Ficção especulativa e pós-apocalipse: um pouquinho sobre Oryx and Crake e The Year of the Flood

Eu voltei! A dissertação está escrita e agora posso voltar com as atividades do blog sem medo de ser feliz. Mas antes que eu comece com as resenhas e as novidades (siiiiim, teremos novidades em breve), eu não poderia deixar de falar dos livros que me acompanharam durante essa empreitada mestradosística: Oryx and Crake e The Year of the Flood.

Sim, eu fiz um mestrado sobre livros de ficção especulativa pós-apocalíptica. E não, não enjoei deles. Ainda estão na minha lista de livros favoritos. Quer conhecer um pouco mais?

Oryx and Crake (Oryx e Crake, em português) e The Year of the Flood (O Ano do Dilúvio, em português) foram escritores pela canadense super foda Margaret Atwood. Não conhece a Atwood? Shame on you. Essa mulher é um monumento literário, minha gente.

Margaret Atwood. Ela tem um twitter impagável, inclusive. @MargaretAtwood

Desde a década de 60 ela escreve poesia, contos e romances de alta qualidade (e ela escreve até hoje!). Seu livro mais famoso é possivelmente The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia, em português) uma ficção especulativa em que um governo totalitário cristão dá um golpe nos Estados Unidos e começa um processo de controlar a sociedade, principalmente as mulheres, seguindo a Bíblia ao pé da letra. O resultado é simplesmente assustador.

Oryx and Crake e The Year of the Flood seguem na linha da ficção especulativa, mas por uma via diferente. Dessa vez o foco é na ciência sem ética. Os dois livros nos levam para um futuro (não tão distante assim, pra dar aquele toque assustador) em que humanidade está praticamente extinta. Simples assim.

Em Oryx and Crake, acompanhamos Snowman (Homem das Neves, em português), um jovem sobrevivente que está à beira da loucura por conta de seu isolamento e culpa. Em The Year of the Flood, temos Toby e Ren, duas mulheres que sobreviveram à catástrofe e agora tentam lidar com sua nova situação. Os dois livros contam a mesma história, apenas a partir de pontos de vista diferentes.

Em ambas as narrativas temos capítulos alternados entre o mundo pós-catástrofe e o mundo pré-catástrofe. Se bem que o mundo pré-catástrofe já era bem catastrófico: o capitalismo está em seu ápice, as pessoas só pensam em comprar e gastar e existe um abismo absurdo entre ricos e pobres. Os ricos moram nos Compounds, bairros murados completamente isolados do mundo, enquanto os pobres moram nos pleeblands, os restos das antigas cidades, e estão sujeitos à violência e à falta de policiamento.

Além disso, a ciência é considerada a única forma de conhecimento válida. Isso mesmo, se você não é cientista, vai acabar num subemprego. Ninguém liga mais pra arte ou pra literatura. Ninguém está nem aí pra nada. O clima está uma droga por causa do aquecimento global, corrupção rola solta, experimentos científicos suspeitos são feitos em pessoas sem qualquer regulamentação, mulheres são tratadas como meros enfeites ou como corpos sem valor. CATÁSTROFE TOTAL.

Pelos olhos de Snowman, Ren e Toby ficamos sabendo, aos poucos, como esse mundo altamente capitalista culminou na quase extinção da humanidade e na criação dos Crakers. Ah, sim, esqueci de falar dos Crakers. Humanóides criados em laboratório que comem grama, têm um sistema cognitivo limitado, procriam em ciclos (como animais mesmo) e ainda cheiram a fruta cítrica (pra espantar os insetos). Criados para substituir a humanidade em caso de destruição… Epa, peraí. Sim, tem uma conspiração nesses livros! Das boas!

Já fiz resenhas dos dois livros aqui e aqui, mas quis falar deles novamente, dessa vez, juntos. Afinal, na minha dissertação, fiz uma análise comparativa dos dois. E sinceramente, é bem mais legal lê-los juntos.

Está cansado das distopias young adult que não se aprofundam muitos nos personagens? Então Oryx and Crake e The Year of the Flood são uma excelente pedida. Os personagens são o centro do livro, é em torno deles que a história acontece. Acompanhamos os três protagonistas desde a infância até a idade adulta. E é uma delícia acompanhar as ideias cruzadas (e personagens cruzados) nos dois livros.

Mas não se engane. Esses livros não são daqueles thrillers eletrizantes com ação e aventura. Pelo contrário. A leitura, como eu disse, fica mais centrada nos personagens e é cheia de anti-clímaxes. Ou seja, é um livro diferente dos que estamos acostumados. Mas vale lembrar que Margaret Atwood é uma best-seller ao mesmo tempo que é bem vista pela crítica acadêmica por um bom motivo: a mulher sabe como contar uma história.

E ela ainda tem frases ótimas. E um senso de humor único.

Desde 2010 que eu me perco no mundo de Snowman, Toby e Ren. Já analisei tanto seus dramas e questões, que às vezes sinto que eles estão bem perto. hahahaha A defesa da dissertação é no final do mês. Torçam por mim e, de quebra, dêem uma olhada em Oryx and Crake e The Year of the Flood.

Quem são Oryx e Crake? O que é esse tal dilúvio? hohoho É mais legal descobrir lendo, eu garanto.

Ah, dos dois livros foram traduzidos e publicados no Brasil pela Rocco.

Em 2013, Margaret Atwood publicou o terceiro livro, dessa que agora é uma trilogia, MaddAddam. Esse último livro é uma sequência dos dois anteriores (que são narrativas simultâneas). E não, ele não entrou na minha dissertação. Mas eu já li e em breve tem resenha dele no blog.

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

8 Responses to “Ficção especulativa e pós-apocalipse: um pouquinho sobre Oryx and Crake e The Year of the Flood”

  1. Nossa, Melissa, os livros parecem excelentes. Achei muito interessante a premissa deles e essa questão da ciência e de ninguém ligar mais pra outras formas de conhecimento e arte. O que eu acho bacana nesse tipo de cenário pós-apocalíptico é aquele mal-estar que a gente sente – quando a coisa é bem feita, sempre fica aquela pulga atrás da orelha, aquele desconforto de saber que isso poderia acontecer, sim…

    Adorei o post!! Que bom que você voltou e estou torcendo com muita força para a defesa ser um sucesso (é claro que vai ser!)!

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    • Melissa de Sá

      Liége, eu acho que você ia gostar muito da Margaret Atwood. Ela é mestre em criar esse mal estar, essa sensação de que aquele apocalipse horrível na verdade já está acontecendo!
      Obrigada pela torcida! 🙂

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  2. José Nilson

    Olha, a tua ótima análise sobre estes livros despertou em mim um desejo imenso de lê-los! As premissas são deveras interessante. Já estão na minha lista. 🙂

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    • Melissa de Sá

      José, fico feliz demais em ter despertado o seu interesse! 🙂
      Quando ler, não esqueça de voltar aqui e dizer o que achou.

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  3. Guilherme

    Estou muito ansioso pra lê-los, aliás alguma editora já o traduziu para portugues? Obrigado e parabéns pela análise

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    • Melissa de Sá

      Guilherme,

      Os dois livros já foram traduzidos sim. A editora responsável é a Rocco. Os títulos em português são “Oryx e Crake” e “O Ano do Dilúvio”. 🙂

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