O que é fantasia histórica? – Um bate-papo com Eduardo Kasse

Fantasia histórica é um gênero que vem ganhando cada vez mais fãs. Mas, afinal, o que é fantasia histórica? O que diferencia a fantasia histórica da fantasia medieval que lemos sempre? Para responder a essas perguntas, convidei o autor Eduardo Kasse, já veterano no gênero, para um bate-papo sobre o assunto.

Rei Arthur e as Rainhas Chorosas, de Dante Gabriel Rossetti.

Venha conhecer a fantasia histórica!

Eduardo Kasse publica a série Tempos de Sangue (Editora Draco) bem como contos ambientados no gênero. Escreve ainda textos com dicas e reflexões para escritores em seu blog. Nessa conversa aqui no Livros de Fantasia, ele vai definir fantasia histórica, apontar livros de destaque do estilo, comentar sobre a escrita e leitura desse tipo de fantasia e ainda falar de sua série.

  1. Eduardo, vamos começar pelo básico. O que é fantasia histórica? Qual a principal diferença entre a fantasia histórica e a fantasia de inspiração medieval ao qual estamos acostumados?

A fantasia histórica é aquela que usa épocas, fatos, cenários e pessoas reais como base para o desenvolvimento de um texto. A narrativa pode estar dentro da Idade Média – como vemos com frequência – quanto em outras épocas, como as Grandes Guerras, Renascimento, Império Romano etc.

Quando trabalhamos com fantasia histórica é muito importante respeitar as caracterizações, as datas e as pessoas que de fato existiram. As nossas interferências criativas precisam ser bem fundamentadas de tal maneira que não “mudem” o contexto histórico, senão passaremos a ter um texto de história alternativa.

Já na fantasia com inspiração medieval, por exemplo, podemos ter mais liberdade, pois não trabalhamos com os fatos e com o real. A criação fica no campo das caracterizações, ambientes e estilo de vida. Não temos que ter a precisão história como no caso anterior, devemos apenas tomar cuidado com os anacronismos, mas mesmo assim sem muitas neuras.

  1. Você pode nos dizer quando surgiu a fantasia histórica? Existe algum livro que seja um marco especial do gênero?

A fantasia histórica surgiu nas conversas em volta da fogueira! – quero deixar claro que essa é a minha opinião, não um fato baseado em algum estudo sobre o tema. Certamente as pessoas da tribo deviam se reunir para contar e descrever o seu dia (fatos), mas sempre aumentando com alguma coisa “a mais” (fantasia).

Exemplo: Hoje eu cacei um filhote de bisão (fato). A mãe dele me encarou com ódio e o seu mugido parecia vociferar o meu nome (elemento fantástico).

 Exemplo 2: Estávamos pescando quando veio a tempestade. O barco quase virou com as ondas (fato). Rezamos para Thor e prometemos a ele um sacrifício. Os raios cessaram, a chuva cessou e o mar ficou calmo. Ele aceitou a nossa oferenda (elemento fantástico).

 Exemplo 3: A arma estava apontada para o meu rosto (fato). Ele apertou o gatilho três vezes e ela falhou (fato). Foi por causa da oração que fiz para Santa Gertrudes! (elemento fantástico) – ah e antes que algum radical resolva ficar “mimimizento” essa frase, trata-se apenas de uma alusão, não de duvidar da fé de alguém, ok?

 Exemplo 4: Ouvi um barulho no milharal (fato). Fui ver o que se passava e quando liguei a lanterna o bicho correu. Acho que era um ET, pelo tamanho da cabeçorra (elemento fantástico).

Em todos os casos não podemos dizer que o elemento fantástico é mentira, mas sim uma interpretação da realidade por aquelas pessoas, segundo suas vivências e crenças.

 Os bardos também foram muito representativos, pois cantavam os feitos (alguns bem exagerados) de quem lhes pagasse umas boas moedas! E por muitos séculos a fantasia era intrinsecamente ligada à transmissão oral das histórias.

 Depois vieram os primeiros relatos por escrito, e mesmo aqueles considerados históricos, dependem muito da visão de quem os reproduziu. Assim como os livros de muitas religiões. Temos sempre que tomar cuidado ao definir algo como fato ou fantasia, mesmo nos dias de hoje.

Sobre a segunda parte da pergunta, considero um marco na fantasia histórica a Ilíada, livro atribuído a Homero. Heróis, reis e deuses (e uma linda mulher, claro!) fazem parte da história da Guerra de Troia (se aconteceu ou não ainda não entraram em um consenso).

Mais recentemente no século XIV tivemos a Divina Comédia, de Dante Alighieri, que exemplificou as agruras do Inferno usando pessoas reais em cada círculo.

  1. Como você conheceu a fantasia histórica? O que nesse gênero te cativou?
Mappa dell’Inferno by Botticelli.

Acho que os primeiros contatos que tive foram através dos filmes como as várias releituras do mito arturiano, ou nas criações ufanistas do “herói” americano nas guerras.

Filmes como “Coração Valente”, “Gladiador”, “Nascido para matar” e “Excalibur” têm várias imprecisões, contudo sempre me fascinei por eles. Até hoje, rsrs.

 

  1. Você tem algum livro de fantasia histórica favorito? Qual?

Sim, claro! Gosto demais do livro Portões de Fogo do Stephen Pressfield. E também das obras do fantástico Bernard Cornwell, principalmente as “Crônicas Saxônicas” e a trilogia “A Busca do Graal”.

  1. Vamos passar agora a questões de escrita. Como é escrever fantasia histórica? Quais são as coisas que você tem que se preocupar que não aparecem durante a escrita de uma fantasia tradicional?

Em primeiro lugar é preciso se preocupar com a veracidade histórica, analisar as pessoas, os fatos, as motivações e os ambientes para só depois trabalhar os nossos personagens e ideias.

Contudo, uma dificuldade que encontramos é que a História não é 100% confiável. Principalmente quando tratamos de períodos mais antigos. Há discordância entre autores, há muitas suposições e mesmo várias peças faltando no quebra-cabeça. Mas se por um lado isso prejudica, por outro nos abre “brechas” para inserirmos o elemento fantástico! Tudo é questão de bom-senso e de seguir uma linha de raciocínio bem definida.

 

  1. Quando você decidiu que queria escrever fantasia histórica?

Sendo consumidor desse gênero foi muito natural a escolha dele para os meus textos. Como eu sempre digo: precisamos gostar daquilo que fazemos, não somente fazer porque está na moda ou porque os leitores gostam. Em primeiro lugar sempre a nossa identidade e convicção.

  1.  Agora uma pergunta importante, que não sai da minha cabeça: escrever fantasia história sempre demora muito? (risos)

Depende. Eu até me considero bem rápido! Rsrsrs. Veja: hoje a minha carreira se divide entre a literatura e a produção de conteúdo para clientes e, mesmo assim, ainda consigo manter o ritmo de escrever um livro por ano, mais alguns contos. Se eu fosse escritor full time, certamente teria um volume maior de produções.

Cada escritor trabalha de um jeito. Eu sempre prefiro fazer assim:

  • Escolho o tema do livro;
  • Vou pesquisar os cenários, pessoas, fatos, datas etc. Faço um overview de tudo;
  • Começo o livro;
  • Durante a redação me aprofundo naquilo que estou precisando para escrever as cenas, assim tudo fica fresco na mente.

Depois disso, claro, tem as leituras-betas, os refinos junto aos editores, sempre buscando a melhor qualidade histórica possível.

  1. Esse é um gênero que envolve muita pesquisa e muitas vezes é fácil cair nas descrições mais longas. Você acha que esse é mesmo um perigo da fantasia histórica? Como dosar descrição histórica com enredo imaginativo?

Sim, esse é um risco bem real. Mas uma boa dica é lembrar: não estamos escrevendo livros de História!

Lógico que precisamos da veracidade, de contar um pouco sobre os fatos e o background do que aconteceu na época, mas tudo deve ser mais sucinto. Eu fui melhorando isso ao longo dos meus livros, buscando informar sem exagerar.

História e enredo imaginativo devem se equilibrar, um enriquecer o outro. Por isso a ponderação é essencial. Ler, reler, testar… Ver se o que está relatado acrescenta ou apenas faz volume. Ou se é preciso trabalhar melhor uma informação para que o leitor se ambiente com os fatos.

E tudo isso só vem com a prática e com o trabalho diário.

  1. Como você vê o cenário brasileiro hoje para esse gênero? Você acha que os leitores estão mais abertos para esse tipo de literatura que mistura realidade e ficção?

Eu sou muito otimista com o cenário atual. Veja: hoje os leitores têm mais opções para consumir, seja nas livrarias físicas, online ou mesmo na internet (blogs, redes sociais, projetos independentes). E, assim sendo, abre-se mais espaço para as boas histórias. Mesmo autores não tão conhecidos estão tendo a oportunidade de divulgar seus trabalhos e ter boa repercussão.

Temos os autores blockbusters, os já consagrados, aqueles com apoio da grande mídia, mas também vemos outros sem tanto poder financeiro conquistarem seu espaço por meio da qualidade do seu trabalho.

A mentalidade das pessoas está mudando, o mercado também, assim o “empurrar goela abaixo” já não funciona tão bem. As pessoas tomaram gosto pelo poder de escolha, pela liberdade de decidir o que desejam ou não consumir. Ainda temos algumas barreiras meio difíceis de serem quebradas como conquistar bons espaços nas livrarias, mas isso faz parte do business, então cada editora, cada autor deve buscar alternativas para destacar seus projetos. Dá trabalho, mas vale muito a pena.

  1. Sua série de fantasia histórica, Tempos de Sangue, está chegando ao terceiro volume. Como foi o processo de escrita de algo tão longo? Quais fatos históricos você utilizou?

Ah, foi um desafio! Mas também tem sido uma experiência muito gratificante, pois é o que eu gosto de fazer. E para entrar na literatura, principalmente quem deseja ser profissional, precisa gostar muito da “coisa”, pois é um trabalho longo e os resultados nem sempre são imediatos.

Para manter tudo nos eixos eu tenho a rotina de escrever todos os dias, sejam três linhas ou um capítulo inteiro. Faço isso para manter a mente sempre focada na série. Também estudo e pesquiso muito. Quem me conhece sabe que sempre solto posts nas redes sociais com frases do tipo: 20 páginas lidas, dois parágrafos escritos. Um ótimo resultado! Pode parecer ironia, mas não é! Quem trabalha com fantasia história sabe como é esse mundo, rs.

Sobre os fatos históricos, sempre fui muito fiel às ambientações: Inglaterra, Irlanda e França no O Andarilho das Sombras, Itália no Deuses Esquecidose Inglaterra e Itália no Guerras Eternas. Também trabalhei com pessoas reais, como arcebispos, reis, earls e até mesmo papas. O Harold Stonecross, protagonista do Andarilho, até “visitou” uma imperatriz! Não vou contar mais para evitar os spoilers. Até mesmo algumas mortes foram causadas pelos meus personagens. Óbvio que os monges escribas omitiram esses fatos e reescreveram a História ahahahahaha!

No meu conto Sobre Guerras e Deuses até usei a rainha Buddug (ou Boudicca, como é mais conhecida) como personagem principal. Pobres romanos…

  • Em Tempos de Sangue você trabalha especificamente com vampiros. Você acha que é fácil conjugar a aura de mistério desses seres com fatos obscuros da nossa história?

Vampiros? Eu não! Brincadeira… São vampiros sim, mas você não vai encontrar essa palavra em nenhum dos meus livros. Por quê? Porque esse termo só foi criado séculos depois (em relação ao tempo dos meus livros) e só se tornou popular no século XIX.

Assim, por purismo, resolvi omiti-lo, mesmo correndo alguns riscos comerciais (que, ainda bem, não se fundamentaram).

 Então você poderá ler sobre bebedores de sangue, demônios, imortais, crias de Satã…

Agora sobre inseri-los na História seria muito fácil se eu recorresse aos clichês que vemos em muitos livros, ou mesmo na visão padronizada dos vampiros.

Isso eu nunca quis. Eu preferi contextualizar, contar a história deles como humanos, a trajetória até eles se tornarem imortais. E cada um se transformou de um jeito! Mas a raiz de tudo está nos d…. (opa, quase sai um master spoiler!).

E ficou mais “difícil” ainda quando resolvi ser o mais fiel possível ao nosso mundo, ao que aconteceu e às crenças da época.

  • Conte um pouco mais sobre o terceiro volume da série. O que podemos esperar de Guerras Eternas?

O Guerras Eternas traz de volta Harold Stonecross e suas companheiras imortais. Depois dos acontecimentos do O Andarilho das Sombras eles se estabeleceram em um pequeno castelo em ruínas próximo à imponente Catedral de Canterbury. Viveram em paz por alguns anos, saciando a sede de sangue todas as noites, mas sempre com cautela para evitar problemas com a Igreja e os senhores da região. Contudo, esse frágil “equilíbrio” é quebrado quando outro imortal surge e mata sem qualquer preocupação e o pior: começa a matar no seio da Catedral.

Então, Stephen Langton (que de fato existiu), arcebispo de Canterbury, precisa agir, pois está sendo pressionado pela população e pelos membros do clero: se o nosso líder não pode nos proteger, qual é a serventia dele?

E assim prosseguem as guerras eternas (bem versus mal???) que envolve a Igreja, os poderosos da região e até mesmo tropas do rei John (sim, o Sem-Terra).

Então, quem gosta de boas batalhas, muitas doses de erotismo e tiradas sarcásticas e irônicas, vai curtir bastante a obra!

Ah, e não posso me esquecer de temas como amizade, amor e medo/solidão que também fazem uma boa cola para essa mistura.

  • Deixe um recado para os amantes da fantasia histórica e leitores da série Tempos de Sangue.

Em primeiro lugar, muito obrigado pelo convite Melissa! Gostei bastante de participar desse papo. Para meus parceiros leitores, também deixo o meu sincero agradecimento por todo o apoio, as críticas e os elogios. Essa interação, essas visões únicas são importantes para o meu crescimento como escritor e para a evolução da Série. Todos os retornos sempre serão bem-vindos!

E para quem ainda não conhece a série fica o convite: quer ler sobre um medievalismo puro, cru e sem travas, permeado pelo fantástico e pelo sobrenatural? A Série Tempos de Sangue vai lhe surpreender!

  • Obrigada, Eduardo. Parabéns pelo seu trabalho sério como autor. No que pudermos, nós aqui do Livros de Fantasia sempre estaremos apoiando!

Vamos juntos nessa jornada! Até mais!

Eduardo Kasse – www.eduardokasse.com.br@edkasse

Facebook: https://www.facebook.com/eduardokasse

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Tempos de Sangue – www.temposdesangue.com.br

Facebook: https://www.facebook.com/temposdesangue

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

6 Responses to “O que é fantasia histórica? – Um bate-papo com Eduardo Kasse”

  1. Que baita entrevista, Melissa! Muito legal esse bate-papo com o Eduardo, bem esclarecedor. Passando também pra reafirmar que Bernard Cornwell é um mestre em batalhas e todos que pensam em ler/escrever fantasia histórica precisam dar uma olhada em seus livros.

    Grande abraço!

    Responder
    • Melissa de Sá

      Que bom que você gostou, Vagner. O Eduardo foi ótimo mesmo e ajudou bastante a entender a lógica do gênero. Com certeza, Bernard Cornwell é ótimo!

      Responder

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