Mundos

Mundos é uma antologia de contos que promete nos levar a diferentes universos fantásticos. Com contos com vão de regulares a excelentes, essa foi uma leitura que me deixou satisfeita e que com certeza coloriu minhas tardes no final de semestre corrido.

Título: Mundos
Organizadores: –
Autores: Georgette Silen, Suzy M. Hekamiah, Emerson Dantas e Pimenta, Karen Alvares, Davi Gonzales, Roberta Spindler e Ricardo Guilherme dos Santos.
Editora: Buriti
Páginas: 144

Um domo num cenário distópico, um museu dos brinquedos errante e sinistro, uma cidade que poderia ser qualquer uma, um reino em que fadas e bruxas são inimigas, o porão de uma casa, um platena quase destruído, o rio onde vive um boto. São esses os mundos que encontramos nessa antologia. E aí, quer conhecer mais desses lugares fantásticos?

Vou comentar brevemente cada conto.

 “Domo Acra”, de Georgette Silen

O conto que abre a antologia nos leva para o Domo, uma espécie de nave ou pavilhão. É pelos olhos de Eve, uma jovem que lá vive, que começamos a entender esse mundo. Eve pouco entende de sua realidade, mas sabe que o Domo é tudo que existe. Em uma de suas escapadas para um lugar secreto, ela conhece um Cavaleiro, um homem escolhido pelo Lorde. Os dois iniciam uma relação secreta, que ameaça a ordem do Domo.

Gostei muito da escrita de Georgette Silen, que mescla ficção científica com fantasia. A ideia do Domo é realmente interessante e eu pude sentir a opressão da vida de Eve. Além disso, a mistura de mito e ciência deu um toque peculiar a essa distopia, que me agradou bastante. Confesso, no entanto, que tive minhas ressalvas em relação ao romance entre Eve e o Cavaleiro. Entendo que os dois eram inocentes e que pouco sabiam das coisas “do mundo”, mas eles não me convenceram como casal. Além disso, os dois têm aquela pegada de romance puro que normalmente não me agrada. E dessa vez, infelizmente também não agradou.

“A obra é do tempo”, de Suzy M. Hekamiah

Somos levados à São Paulo de 1977, onde conhecemos Meg e sua filhinha, Janice. Como surpresa do Dia das Crianças, Meg leva Janice para o Museu dos Brinquedos de Dom Filipi, um lugar de maravilhas e surpresas que só aparece de dez em dez anos. Janice, obviamente, fica muito empolgada com a ideia e as duas passam o que inicialmente se mostrou uma tarde agradável. No entanto, não é difícil perceber que o Dom Filipi, que recebeu a alcunha de Príncipe das Brincadeiras, agora pouco tinha o que brincar. O local começa a se mostrar um tanto quanto sinistro e mãe e filha se deparam com uma verdadeira surpresa macabra ao final.

O que me incomodou nesse conto é que ele é sinistro, a história é sinistra, mas não sei a autora conseguiu passar bem essa ideia. Senti o tempo todo que levaria um susto com a história e o susto não veio. Tudo bem que a narrativa se encaminhou para um lado mais melancólico numa segunda parte, mas, mesmo assim, senti que ficou faltando alguma coisa. Não chegaria a dizer que o conto é ruim, só que seu potencial não foi totalmente explorado.

“Cinderela Underground”, de Emerson Dantas e Pimenta

O protagonista é um jovem entediado com a vida e com o trabalho. É então que seu colega o incentiva a ir um bordel Nível A e se divertir. Lá, ele conhece uma misteriosa mulher de azul que deixa para trás um sapato. Obcecado por encontrá-la, ele entra numa espiral de auto-destruição. O toque fantástico aparece ao final.

O conto é muito bem escrito e fiquei muito envolvida na história. Consegui sentir empatia pelo protagonista e sentir seu desespero. O problema foi que apenas na última página tivemos o aparecimento de algo fantástico e num livro que promete mundos incríveis, esse ficou meio deslocado. Além disso, a resolução do conto me deixou insatisfeita. Infelizmente.

“Austengard”, de Karen Alvares TOP 3 FAVORITOS

Em Austengard, fadas e bruxas são inimigas. No entanto, uma improvável amizade nasce do encontro entre Clara, uma fada, e Matilda, uma bruxa. As duas crescem juntas acreditando que o laço que as une é indestrutível, mas quando um baile acontece no palácio real antigas rusgas entre as raças podem ameaçar as duas.

Esse conto me pegou de jeito. Matilda é uma protagonista muito cativante e bem desenvolvida. A narrativa da Karen é muito envolvente e bem feita. O final me arrebatou completamente e eu só queria continuar lendo sobre Austengard e Matilda. Eu sinceramente espero que a autora revisite esse universo. EM BREVE! Karen Alvares escreve alta fantasia e qualidade e essa é a prova.

“Os símbolos do diabo”, de Davi M. Gonzales TOP 3 FAVORITOS

Um resignado narrador em primeira pessoa é quem nos leva a conhecer o futuro da Terra. Enquanto os pobres trabalham exaustivamente como semi-escravos, os ricos habitam as FAZ onde gozam de comida de qualidade, recreação e tranquilidade. O narrador escapa do horror de sua realidade aprendendo a lidar com os símbolos do diabo, estranhas figuras, proibidas, que carregam significado. É por causa desse ato criminoso de ler e escrever que ele é levado a confrontar uma realidade que não imaginava.

Eu gosto bastante de distopias e essa não me desapontou. Me envolvi com a situação mostrada e a voz do personagem principal casou bem com sua situação. Novamente, terminei um conto com vontade de saber mais desse universo.

“Monstros Interiores”, de Roberta Spindler TOP 3 FAVORITOS

Um monstro que vive no porão de uma casa. Da escuridão, ele observa os humanos que vivem suas rotinas ordinárias. Mas quando a família de Pedro se muda para o local, é a rotina do monstro que muda. Juntamente com o garoto, que se intitula o Grande Explorador, o monstro vai enfrentar seu maior mistério: sua própria existência.

“Monstros Interiores” foi meu conto favorito de toda a antologia. Eu já conhecia o trabalho da Roberta Spindler e imaginava que o conto seria bom, mas ele me surpreendeu de uma forma positiva. Achei a história tocante e sensível. Todos os personagens foram bem desenvolvidos e o final me deixou com o coração na mão.

“Amadurecendo”, de Ricardo Guilherme dos Santos

Essa é uma releitura de uma famosa lenda do folclore brasileiro: o boto cor-de-rosa. Como vocês devem saber, o boto seduz jovens mulheres e depois vão embora. Essas mulheres normalmente têm filhos, mas o boto nunca mais aparece. Nesse conto, no entanto, temos a narração de um boto arrependido, apaixonado por Luísa, uma jovem que seduziu.

A premissa do conto é bastante interessante, mas achei que ele incorporou um tom muito professoral. Entendo que a ideia de “Amadurecendo” é justamente falar de questões importantes como machismo, homofobia e até mesmo o pouco caso que muitas pessoas têm com suas relações amorosas. Inclusive, acho que esse é um tema importante que deve sim fazer parte das narrativas de fantasia, mas essa voz que excessivamente se justificativa e arrepende não soou natural.

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A edição da Buriti é impecável. A letra tem o tamanho ideal e o papel amarelo torna a leitura bastante confortável. Além disso, a capa é bem feita e trabalhada. É um exemplar bonito que fica bem na estante.

Só senti falta de uma mini-bio sobre os autores nas páginas finais. Achei essa uma falta grave. Fiquei com vontade de saber mais desses escritores e, a meu ver, um livro deve dar ao menos uma indicação de onde procurar os autores participantes (blogs oficiais e contatos nas redes sociais). Isso era algo fácil de fazer, nada mais que um parágrafo sobre cada autor seria mais que suficiente.

Recomendo Mundos para quem quer se aventurar em universos fantásticos criados por autores brasileiros. Uma boa porta de entrada para conhecer bons autores.

Você pode adquirir seu exemplar por apenas R$22,90 no site da editora. Clique aqui.

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

2 Responses to “Mundos”

  1. Ai, Mel, que máximo essa sua resenha! 🙂 Ficou incrível, super detalhada, mostrando cada conto! Adorei! *_*
    E obrigada pelo que disse do meu, fiquei muito feliz, e pode deixar que quero sim revisitar Austengard! Ele anda me perseguindo ultimamente!

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    • Melissa de Sá

      Que bom que gostou! Eu quis comentar cada conto. Ah, eu vou ficar esperando essa visita a Austengard. 🙂 * olhos brilhando *

      Responder

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