Como ler um conto?

Pode parecer óbvio o que vou dizer: ler um romance longo não é o mesmo que ler um conto. Mas mesmo assim vejo muitas resenhas em blogs internet afora que parecem ignorar esse fato. A proposta de um romance e de um conto são diferentes e devemos levar isso em conta na hora de resenhar. E de ler!

Muita gente diz não gostar de ler contos ou mesmo apresentam uma certa resistência a eles. Eu mesma só peguei o hábito de ler esse gênero na faculdade. Sempre fui acostumada a ler aqueles livrões de 300, 400 páginas e de repente ler uma história contada em 4 páginas foi um susto. Não vou discutir aqui no blog a teoria do conto (existem várias!), mas vou discutir de que maneira ler um conto é diferente de ler um livro longo. Acreditem, isso evita quebras de expectativa.

O que é um conto?

Vamos começar com a pergunta mais óbvia, mas que é a mais difícil de responder. Um conto é uma história curta. Discussões teóricas à parte, normalmente consideramos conto histórias que vão de 1 a 50 páginas (estou aproximando bastante). Contos normalmente focam em poucos personagens e cenários e desenvolvem sua trama em torno deles.

Edgar Allan Poe (sim, o escritor de terror mais famoso do mundo que não é o Stephen King) tinha uma tinha uma teoria muito interessante a respeito do conto: contos têm que causar um efeito. Ou seja, a leitura de um conto tem que ser intensa (idealmente podendo ser feita em uma única sentada) e causar, ao final, um efeito no leitor.

Esse efeito pode ser de horror, de nojo, de amor (o famoso “aaawwwwwwwwn!”), de empatia, etc. Isso é algo diferente do que acontece num romance. Por ser mais longo, ter mais personagens e cenários (no geral, claro que temos exceções), romances têm vários efeitos e não apenas um.

Um monte de termos e uma confusão danada

Mas o que é um romance? Romance não é uma história de amor? Não! Isso vem de uma confusão de termos e traduções. Vamos com calma:

Conto é uma história curta. Em inglês, o termo é short story. “O Gato Preto” é um conto de Edgar Allan Poe.

Romance é uma história longa, normalmente dividida em capítulos. Em inglês, o termo é novel. A Guerra dos Tronos é um romance de G.R.R. Martin.

Um romance pode ter uma história de amor ou não. Em inglês, um romance com uma história de amor é uma love story novel. Crepúsculo, de Stephanie Meyer é um romance com história de amor.

Um livro Romântico, em termos acadêmicos, não é um livro com uma história de amor. E sim um livro com características do movimento literário Romantismo. Que, pasmem, não tem muito a ver com histórias de amorzinho.

A palavra romance, em inglês, quer dizer uma narrativa com um quê mais épico.

Alguns críticos/autores usam a palavra novela para falar de um conto um pouquinho maior. Algo entre um conto e um romance. Em inglês, o termo é novella. Stephen King escreve novelas. As histórias presentes na antologia Space Opera Vol.1 podem ser consideradas novelas, por exemplo.

Não confundir com soap opera, que é a palavra em inglês para novela televisiva.

É, dá um nozinho na cabeça mesmo.

Onde encontro um conto pra ler?

Diferentemente de um romance, contos não são publicados sozinhos em formato de papel. Por motivos óbvios (tudo parece tão óbvio nesse post #sóquenão). Imaginem uma editora gastar dinheiro com editoração de uma obra de 10 páginas. Não faz sentido. Não vale o custo/benefício.

Por esse motivo contos são normalmente publicados em revistas ou antologias. Antologias são coleções de contos que podem ser de um mesmo autor ou não. Por exemplo, a antologia Horror em Gotas apresenta apenas contos da Karen Alvares. Já Excalibur tem contos de vários autores. As revistas normalmente apresentam uma proposta e contos de variados autores. Um exemplo brasileiro é a Trasgo.

Com a chegada do e-book, muitos contos estão sendo lançados individualmente. Então é possível comprar um e-book com apenas um conto em formato digital. “Hannah”, conto no universo de Delirium, só existe como e-book, por exemplo.

E-books com contos individuais são uma ótima forma para se conhecer novos autores uma vez que os preços são muito acessíveis (variando de R$0.99 a R$5,99).

Contos são histórias curtas

Parece redundante dizer isso, mas um conto apresenta uma história reduzida. Pense em conto como uma fotografia e no romance como um filme. Na fotografia você tem aquela impressão rápida, impactante, reduzida a um pequeno momento. Você vê aquela situação da foto e só pode imaginar o que aconteceu antes ou depois. Talvez a foto te dê algumas dicas do que veio antes, mas você não tem como acessar muito bem. Você só pode se envolver naquele momento.

Num conto, é a mesma coisa. Você conhece os personagens naquela hora. Diferente de um romance, você não os acompanha ao longo de um período de tempo. Sua relação com eles é ali e agora. Pensar nisso ajuda a não se sentir tão frustrado. Vejo muitos resenhistas/leitores reclamando que o conto não explicava o que tinha acontecido antes, que não dava tempo de se envolver com os personagens, etc. Não dá pra analisar um conto do mesmo modo que analisamos uma história longa. A estrutura é totalmente diferente!

Um conto é como uma espiada rápida. Como abrir a porta de repente e depois fechar. Isso não significa que um conto é inferior a um romance (grandes escritores preferiram se dedicar aos contos. Ex: Edgar Allan Poe, Jorge Luís Borges, Júlio Cortázar, etc), só que ele tem uma lógica diferente. O tal do efeito que eu comentei.

Contos diferentes, efeitos diferentes.

Então, dá próxima vez que você for ler um conto, pense nisso. Faça uma visita rápida a um mundo diferente e aproveite bastante.

Já fiz várias resenhas de contos aqui no blog. Para acessar e procurar um que você se interesse, clique aqui.


 

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

15 Responses to “Como ler um conto?”

  1. Ótimo artigo, Melissa!

    Particularmente, adoro contos! Tanto para ler quanto para escrever. A graça é justamente a rapidez, e com isso, menos compromisso. Você é apresentado a um universo, uma ideia, um conceito de maneira muito rápida, é como ser jogado dentro de uma outra situação sem tempo para respirar.

    A graça do conto é que, como existe menos comprometimento, dá chance ao autor de explorar muito mais, seja em técnica narrativa, seja em personagens, conceitos. (Escrevi um conto uma vez só pra ver se eu conseguia fazer o leitor se identificar com um pequeno robô salamandra que não diz uma única palavra no conto inteiro. XD )

    Existe uma outra definição, que não leva em conta o tamanho, mas sim o conflito: o conto apresentaria um único conflito central ou proposta, sem explorar muito além. Essa é uma definição estranha, e dá muito pano para discussão.

    Em tamanho, existe uma classificação, americana, se não me engano:
    Miniconto – Até 1000 palavras
    Conto – Até 7500 palavras
    Noveleta – De 7.500 a 17.500
    Novela – De 17.500 a 40.000 palavras
    Romance – Mais de 40.000 palavras

    Acho que contos são ótimos para autores explorarem novas ideias, mundos, personagens, ou desenvolver técnica. Sempre estranho novos autores escrevendo como primeira obra um épico de cinco livros. 😛

    Abs!
    Rodrigovk

    Responder
    • Melissa de Sá

      Obrigada, Rodrigo.

      Sim, contos são ótimas portas de entrada para mundos. E realmente, é sem compromisso. A gente não precisa ler 458 páginas pra ver se gostou da ambientação. É algo rápido e pronto. E concordo com você: é mais fácil pra um autor experimentar num conto do que num romance justamente por isso. Inclusive, acho que os leitores aceitam coisas mais experimentais em contos mais facilmente que em romances.

      Eu já vi essa definição do conflito e acho que ela é válida em linhas gerais. Claro que podemos citar aqui 983493843 romances que têm apenas um conflito também, mas é um bom começo pensar em contos dessa forma. Pelo menos inicialmente.

      Essa classificação pelo tamanho é a usada pelas editoras? Também é um ótimo guia.

      Engraçado que eu sempre me vi como uma autora de romances. Mas quando comecei a escrever contos, percebi o quanto minha escrita estava melhorando. Realmente, escrever contos nos ajuda a amadurecer como escritores. Hoje acho estranho também quem começa com romances imensos em séries igualmente imensas.

      Responder
  2. Mel, que post brilhante! Concordo com tudo! Ler um conto é muito diferente de ler um romance. Você esclareceu muita coisa com isso. É realmente como abrir uma porta e espiar uma cena, adorei a comparação!
    Vejo também por aí muita gente equivocada, até mesmo em resenhas, lendo e analisando um conto como se fosse uma história longa… gente, não é assim!
    E tenho que respirar fundo quando alguém diz que romance é uma história de amor… blé.

    Responder
    • Melissa de Sá

      Pois é. Eu fico sempre chateada quando vejo alguém resenhando um conto e dizendo que “faltou desenvolvimento” ou que “as coisas aconteceram do nada” tendo em vista a análise de romances. Claro, existem contos ruins, mas muitos são mal compreendidos nos blogs literários.

      Essa confusão de termos com a palavra romance é um samba.

      Responder
  3. Ótimo texto! Bastante esclarecedor. O bom do conto para mim é poder conhecer autores e gêneros diferentes sem precisar de tanto tempo. Como exemplos de autores que conheci recentemente: Poe, Arthur Conan Doyle, Asimov.

    Responder
    • Melissa de Sá

      Exatamente, Cássio. Contos são ótimas portas de entrada. E muitos escritores escreveram contos. É muita coisa que dá pra ler em pouco tempo.

      Responder
    • Melissa de Sá

      Sensacional essa citação! Tinha lido há muitos anos e me esquecido dela. Obrigada por me lembrar, Marcelo.

      Responder
  4. Antigamente também não tinha o costume de ler contos, mas estou aos poucos mudando isso. Há tantos deles disponíveis para baixar na Amazon, muitas vezes de graça, o que aumentou muito as possibilidades e o meu interesse.
    Para mim sempre foi mais difícil escrever contos que romances; estes dão maior liberdade e mais espaço para explorar os personagens e o mundo, enquanto nos contos eu sempre sentia que precisava transformar uma ideia em um livro para que ficasse legal. Mas pensar por esse ângulo, que um conto deve causar um efeito, provavelmente vai me ajudar a melhorar minhas técnicas.
    Um conto que causa um efeito e é bastante interessante é “Com a Manhã Chega a Neblina”, de George R. R. Martin. Ele explorou os personagens e todo um novo mundo de maneira bastante concisa e conseguiu passar a ideia que queria.
    Existem também os microcontos, como aqueles que contam uma história de terror em duas frases, que ilustram muito bem essa ideia de efeito.

    Responder
    • Melissa de Sá

      Laís, contos são um ótimo jeito de exercitarmos nosso estilo. Eu também apanhei um bocado para aprender a escrever contos, mas hoje eles me dão cada vez mais leitores! Isso é muito bom.

      Essa ideia do efeito é crucial para nos ajudar a planejar.

      Vou ler esse conto do Martin que você indicou. 🙂 Ah, vc tem contos seus já publicados?

      Responder

Leave a Reply

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>