Especial A Torre Negra: O Pistoleiro #1

“Longos dias e belas noites, sai.”

A Torre Negra é uma das séries mais queridas para mim, Karen, para o Felipe, e também para a Melissa, do Livros de Fantasia, parceiríssimo do Por Essas Páginas. Já há muito tempo eu tinha vontade de fazer um especial dessa série épica aqui no blog, mas fui deixando para depois, dando desculpas para mim mesma. Mas quando virou 2015, percebi que essa era uma meta que eu não poderia mais deixar para depois. Conversei com a Melissa (é claro que tinha que ser ela, essa menina pertence ao meu ka-tet há anos!) e, mesmo em meio à correria da vida (é, o ka é uma roda, amigos!), resolvemos começar essa aventura de resenhar os 8 livros da série (afinal, agora temos O Vento Pela Fechadura também) e ainda as HQs. E, como não poderia deixar de ser, vamos iniciar essa jornada pelo primeiro volume da série: O Pistoleiro.

Obs.: os comentários da Karen estarão em preto, enquanto os da Melissa em marrom. Já os do Felipe estão em vermelho.

Título: A Torre Negra Vol. 1- O Pistoleiro
Título original: The Dark Tower – The Gunslinger
Autor: Stephen King
Ano de publicação: 2004 (primeira publicação em 1982)
País de origem: Estados Unidos
Tradução: Mário Molina
Editora: Objetiva – 224 páginas

É importante dizer, antes de tudo, que a nossa leitura é um RECOMEÇO, como dito na abertura de O Pistoleiro, ou, melhor dizendo, uma releitura. Como geralmente acontece com os livros que nos são caros, A Torre Negra é uma série especial, com muita história e bagagem emocional, que vai além das suas mais de mil páginas impressas. No meu caso, já era fã do Stephen King antes de iniciar a série, quando me interessei, saindo da adolescência, na época da faculdade. Adquiri o primeiro livro, ironicamente, com quase a mesma idade que King o escreveu – aos 19 anos. Ainda era a primeira edição da Objetiva, em 2007. Agora a série é editada em um dos seus selos, a Suma de Letras. O livro foi um presente para meu namorado, à época, que já se tornou marido (sim, o Felipe!), e nós dois iniciamos a jornada do ka juntos. É daqueles livros com folhas amareladas pelo tempo, anotações e dedicatórias, e muito sentimento.

Já eu comecei a ler o livro mais ou menos nessa época também. Já gostava de Stephen King e um dia vi esse livro dando sopa na livraria. Por algum motivo, achei que deveria ler e essa se tornou uma das minhas séries favoritas. Não sei explicar por que, mas alguma coisa me cativou. Também tenho uma memória afetiva com ele: meu pai pegava os exemplares emprestados na biblioteca do Banco do Brasil pra mim.

O grande motivo para decidirmos, eu e a Melissa, reler a série foi, além do especial, o fato de que esta é uma série fantástica, umas das melhores que já lemos, e como acontece com esse tipo de livro, ela merece ser relida. Mas também, à vista do lançamento de O Vento pela Fechadura em 2013, resolvemos que era o momento para reler e, então, ler essa história pela primeira vez na ordem correta (entre Mago e Vidro #4 e Lobos de Calla #5). Porque não lemos até hoje por motivos de não lemos até hoje. rs

Mas, apesar de todo esse sentimentalismo, preciso confessar: O Pistoleiro é o livro que menos gosto em toda a série. E não sou a única fã da Torre que sente dessa maneira; ele tem a fama de não ser um livro tão bom quanto os demais, e há quem diga que se deve insistir nessa leitura, mas gostar da série, de verdade… só mesmo em A Escolha dos Três. De fato, até o próprio King diz isso, em seu prefácio para essa edição:

“Com muita frequência eu me ouvia me desculpando por ele, dizendo que, se as pessoas perseverassem, veriam a história encontrar sua verdadeira voz em A Escolha dos Três.” Página 20

É, King. Eu concordo com você.

Todo mundo concorda. Putz, esse livro é tenso. Mas tem algo de bom nele, claro, se não, não teríamos continuado. É tipo a semente de uma história inesquecível. Enterrada fundo, mas existe.

Vejam bem, na minha opinião, O Pistoleiro não é um livro de todo ruim. Ele tem seu encanto, afinal, é ele quem dá os primeiros passos de uma série fantástica e, apesar de todos os seus problemas, ele aguça a curiosidade do leitor o suficiente para que siga adiante em uma série longa (lembrem-se: apesar da má-impressão inicial, eu ainda adquiri e li os outros seis livros posteriores na época). O livro possui frases e passagens memoráveis, isso é verdade, mas também é recheado de descrições arrastadas e uma linguagem excessivamente e desnecessariamente rebuscada. Além disso, O Pistoleiro é repleto de marcas da imaturidade de King como escritor (ele escreveu o livro aos 19 anos, lembrem-se disso): a pretensão da juventude, falta de ganchos, passagens mornas e sem real importância para a trama… Se tinha uma coisa que me irritava (e me irritou novamente nessa releitura) foi a capacidade do King de terminar partes do livro com “e Roland dormiu…”. Sério? Que emocionante! #sqn

Uma coisa que me incomoda é o fato de que o King se esforça demais para fazer com que Roland pareça esse pistoleiro sem alma a todo custo. Tudo bem, entendo que o personagem é um cara bronco e sem emoção, mas tem horas que isso é exagerado. Já é suficiente a cena final com Jake, não precisava de todo aquele exagero na cidade.

Por outro lado, o jovem King já demonstra, nesse livro, algumas marcas de estilo que lhe destacariam entre outros escritores: o magistral desenvolvimento de seus personagens, mesmo os de (ainda) pouco relevância e uma assustadora capacidade de “ver adiante”. Em uma releitura mais atenta é possível perceber as pistas ousadas, quase debochadas, que o autor deixa pelo caminho, em claras referências ao final impactante e nunca imaginado que a série alcançaria mais tarde. Aliás, bem mais tarde, afinal a série demorou pouco mais de 30 anos para ser finalizada.

Isso é verdade. Confesso que fiquei surpresa ao pegar informações aqui e ali que só apareceriam três volumes depois.

“- Vá então. Há outros mundos além deste.” Página 200

Não é necessário se estender muito na trama desse livro, há o suficiente na sinopse; o que é importante dizer, no entanto, é que Roland, o protagonista da saga, é o último pistoleiro de um mundo pós-apocalíptico que “seguiu adiante”, como dizem. A obsessão de sua vida é alcançar a Torre Negra que, acredita, guarda a salvação para seu mundo destruído e é o centro de todos os Universos, segundo o homem de preto. Este, aliás, é o personagem que Roland persegue por quase todas as páginas de O Pistoleiro; um homem misterioso e sombrio, que atende por vários nomes e que já apareceu em vários livros do King… (mas discutir as diversas referências da Torre nos livros do King é assunto para outro post). O que importa é que, para alcançar a Torre, Roland não medirá esforços e ultrapassará todos os obstáculos e pessoas que se colocarem em seu caminho: até mesmo seus melhores amigos. Por aí vocês já percebem que não, nosso protagonista não é nenhum mocinho admirável. Pelo contrário, Roland é um ser humano muito ruim; algumas escolhas que ele fez, bem, eu simplesmente jamais consegui perdoá-las. Eu não diria ruim, mas obstinado e determinado a alcançar seus objetivos até as últimas consequências. Vale lembrar que o Roland perdeu tudo o que tinha – seus amigos, família, o próprio mundo como ele conhecia. Acredito que isso é o suficiente pra deixar um cara bem frio. Mas ele perdeu seus amigos e sua família por escolhas que ele mesmo fez. Ele escolheu conscientemente abandoná-los várias vezes. Tô no time que acha Roland um ser humano muito ruim. Mas mesmo assim, queremos saber onde a história dele vai terminar.

Além do embate entre esses dois personagens, o livro também mostra um dos relacionamentos mais importantes de toda a série: o de Roland e do menino Jake, que foi muito importante aqui, mas ainda terá um maior impacto mais adiante na série. Pessoalmente, detesto o Jake, com todas as minhas forças, porque ele é um menino deslumbrado demais para entender que Roland, afinal, é um cara pra lá de escroto. Mas não posso entrar em mais detalhes por motivos de spoilers; na resenha de Terras Devastadas retorno nesse assunto espinhoso. Ah, eu gosto bastante da relação do Jake com o Roland. Não odeio Jake, apesar de achar ele meio cego e ingênuo.

“Que armadilha, afinal, poderia se equiparar à do afeto?” Página 107

Apesar dos ganchos péssimos e do ritmo lento, O Pistoleiro termina muitíssimo bem e acaba, por fim, instigando o leitor a continuar a jornada. Sim, o final é ótimo! Uma das coisas que não entendo é como essa série, tão excepcional, não é tão popular (será que esbarremos em mais fãs da Torre após esse especial? Espero que sim!) quanto várias outras, com menos qualidade. A Torre Negra mistura fantasia, terror e faroeste, tudo na mesma obra, com, é claro, o toque especial do talento do mestre King. E, arriscando levar pedradas, é uma série tão criativa (ou mais) e violenta quanto As Crônicas de Gelo e Fogo, por exemplo, que é muito mais badalada. Original, fantástica e complexa, A Torre Negra é uma série que merece conquistar mais e mais fãs, sempre. Mas, em relação a O Pistoleiro… simplesmente persistam. Persistam. Vai valer a pena.

Até o próximo post do Especial A Torre Negra, quando retornaremos com a resenha do volume 2, A Escolha dos Três!

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

2 Responses to “Especial A Torre Negra: O Pistoleiro #1”

  1. Eu adorei essa serie de King… que muitos comparam com o Senhor dos Anéis.
    O livro que mais gostei foi o mago e vidro, achei muito mais interessante a historia de Roland com seus amigos na juventude, o romance, a bruxa.. mt bom.. mas todos os livros foram bons.. td bem que não gostei muito do final..

    Mas acho que a serie em si, nunca fez tanto sucesso pois nunca saiu do papel, como citado as cronicas de gelo e fogo.. O livro faz sucesso, mas faz um filme ou seriado em cima dele, que ele vai vender muito mais… Bem, agora vamos ver se a Sony vai mesmo fazer os filmes e um seriado dos livros… Imagina Roland nos cinemas *-*!!

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    • Thiago, sim, adaptações para a TV ou cinema ajudam a impulsionar a série mesmo. Mas em relação a essa, é mais estranho, pois os livros do Stephen King, mesmo sem adaptações, fazem muito sucesso. Mesmo entre leitores de King, A Torre Negra ainda é uma obra pouco lida.

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