Delirium (Delirium #1)

Delirium foi uma leitura do ano passado que eu demorei a resenhar. O motivo? Foi uma decepção literária.  Não que o livro seja ruim ou que a escrita não seja envolvente, mas é que Delirium se desenvolveu para um lado que não me agradou.

Título: Delirium

Título em português: Delírio

Autor: Lauren Oliver

Ano de publicação: 2011 (EUA), 2012 (Brasil)

País de Origem: Estados Unidos

Tradução: Rita Sussekind

Editora: Intrínseca – 352 páginas

Lena é uma jovem de 15 anos que vive nos EUA. O livro é uma distopia em que o governo controla as pessoas através da cura do amor deliria nervosa. Em outras palavras, não existe amor nessa sociedade, pois ele é considerado doença. Aos 16 anos, todos passam por uma cirurgia para obter a cura. Todos se tornam assim indivíduos saudáveis, mais centrados e equilibrados, aptos a viver de uma forma mais plena. Ou assim prega o governo e a religião através de inúmeros livros que estudam o tema. Mas quais serão as consequências de uma sociedade em que amor não existe? Bem, Lena está prestes a enfrentar essa pergunta.

Fiquei bastante ansiosa para ler este livro, depois de ter lido essa resenha no Por Essas Páginas, um blog que confio muito. Acho que esse foi um dos motivos de ter me decepcionado, pois normalmente quando criamos muita expectativa para algo, as chances de aquilo não ser exatamente o que imaginávamos é bem grande.

E foi isso que aconteceu com Delirium. Imaginei uma distopia tensa, com dramas psicológicos das consequências de uma sociedade sem amor e foi exatamente isso que encontrei na primeira parte do livro, que li de uma vez. O problema é que a segunda parte foca, bem, no casal apaixonado. E bem, eu achei que essa reviravolta ficou maçante.

Mas voltando ao livro: Lena mora com os tios numa família que possui um histórico complicado de amor deliria nervosa. Sua mãe cometeu suicídio quando ela era criança, sendo assim um dos poucos indivíduos a resistir ao procedimento de cura.  Lena se sente sozinha. Afinal, se o amor não existe, os laços afetivos também não. Seus tios têm com ela um relacionamento baseado na responsabilidade e na obrigação. Eles têm que cuidar de Lena. É um dever, não uma escolha ou algo que eles fazem com algum sentimento.

As consequências da cura do amor deliria nervosa são mostradas principalmente no relacionamento de Lena com seus tios. Ambos são pessoas plácidas, que não se alteram. Eles não fazem nada por impulso ou por paixão a alguma coisa. Lena, no fundo, não consegue entendê-los, pois ela mesma possui uma paixão: correr. Mas os tios asseguram a ela que isso vai passar depois do procedimento.

O procedimento de cura inicialmente é visto por Lena como algo lógico. Por conta de sua solidão (além da morte da mãe, sua irmã foi curada há alguns anos e as duas não se falam mais), ela deseja se livrar daqueles sentimentos de qualquer jeito. Ela quer a liberdade que tanto é pregada nos livros que falam sobre a cura. Sua amiga Hannah, no entanto, é quem começa a questionar tudo. Hannah é bonita e impulsiva, leva Lena escondido para shows de música proibida depois do toque de recolher, discute abertamente “ideias perigosas”.

A capa da edição em inglês que li. Gosto mais da original, que é a mesma da brasileira.

O relacionamento de Lena com Hannah foi a coisa que mais gostei no livro: dá pra ver que as duas têm um laço de amizade verdadeiro e forte, mesmo com suas diferenças. Hannah é de uma família mais rica enquanto Lena é bastante pobre. Todos os adultos dizem que a amizade delas irá acabar com a cura (afinal, amizade é amor, né minha gente) e as duas decidem passar um último verão juntas, fazendo tudo que mais gostam de fazer: correr, andar na praia, conversar, etc.

Vamos percebendo aos poucos o quanto a sociedade em que Lena vive é opressora.  Existe um toque de recolher, a polícia pode a qualquer momento invadir sua casa e revistar tudo, pessoas são presas por pouca ou nenhuma prova por se operem ao sistema. A cura é exaltada como a solução para todos os males da sociedade. Crianças e adolescentes são vistos como um grande perigo, pois não estão curados. Casamentos são arranjados pelo governo. Livros que falam sobre amor (como Romeu e Julieta) são proibidos e usados como exemplos do mal que o amor deliria nervosa pode causar.

Ah, todo capítulo começa com o trecho de algum livro científico ou religioso daquela sociedade que alerta as pessoas dos perigos do amor. Achei esse recurso fantástico, pois o leitor é levado a conhecer quais são os preceitos daquela sociedade. Os trechos incluem passagens históricas sobre quando o amor começou a ser considerado uma doença, como reconhecer sintomas do amor deliria nervosa, o que fazer se você conhece alguém doente, etc. Além disso, os livros de onde esses trechos são tirados são citados o tempo todo pelos personagens, de modo que é possível perceber o quanto essa ideia de que o amor é doença faz parte da vida diária de todos.

Até aqui vocês devem estar pensando, ué, Melissa, por que então você não gostou do livro? Ele tem tudo o que você gosta: drama psicológico, distopia, um evento pós-apocalíptico misterioso…

É, mas quando o foco do livro sai da distopia e entra no romance eu confesso que fiquei com vontade de jogar o livro na parede.

Lena conhece Alex, um rapaz misterioso que estava presente inclusive no dia de sua entrevista para a cura, quando um bando de animais invade o local, atrapalhando seu procedimento. Lena fica com seu rosto gravado na mente e mais tarde vai encontrar Alex várias vezes: numa festa ilegal, trabalhando normalmente como guarda num píer, etc.

Não é spoiler o que vou dizer, pois está mais que óbvio, inclusive escrito na orelha do livro: Lena se apaixona por Alex e vice-versa. Quando isso acontece, obviamente, ela não quer mais a cura. Ela quer viver o amor.

Tá, até aí tudo bem. Eu não me importo realmente com casais ou com romance. Meu problema com Delirium é que o romance engoliu tudo e ainda por cima ficou brega. Lena só deseja Alex, só quer ficar com Alex, só pensa em Alex. Sinceramente, parece que ela está sofrendo de mal do século. Lembrei de Os Sofrimentos de Jovem Werther, uma obra do século XIX, em que um jovem, de tão apaixonado (obcecado, stalker) que está por sua amada, acaba cometendo suicídio quando percebe que não pode ficar com ela.

Eu até entendo que talvez a premissa de Delirium tenha sido essa mesmo: Lena sempre foi ensinada de que o amor é errado, meninos e meninas vivem separados (homessexuais são considerados ainda mais doentes), etc. Entendo que a ideia do texto possa ter sido justamente mostrar Lena embriagada de amor, vivendo algo proibido até os últimos segundos e tudo mais.

Só que ficou chato. Ficou. Pronto. Cadê o último verão com Hannah? Ela simplesmente joga a amiga de lado pra ficar com Alex. E é Alex, Alex, Alex, Alex. Gente, parece que a menina até sofreu lavagem cerebral.

Fora que Alex foi perfeitinho demais pro meu gosto. Okay, ele é cheio de mistérios, mas ainda assim, ele é muito certinho.  Entendo também que ele é visto pelos olhos de Lena, que é, afinal, quem narra o livro, mas mais uma vez: ficou chato.

O tal questionamento prometido no livro, sobre as consequências de uma sociedade sem amor, é diluído na narrativa pra dar lugar ao amor romântico. Até mesmo o mistério da família de Lena se perde.

No final, o livro deslancha um pouco, mas ainda assim o foco é basicamente no romance. Inclusive, achei o final meio brega. E olha que eu adoro um clichê melancólico.

Se eu recomendo o livro? Huuuuuuuuuum, sim. Porque acho que ele pode agradar quem gosta de romance, obviamente, e também porque talvez o meu problema com o casal não seja um problema pra outras pessoas. Inclusive, eu queria muito discutir esse livro com quem já leu e teve uma opinião diferente.

Delirium tem uma continuação, Pandemonium, e um conto chamado “Hannah”. Sinceramente, estou muito a fim de ler “Hannah”, eu achei a personagem incrível. A série se fecha com Réquiem. Se vou ler? Não sei. Só se conseguir o livro ou algo assim, não é minha prioridade.

Impressão final: DÁ PRA DIVERTIR.

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

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