de chick-lit, por exemplo, não sou super fã de terror e não é tudo na ficção científica que me agrada. Não gostar não é problema, mas menosprezar é.

Esse argumento de que “fantasia não tem nada a ver com a realidade” é falacioso. Você pode falar da realidade e dos sentimentos humanos em qualquer cenário. O Senhor dos Anéis, por exemplo, aborda conceitos que falam sim do nosso mundo e dos nossos anseios. Amizade, lealdade, honra, dever, questionamentos e dúvidas em relação a responsabilidades, corrupção e sede pelo poder, exploração do meio-ambiente… se forem me dizer que isso não tem a ver com a humanidade e o mundo em que vivemos, ficarei com um ponto de interrogação estampado na minha cara.

O engraçado (e triste) é que mesmo dentre os amantes de fantasia temos constantemente discussões sobre essa questão da “realidade”, e por vezes existe uma certa tendência a valorizar fantasias mais “sujas”, como As Crônicas de Gelo e Fogo, por exemplo, como sendo histórias que mostram “as coisas como elas são” e, portanto, são menos “ingênuas”. Já falei aqui sobre isso e acho que essa discussão é muito insípida, mas ela existe e reflete um pouco a visão das pessoas sobre a fantasia mais clássica. É como se ela fosse um gênero menor, “infantil”, que não tem nada a ver com o mundo real “adulto”. Mas é interessante pensar que todos os livros de fantasia que eu já li, incluindo aí mídias como gibis e mangás, sempre me trouxeram reflexões, fizeram parte da minha formação como pessoa e como mulher e continuam fazendo, mesmo agora que tenho 26 anos.

A fantasia não é ingênua. Talvez seja, por vezes, idealista e até utópica, mas não é algo que se exime de reflexões profundas e discussões sobre ideais e valores (ou a falta deles, talvez…). Não é porque a fantasia fala de elfos, trolls, pôneis ou samurais voadores que não existirão ali conexões com as questões humanas. Seja qual for a roupagem de um personagem, seja qual for o cenário – um mundo feito de pirulitos, o planeta marte, a floresta de Lothlórien – a fantasia também fala sobre nós, sobre o nosso mundo. E muitas vezes vê esse mundo e as pessoas de forma mais positiva do que merecemos, confesso.

Portanto, eu digo: não gostar de fantasia (ou de outros gêneros) não é um problema. O problema está em menosprezar algo como se fosse inferior por supostamente não ter conexão com a realidade (como se a realidade fosse essa coca-cola toda também, né, gente XD), o problema é arranjar uma desculpa repleta de julgamentos equivocados para justificar uma suposta intelectualidade superior, adulta e mais crítica.

Termino minha reflexão meio confusa e mais superficial do que eu gostaria com uma citação de Tolkien que eu simplesmente adotei para a vida. Aí vai:

“Fantasy is escapist, and that is its glory. If a soldier is imprisioned by the enemy, don’t we consider it his duty to escape?. . .If we value the freedom of mind and soul, if we’re partisans of liberty, then it’s our plain duty to escape, and to take as many people with us as we can!”

“A Fantasia é escapista, e essa é a sua glória. Se um soldado é aprisionado pelo inimigo, não consideramos que é seu dever escapar?… Se valorizamos a liberdade da mente e da alma, se somos partidários da liberdade, então é nosso óbvio dever escapar, e levar conosco tantas pessoas quanto conseguirmos!”

E fica aqui essa reflexão também… nem todo escapismo é ruim. Não é muitas vezes escapando que nos tornamos livres?

 

13 Responses to “Por que as pessoas menosprezam a fantasia?”

  1. Esse povo que acha que “escapar da realidade em fantasia é ruim” é hipócrita. Toda literatura – aliás, toda mídia, sejam filmes, games, gibis, não importa – é escapista. Até mesmo realismo é escapista, porque te coloca na vida de um personagem que, adivinha, NÃO EXISTE. Então esse povo que menospreza fantasia – e como você disse, é diferente menosprezar e não gostar – é simplesmente imbecil, na minha opinião. Afinal, quem no planeta não gosta de assistir um filme?! Você pode até dizer – e eu tenho tremores quando ouço isso – que não gosta de ler. Mas nunca vi ninguém dizer que não assiste a um filme. Nunca. Seja no cinema, seja em casa, seja na Seção da Tarde. Nunca vi. E um filme é escapista, mesmo que seja baseado em fatos reais. Não é a sua vida, cara. Então você tá escapando da SUA realidade, nem que seja pra embarcar na realidade de outra pessoa. Pronto.
    Teu texto foi brilhante, Liége. Tu fala as coisas de um jeito sensato e controlado. Eu já tenho vontade de mandar pra aquele lugar… hahahahaha

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    • Concordo plenamente com você, Karen! Toda mídia, toda literatura, é escapista de alguma forma. Quando a gente vai assistir a um filme, a gente “escapa” do mundo por duas horas, quando jogamos games, idem, enfim… é bobeira achar que só a fantasia é escapista. Mas eu acho que o que acontece é que as pessoas consideram a fantasia algo menos “maduro”, mais relacionado ao universo infantil. Quem curte (muito) fantasia por vezes é visto como uma pessoa que não amadureceu em seus gostos, que ainda se prende a essa fase, o que é uma concepção errada e hipócrita mesmo. Já me perguntaram, quando eu falo dos meus gostos, se eu “nunca ia amadurecer” e minha mãe uma vez me disse, em um surto de “você tem que ganhar dinheiro”, que “escrever livrinho de história de RPG não leva a nada, você tem que escrever sobre a natureza humana”. Oi? E isso veio de uma mulher que adora fantasia e que já leu um monte de livros do Tolkien. Até mesmo quem gosta menospreza, por vezes, e não entende que a fantasia FALA da natureza humana. Quer dizer, eu acho que tudo na literatura e outras mídias fala da natureza humana de alguma forma. Mas a fantasia é “menor”, é “ingênua”… com a febre de Game of Thrones isso tem diminuído um pouco, mas agora a questão é que a fantasia tem que ser “suja” e “sombria” para ser boa a adulta. É dureza…

      De vez em quando eu também tenho vontade de mandar todo mundo ir as favas por conta da incoerência da coisa, Karen, mas respiro fundo e acabo escrevendo um texto para aplacar a frustração XD!

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    • Huahahuaha, eu pensei em você quando li o comentário da Karen, Jaco. Mas você gosta muito de livros, séries, desenhos japoneses… ou seja, um escapista de primeira e amante de fantasia, essa coisa boba de criança XD. Brincadeiras à parte, nunca tinha conhecido uma pessoa que não gostasse de filmes antes.

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    • De fato, Karen… se achar mais maduro do que o outro por uma coisa tão trivial, um gosto, é um sinal grande de imaturidade. Demonstra apenas a insegurança da pessoa e a necessidade de se afirmar de algum modo… chato.

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  2. Lí,
    Adorei o seu desabafo e acho que isso vale para todo gênero literário. Cansei de ver gente menosprezando um gênero literário por não julgá-lo digno. As pessoas enchem a boca para dizer que boa literatura são somente os clássicos e que a literatura comercial é lixo! Isso não acontece apenas com a fantasia.
    É uma pena!
    Beijos
    Camis

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    • Certamente, Camila! Não é só com fantasia não. No meio acadêmico é muito comum esse menosprezo à literatura mais comercial, enquanto os clássicos são considerados a boa literatura. Nada contra os clássicos, mas acho que há espaço para tudo. Só que o ser humano tem mesmo essa mania de tentar se sentir especial a partir das coisas que gosta, e algumas coisas são “institucionalizadas” como boas ou de qualidade pelo senso comum. Aqui no Brasil acho que o preconceito é um pouco maior nessa questão da literatura – lá fora eu percebo que o mercado parece mais aberto a gêneros diversos. Posso estar enganada, mas tenho essa impressão, principalmente no campo da fantasia. É só ver a seriedade com que os britânicos tratam o Tolkien, por exemplo.

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  3. Ótimo texto,Liége! Você disse o que muitos de nós pensamos.
    Vemos a arrogância das pessoas o tempo todo, principalmente em redes sociais, ostentando suas estantes (mesmo que muitos livros ainda estejam na embalagem plástica), esnobando quem lê best-sellers, fantasia, autoajuda, e por aí vai.
    É triste que mesmo com muitos livros em vez de mais sábios, se tornem apenas idiotas letrados.

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    • Pois é, Cassio, é muito interessante isso que você falou… é triste que uma pessoa que supostamente lê tanto continue com uma cabeça tão fechada e uma concepção tacanha. Eu creio que quando a gente usa qualquer tipo de conhecimento ou suposta cultura para alimentar arrogância, a coisa perde o sentido.

      Enfim, muito obrigada pelo comentário!!

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