O Último Homem [The Last Man]

Tive um primeiro contato com The Last Man, de Mary Shelley (sim, a mesma de Frankenstein!) durante meu mestrado, quando estudei teoria da distopia. O livro é certamente um marco no gênero, mas apesar de ser interessante historicamente, é uma decepção literária. Entenda o porquê nesse post.

Título: O Último Homem

Título original: The Last Man

Autor: Mary Wollstonecraft Shelley

Ano de publicação: 1826

País de origem: Inglaterra

Editora: várias – minha edição é do e-book gratuito da Amazon

Lionel Verney, é, desde o começo do livro, o último homem vivo em todo o planeta. Em primeira pessoa, ele conta o que o levou a chegar nessa posição: uma praga terrível que devastou toda a população humana.

O livro é apocalíptico e se passa no século 21. É interessante ver como Mary Shelley, em 1826, imaginou como seria nosso tempo. Ela faz poucas referências a avanços tecnológicos (as pessoas ainda viagem de navio e carruagens), mas temos uma Inglaterra republicana.

O livro é dividido em quatro partes: Introdução, Volume 1, Volume 2 e Volume 3. Na introdução, temos o relato da descoberta, em 1818, de escritos proféticos feitos pela Sibila numa caverna perto de Nápoles, editados na forma de um manuscrito que relata, em primeira pessoa, a vida de Lionel Verney, o último sobrevivente humano da terra.

É importante dizer que essa ideia de “último homem” estava muito em voga na época de Shelley. Ela não foi a primeira a escrever sobre isso (na verdade, Grainville já tinha escrito uma prosa poética com esse mesmo nome em 1805, na França) e certamente não foi a última. Nem preciso comentar do machismo no título (como se a espécie humana fosse representada por homens apenas), mas como eu disse, estamos no século 19 aqui. O problema de O Último Homem é que ele é chato. Muito chato. Nesse caso, os críticos da época estavam certos (e normalmente eles não estão).

Lionel Verney é insuportável. Sério. Criado pobre, se torna um homem educado e fino sob a influência de Adrian (filho do ex-rei da Inglaterra) que paga um dívida que seu pai tinha com o pai de Lionel. Os dois são amigos, mas Lionel idolatra Adrian de uma forma absurda e enjoativa. Apesar de não existir mais família real, fica claro no livro que Adrian é alguém fora do normal, meio que nascido para ser rei. Urgh!

Lionel tem uma irmã, Perdita. Outra chata. Ela se casa com Raymond, um opositor político de Adrian (mas que obviamente se torna amigo do mesmo porque todo mundo ama Adrian por motivo nenhum) e fica mais chata ainda. Os traços que ela tinha de independência mínima são apagados pelo casamento e o fim da personagem é RIDÍCULO!!! Ridículoooooo!

Adrian tem uma irmã, Idris. Ela, não com alguma supresa, se casa com Lionel. Também é outra chata sem personalidade e irritante. Ideal da mulher perfeita, cansou. Queria atirar o livro na parede toda vez que ela aparecia chorando por seus filhinhos igualmente perfeitos.

As primeiras duas partes do livro servem apenas para falar da dinâmica desses persongens. Quem casou com quem, quem queria o quê, quem fez o quê, uma chatice. Sério. Poderia ter sido muito mais resumido. A primeira parte fala da vida doméstica desses casais e o perfeito Adrian e a segunda parte, de uma guerra na Grécia que não funciona para nada a não ser para glorificar Adrian e matar Raymond (pronto, dei spoiler!).

Só na terceira parte temos a praga matando os humanos efetivamente. E mesmo assim tudo acontece naquele tom de resumo de novela. O livro quase não tem diálogos e não apresenta nenhum insight brilhante como Frankenstein. Pelo contrário, a leitura é extremamente maçante. Sinceramente, eu li porque estava fazendo o mestrado. E foi sofrido.

Tudo que eu queria era jogar o livro na parede, dar uns tapas no Lionel e mandar todos aqueles personagens chatos crescerem.

O que fiquei mais chateada foi a que a história poderia ser legal. Inclusive, ela poderia ser adaptada para uma série de TV. Se eu fosse roteirista, colocava Lionel e Adrian como casal, fazia de Raymond um vilão traidor até o fim e fazia a Idris ter um caso extra-conjugal! Tudo isso num cenário steampunk, algumas pessoas morrendo de praga na rua gritando, uma seita louca pregando o fim do mundo. Aí sim.

Se eu recomendo? NÃO! Não faça isso com sua vida. Só saiba que existe, que é um marco histório e pronto. Existem formas mais eficientes de se matar de tédio.

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

4 Responses to “O Último Homem [The Last Man]”

  1. Netto Baggins

    Já tinha ouvido falar desse livro (recentemente. Antes eu não fazia ideia que a Mary Shelley havia escrito outro livro com temática fantástica), e até me interessei em ler, mas depois da sua resenha, desanimei total. Mas a sua ideia para uma série é boa, porque você não escreve alguma coisa baseada nisso?

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    • Melissa de Sá

      Netto, detesto desanimar pessoas a lerem livros, mas nesse caso, realmente não vale a pena. É péssimo. Gostou da minha ideia? Quem sabe eu não faço? Até porque o livro de Shelley já é domínio público… huuuuum. * pensativa *

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  2. @Heitordealmeida

    Por um momento achei que era algo nos moldes de “Y – The Last Man” huahauahua
    Mas de seitas pregando o fim do mundo eu me lembrei do livro “Ao cair da noite” do Asimov

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    • Melissa de Sá

      Heitor, de ceta forma esses livros todos tiveram origem em “The Last Man”. Digamos que foi o pontapé inicial para esse tipo de literatura que o Asimov viria a fazer… só que é ruim. rs

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