Morte de Tinta

E a trilogia Mundo de Tinta chega ao fim com Morte de Tinta, que, para mim, foi o melhor volume da série.

Título em português: Morte de Tinta
Título Original: Tintentod
Autor: Cornelia Funke
Ano de publicação: 2010
País de Origem: Alemanha
Tradução: Sonali Bertuol
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 576

Nesse livro, as consequências do ato de se contar uma história serão graves. Mo e Meggie finalmente entenderão o preço que as palavras cobram. Esperem reviravoltas, lágrimas e, claro, personagens que saltam das páginas.

Essa resenha pode conter alguns spoilers de Coração de Tinta e Sangue de Tinta.

Em Coração de Tinta conhecemos Meggie e Mo. Pai e filha têm um dom muito especial: eles podem fazer com que as palavras ganhem vida ao ler em voz alta. Mo não lê em voz alta desde um terrível acidente anos atrás e vive obcecado à procura do livro Coração de Tinta. Meggie não entende por que até que Dedo Empoeirado, um saltimbanco com o poder de domar o fogo, aparece uma noite na porta da casa deles. E nada nunca mais será como antes.

Sangue de Tinta traz uma Meggie adolescente com problemas de se adaptar ao mundo. Pela primeira vez ela entra com confronto com Mo e quer experimentar o mundo por conta própria. Mas o mundo que Meggie quer é justamente o mundo do livro Coração de Tinta, o mesmo livro que trouxe tanta dor à sua família. E é para lá que ela vai usando seu poder de ler em voz alta e se ler para dentro da trama. As consequências desse ato são terríveis e Meggie começa a se perguntar até que ponto o poder das palavras afeta a vida das pessoas.

Morte de Tinta é arrasador e poético. O livro começa exatamente onde seu predecessor parou: com o destino do Mundo de Tinta sendo ameaçado por Cabeça de Víbora, um homem cruel que se tornou imortal com a ajuda de um livro em que a própria morte fora encadernada. O problema é que Cabeça de Víbora está apodrecendo em vida e colocou a cabeça do encadernador em questão a prêmio. Quem é esse encadernador que enganou Cabeça de Víbra? Hum. A vida de Mo corre perigo, assim como a de Meggie.

Mas Mo tem ainda um outro problema. Por força das palavras de Fenoglio, o autor de Coração de Tinta,  ele acaba tendo sua personalidade misturada com a de um bandido revolucionário: o Gaio. Ao criar seus poemas de herói, Fenoglio imaginava um homem como Mo. De repente o pacífico encadernador de livros se torna um homem solitário e desejoso de combate. Meggie fica arrasada com o acontecido, assim como sua mãe, e culpa Fenoglio pelo ato irresponsável que teve. Como as palavras impensadas de Fenoglio puderam ter tanto efeito em Mo?

Assim segue Morte de Tinta com seus livros que tornam as pessoas imortais, com seus personagens reescritos, com suas narrativas que tentam consertar o mundo, mas apenas estragam. Será que estamos vivendo dentro de uma história também? Meggie e sua família vão parar no Mundo de Tinta, mas quem garante que aquele mundo é inventado? Não seria ele talvez o mundo real e o nosso mundo inventado?

Confesso que nunca tinha lido um livro que falasse tanto de livros e do poder que eles têm. Não apenas a parte boa, o poder da imaginação, o poder das palavras que consolam e inspiram. Não, Morte de Tinta fala também das palavras que manipulam, que criam mentiras, que ferem, que matam. Os autores afinal não têm controle pelas histórias que criam. Cabe aos leitores fazerem algo novo delas. E isso Morte de Tinta faz muito bem.

Maravilhosamente escrito, esse é um livro que deve ser lido por todo amante de livros. Não só ele, claro, mas toda a trilogia Mundo de Tinta é feita para nós que amamos tanto a palavra escrita. Somos sonhadores como Meggie? Controladores como Fenoglio? Colecionadores como Elinor, zelosos como Mo? Ou será que somos todos eles quando pegamos aquele exemplar querido na nossa estante e desejamos com todo coração adentrar naquelas páginas? Que parte de nós muda quando chegamos à última página?

Uma coisa é certa: a cada livro lido, nossa vida muda.

Ah, e a edição da Companhia das Letras, com ilustrações da própria Cornelia Funke, é um detalhe sensacional à parte.

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

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