Revista Trasgo #2

Uma das minhas metas na Maratona Brasuca foi ler a Trasgo #2, revista de fantasia e ficção científica editada pelo Rodrigo Van Kampen. Nem preciso falar o quanto acho essa iniciativa incrível. A Trasgo é uma revista digital séria, que traz nomes velhos e novos da ficção brasileira. As primeiras quatro edições estão disponíveis em vários formatos e podem ser baixadas de graça!

Título: Revista Trasgo #2

Editor: Rodrigo Van Kampen

Autores: Ana Lúcia Merege, Victor Oliveira de Faria, Jim Anotsu, George Amaral, Albarus Andreos, Cristina Lasaitis.

Ilustrador: Alex Leão

Editora: Independente

Mas o que eu achei desse segundo volume? Continue lendo que vou comentar conto por conto.

A revista abre com “Rosas”, da Ana Lúcia Merege, que sinceramente foi meu favorito de toda a edição. Brilhantemente escrito, esse conto é daqueles que te dá um choque horrível e depois te deixa pensando por um tempo. A história é bastante simples: um casal no interior, uma vida tranquila. O professor volta para encontrar sua mulher no final de semana como sempre fez. Comer bolo de amêndoas, descansar, o de sempre. Mas na descrição da rotina, o leitor consegue perceber que há alguma coisa errada, terrivelmente errada. O quê? Bem, só lendo para saber. Um ótimo exemplo daqueles contos que dão um efeito intenso no final.

“Cinco Bilhões”, de Victor Oliveira de Faria, explora um mote bastante comum na ficção científica: o fim do nosso sol, daqui a alguns bilhões de anos. Do ponto de vista criativo, achei a história interessante: pensar num futuro em que um novo tipo de humanos vivem, graças à engenharia genética promovida por robôs, é bem legal. No entanto, achei que o autor não conseguiu condensar suas ideias num conto e tudo ficou corrido demais. Ficou uma história sem efeito. Os personagens não foram marcantes e tive a impressão de que tudo estava me sendo contado e não mostrado, como se fosse um resumo da história.

O terceiro conto é “Hamlet: Weird Pop”, de Jim Anotsu. Vocês lembram que na resenha de Annabel e Sarah eu disse que o excesso de referências a filmes e livros poderiam ser uma questão de imaturidade do autor? Infelizmente eu estava errada: esse é o estilo do autor mesmo e está aos montes nesse conto. A história é centrada em Viola, uma diretora de teatro que está montando uma versão mais moderna do clássico de William Shakespeare. É então que Pluck (sim, o ser mágico Pluck do próprio Shakespeare) aparece para processar Viola, uma vez que Shakespeare não quer ver sua obra transformada. Okay. Acho legal esse questionamento sobre até que ponto um autor tem controle sobre sua obra (uma vez no mundo, qualquer um pode fazer o que quiser com ela), mas achei que “Hamlet: Weird Pop” não chegou a lugar nenhum. Não foi um conto de comédia, não foi de drama, não foi nada. Foi só uma desculpa para discutir literariamente um assunto bastante querido na academia (a tal “morte do autor”) e apesar de eu ter rido bastante da ideia de Hamlet cantando “Welcome to My Life”, achei tudo sem propósito. Acho válido discutir questões literárias em livros, mas elas têm que fazer sentido como um todo.

“Código Fonte”, de George Amaral, também sofreu um pouco na questão de “muita história para pouco espaço”. Achei que o autor não dosou bem as cenas: muita explicação na forma de diálogos excessivamente expositivos, pouca ação e um final corrido. Okay, sei que tem gente que gosta de histórias assim, mas eu não consigo. Eu preciso acreditar que aquilo é real e um personagem me contando isso não me faz necessariamente acreditar! A trama gira em torno de outro mote bastante usado na ficção científica: e se pudéssemos viver para sempre? Temos um cientista inescrupuloso e um final com uma reviravolta, mas não me satisfez.

Com “A Maldição das Borboletas Negras”, de Albarus Andreos, entramos num clima bem diferente. Esse conto bebe diretamente das histórias de cordel, dos causos do nordeste e do norte de Minas e nos apresenta aquele folclore bem brasileiro. O estilo é mais difícil, imaginativo, bem próximo mesmo dos textos com essa abordagem como Grande Sertão: Veredas. Ou seja, é um texto difícil, daqueles que brincam com as palavras e frases. Mas eu adorei! De verdade. Me envolvi bastante com a história de Jubelina, uma espécie de demônio matador que vai tentar fazer seu nome aterrorizando uma pequena cidade.

“O Homem Atômico”, de Cristina Lasaitis, é um ótimo fechamento para a revista. A história é muito simples: um mendigo em São Paulo diz ter sido físico nuclear durante a ditadura militar e ter feito alguns experimentos. Verdade ou mentira? Só lendo o conto para saber. A escrita de Cristina Lasaitis é extremamente envolvente e o “O Homem Atômico” é uma leitura rápida e deliciosa. O final é surpreendente. Não é a toa que, inclusive, foi traduzido para o espanhol.

As ilustrações de Alex Leão são ótimas. Não entendo muito de ilustrações, mas para meus olhos leigos, elas tiveram tudo a ver com o clima da revista e foram super bem feitas! As entrevistas no final também são muito boas: um olhar bem legal por trás de quem escreveu os contos e fez as ilustrações.

E aí? Bem, achei que a revista teve seus pontos altos e baixos. Se eu recomendo? Sim. A edição da Trasgo #2 pode ser baixada gratuitamente aqui ou acessada através do site trasgo.com.br. Três dos seis contos são ótimos. Além do mais, é uma ótima maneira de conhecer novos escritores.

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Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

2 Responses to “Revista Trasgo #2”

  1. Oi Melissa!

    Obrigado pelo review da segunda edição!
    Eu sei que é complicado gostar de todos os contos de uma revista, ainda mais quando a proposta é variar. Espero que eu tenha conseguido melhorar a qualidade na 3 e 4, espero que leia. 🙂

    Que bom que gostou de pelo menos metade dela. Já é um bom número!
    Abraço!

    Responder
    • Melissa de Sá

      Rodrigo,

      Eu gosto demais da proposta da Trasgo. Inclusive já estou lendo a terceira edição. Eu sou uma leitora muito exigente e chata. hahahahahahaha Mas gostei demais de três contos da revista. Inclusive, comecei a seguir os autores.

      abraço!

      Responder

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