Por que brasileiros não gostam de literatura de fantasia?

Na semana passada a escritora Ruth Rocha causou furor literário ao dizer que Harry Potter não era literatura e sim uma modinha que “vai passar” (leia a declaração na íntegra aqui). Desde então colunas e posts de tons mais variados têm aparecido na internet para refutar, defender ou polemizar a escritora de literatura infantil. Mas eu acho que essa questão vem mais ao fundo: por que, afinal, brasileiro não gosta de literatura de fantasia?

Fantasia é só um mundo diferente que na verdade fala dos problemas do nosso próprio mundo.

Vamos entender isso.

Eu me lembro de um professor na faculdade que dizia que literatura é o que os poderosos dizem que é literatura. Ou seja, o que a academia, os autores consagrados, a crítica dita “séria” nos diz que é literatura.

No Brasil, esses meios nunca dizem que literatura de fantasia é literatura.

Existe uma fobia de fantasia entre nós. Dizer que você gosta de literatura de fantasia no Brasil é entrar num gueto literário. É ter que se justificar o tempo todo dizendo “mas os livros são bons” ou “eu leio outras coisas também”! É ter gente não te levando a sério.

Na faculdade descobri isso cedo e fui estudar literaturas de língua inglesa. Porque aí sim eu podia ler ficção científica, ficção especulativa, fantasia e tudo mais sem receber aqueles olhares repreendedores. Escrevi uma dissertação sobre distopia. Ninguém torcia o nariz pra isso no departamento de língua inglesa, mas torciam na teoria da literatura ou na literatura comparada. E pior: torciam sem nem saber o que eu estava estudando!

A literatura no Brasil sempre teve uma forte influência francesa, isso desde o romantismo. Temos uma forte tradição de narrativas realistas e isso se intensificou com a ditadura militar: valorizamos o relato, o testemunho, o sobrevivente. Temos um nordeste que passa fome, temos pobreza, miséria. Nossa literatura se ocupa com coisas sérias. Não temos tempo para criaturas com asas ou bruxos em vassouras.

Esse parece ser um consenso geral (estou generalizando aqui, ok? Não estou dizendo que todos são assim e conheço exceções) e é defendido por escritores como a célebre Ruth Rocha. Sim, a literatura serve para problematizar nossa realidade, para denunciar, para mostrar. O problema é que a fantasia também faz isso.

Engana-se quem pensa que fantasia é algo totalmente fora da realidade. Nós humanos só conseguimos falar sobre o humano.

Vamos falar de Harry Potter, que foi novamente trazido à baila. Temos bruxos, feitiços, varinhas, mas tudo isso é usado para discutir preconceito, bullying, corrupção administrativa, morte. Qualquer um que tenha lido a série sabe disso. O problema é que tem gente que nem se presta a ler a série porque é “de fantasia”.

Não é estranho nos países de língua inglesa ler literatura de fantasia. Adultos lêem fantasia. Existe fantasia para todas as idades. Fantasia é normal. É um gênero literário. Pronto. Tem lá seus apedrejadores? Tem, mas não como nessas praias brasileiras, em que “fantasia” se tornou termo pejorativo até no senso comum.

As editoras inventaram até um nome novo para fantasia aqui. Falamos de literatura “fantástica”. Eu sempre detestei isso. Fantástico não é fantasia. É fantasia. Fantástico é um termo para falar de fantasia sem falar que é fantasia e assim as pessoas vão comprar.

O problema é que no fundo, nós gostamos desses mundos fantasiosos. E mais uma vez as editoras nos vêem com outros termos pra dizer que não é fantasia: romance sobrenatural, narrativa fantástica, etc. Até Game of Thrones é vendido por aqui como “uma série muito realista, que até tem dragões, mas não é fantasia não, viu? É muito sério e realista, tem sexo e violência”.

Desculpem, crianças. Game of Thrones é fantasia sim. Sempre foi e sempre será. Existem vários livros de fantasia com sexo e violência. Existe todo tipo de livro de fantasia.

E isso não é um problema.

Mas no Brasil fantasia é sempre algo associado ao infantil, ao não sério, ao fantasioso que não serve pra nada.

No entanto, estamos mudando esse pensamento. Vivemos numa leva de autores de fantasia brasileiros que têm cada vez mais despertado o interesse dos leitores brasucas. Prova de que a modinha a que se refere Ruth Rocha está longe de passar. Na verdade, o que esses leitores estão descobrindo por aqui é que nunca foi uma modinha. Fantasia é um gênero literário.

Avisem às editoras e à academia, por favor.

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Se você quiser encontrar boa fantasia nacional, clique nesse link aqui. São dezenas de resenhas de ótimos autores brasileiros. É fantasia para todos os gostos.

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

63 Responses to “Por que brasileiros não gostam de literatura de fantasia?”

  1. Nossa, perfeito!

    E é só trocar alguns termos para ficção científica que o preconceito é o mesmo. Falou que gosta de ler essas coisas, já olham a gente de cima a baixo como se tivéssemos alguma doença contagiosa. Ou então somos rotulados de infantis.

    Harry Potter, Crônicas de Gelo e Fogo, 1984, Jogos Vorazes, são livros com uma carga de crítica social e muita reflexão, mas que muita gente torce o nariz sem nem ao menos ler. Nem pra ler eles se dispõem, mas para descer a lenha, aí sim, eles têm opinião.

    Muito interessante a reflexão sobre a influência francesa, não sabia disso. Sempre me peguei pensando porque temos essa insistência em ler só o fato real, as biografias, as análises… Há muito espaço para a crítica dentro da ficção.

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    • Sybylla,

      Lembrei de você enquanto escrevia o post justamente por isso: na FC é mesma coisa aqui no Brasil.

      E sim, temos essa grande influência francesa na literatura. E claro, dentro da FC ou da fantasia podemos fazer críticas sociais profundas. Inclusive, radicalizar muita coisa. Se você pode criar um mundo novo, pode radicalizar a crítica. Por exemplo, X-Men é uma crítica pesadíssima a genocídio e preconceito racial.

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      • Fala isso pra mim?

        Nerd, gamer de carteirinha, tenho que ouvir de professores e colegas jornalistas que games não é algo para o jornalismo esportivo.

        E lá nos EUA seu passaporte é assinado na hora se você for confirmado como cyber atleta ou especialista do genero!

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  2. Que post ótimo, Melissa! Vou compartilhar adoidado. Bom, não tenho muito o que acrescentar. Na faculdade eu percebi pesadamente esse preconceito, daí a exceção veio com a disciplina de literatura inglesa. Sabe o que é triste? Eu preferi mil vezes as matérias que lidavam com literatura inglesa às que com literatura brasileira exatamente por conta disso: parecia que havia uma liberdade maior, discutia-se todos os gêneros, enquanto que nas disciplinas de literatura brasileira eu sentia uma certa estagnação, um “ranço”, por assim se dizer. Nada a ver com as obras em si, mas sim com a perspectiva que nos era dada.

    Desde os tempos de escola eu tive professores dizendo que não gostavam de fantasia, que preferiam “histórias do mundo real”. E isso persiste. É engraçado como meus alunos ficam encantados quando conto que li Harry Potter, O Senhor dos Anéis, O Hobbit e até mesmo mangás como Naruto, Cavaleiros do Zodíaco e Samurai X. Na concepção deles, mesmo eu sendo relativamente nova, “professor não lê essas coisas”. Por quê? Exatamente por conta da visão que se tem de fantasia (e FC também) ser algo infantil, para crianças, adolescentes e pré-adolescentes aqui no Brasil. Daí quando eu conto que leio, que gosto e falo bem, eles ficam encantados.

    E faço coro: fantasia nunca foi uma modinha. As pessoas sempre gostaram de fantasia, cáspita!

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    • Liége, eu me sentia exatamente assim, quando em minha aulas de Geografia eu contava para os alunos que gosto de quadrinhos, Senhor dos Anéis séries de Ficção Científica etc. Eles ficavam encantados ao descobrir que alguém adulto tinha gostos tão parecidos. Sempre que possível eu procurava refletir com eles sobre a questão. E, ao menos uma vez, consegui uma ótima reflexão em uma turma de 9º ano sobre essa suposta necessidade que a sociedade moderna parece ter adquirido aos gadgets eletrônicos, usando Matrix, Exterminador do Futuro e X-Men Dias de Um Futuro Esquecido (o quadrinho, pois o filme ainda não tinha sido lançado), com resultados maravilhosos. Em outra ocasião uma turma deu um show numa feira literária expondo sobre os livros e filmes da série Harry Potter.
      E reforço seu coro, nem Harry Potter e nem fantasia são modinhas!

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      • Que maravilha o seu trabalho com os alunos, Humberto! Dizem tanto para nos aproximarmos da realidade dos alunos quando vamos trabalhar os conteúdos, não é? Pois é, até agora não encontrei uma melhor forma de dialogar com eles e despertar o interesse do que falar sobre aquilo que eles também amam!

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  3. Oi, Mel.
    Achei o seu texto fantástico, com o perdão do trocadilho! rs..
    Fiquei muito decepcionada ao ler a declaração da Ruth Rocha, assim como fico quando vejo qualquer autor falando mal de outras obras… O preconceito é ainda mais assustador quando vem de pessoas do meio literário!!!
    A fantasia é um gênero incrível e se as pessoas não conseguem enxergar o tanto de “vida real” que há nas histórias, então não estão lendo com atenção!! Rs…
    Beijos
    Camis

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  4. Eu descobri tarde demais na faculdade de Letras que a parte da língua inglesa não sofria muito com esse preconceito em relação a ficção especulativa. Agora, já era, rs. Tô nos últimos periodos de português-literaturas, e ainda não sei o que fazer de monografia. Mas vou bater o pé para que me deixem pegar um Farenheit 451 ou alguma outra obra de ficção especulativa que eu ame.

    Sabe, às vezes eu também me sinto obrigado a andar com um clássico e um livro de fantasia ou FC na mochila, para me justificar, como você falou: “mas os livros são bons” ou “eu leio outras coisas também”.

    Como também sou escritor de literatura fantástica (sinceramente, aqui eu não vejo muito diferença entre usar esse termo ou o de fantasia, sendo que acho este último me parece mais de nicho e aquele mais geral), quero fazer uma boa literatura (ou uma “boa arte”, como diz nosso querido Neil Gaiman) que contribua para que o gênero seja levado a sério como qualquer outra expressão artística.

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    • Por que você não faz de Exorcismos, amores e uma dose de blues do Eric Novelo? Tem de tudo no livro, inclusive inúmeras referências ao nosso próprio folclore. Mas na prática é uma desconstrução de Lewis Carol.

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      • Luiz Teodosio

        Falam muito bem deste livro, mas ainda não tive a oportunidade de ler. De fato, se for uma literatura brasileira, facilita a aceitação do trabalho, mas ainda não li nenhum livro do tipo que eu tenha achado bom o bastante para estudá-lo. Obrigado pela dica. 🙂

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        • Sou muito exigente para livros de fantasia, esse livro é excelente, o melhor que li este ano, adulto, complexo, linguagem rica e estilo. Vale muito a pena lê-lo.

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    • Oi, Luiz!

      Concordo com você e passei pela mesma experiência. Eu me formei em Português-Espanhol, o que me levou a perceber que esse ranço existe, sim, na literatura brasileira mas não apenas.

      Há, em espanhol, muita literatura fantástica, principalmente no período do Boom Latinoamericano. Autores como Gabriel García Marquez e Jorge Luis Borges usam e muita fantasia em seus textos. Sabia que os argentinos compartilham nossa “aversão” pelo fantástico, rs. O mundo inteiro discorda, mas eles não curtem muito as obras de Borges. Vai entender.

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  5. Excelente texto!
    Eu mesma confesso que mudei de opinião a tempo de enxergar o quão sem sentido é este preconceito. Fantasia é um gênero e não deve ser tido como ‘não literatura’. Tanto mudei de opinião que estou lendo pela primeira vez Harry Potter e estou adorando. É bem como diz o texto. Mesmo na fantasia, são abordadas questões do ser humano. Não importa que o contexto seja imaginário. Isto não vai deixar as questões levantadas menos importantes. Talvez somente para quem não ler fantasia e continuar com este preconceito.

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  6. Do alto dos meus quase 40 anos como leitora voraz de ficção científica, fantasia ou quaisquer outros nomes que queiram inventar, declaro que as coisas melhoraram muito. O preconceito continua, claro. Mas, temos publicações que nos últimos 10 anos superam em muito o que foi publicado no Brasil durante o século XX. Eu só conseguia ler, em português, as edições da Europa América – me acostumei tanto que tive dificuldades com a versão brasileira de O Senhor dos Anéis. Atualmente leio tudo em inglês mesmo, já que as editoras são lentas demais. E tenho um bom número de sobrinhos e sobrinhas que são também leitores de fantasia e ficção, pois já cresceram com uma tentadora oferta de títulos. Então, desmerecer Harry Potter é até compreensível, se a autora em questão (que não precisaria deste tipo de coisa) estiver enxergando seu futuro universos de leitores ameaçado. Aliás, o que ela escreve senão fantasia?

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  7. Marcelo Eduardo

    Acho importante um foco maior para o gênero que está (ainda) muito pequeno. Vejo muitas dessas histórias como fábulas modernas ou até mesmo mitos modernos, que podem ensinar diversas lições mascaradas por uma história que (e fico muito feliz por isso) atrai cada vez mais uma massa cada vez mais jovem para os livros. Seja ele crônicas e textos do Veríssimo ou um mundo de política e dragões do Martin.

    Joseph Campbell uma vez disse: “Mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana”. Heróis, magos e princesas alimentam a necessidade de combater um “mal” que nos limita e oprime, seja ele uma bruxa, um dragão ou as contas a pagar. Em termos sociais, a vitória do Herói é a nossa vitória e uma válvula de escape para os problemas coletivos que afetam a todos de maneira semelhante.

    Meus parabéns pelo texto!

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  8. warley torres

    Eu passo por isso quando vou pegar um livro de fantasia emprestado na biblioteca. Parabéns, seu tópico ficou bem esclarecido e quem me olhar torto de agora em diante, darei esta explicação rs

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  9. Expressou perfeitamente as respostas que eu procurava. Eu estava questionando há tempos o por quê da literatura brasileira não apresentar tanto o gênero fantasia. Ótimo texto!

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  10. Gostei do seu texto, o primeiro que leio nesse blog. Embora exista esse preconceito por parte dos acadêmicos, felizmente está acontecendo um movimento no mercado que tem criado visibilidade para muitas obras de fantasia e FC, e inclusive para os autores brasileiros, embora nesse caso ainda seja algo muito pequeno. O que eu vejo muito, e não só em cursos relacionados as letras, é que a academia é um clubinho fechado, me parece as vezes que existe até muito preconceito com obras de fora do país, especialmente para com trabalhos de autores norte-americanos, é como se apenas uma determinada visão do mundo fosse a única correta. Já, inclusive, professores classificando fantasia e FC como “alienantes”. Enfim, estou me aventurando a escrever, e não ligo mesmo a mínima para esse preconceito, não entendo como muitas pessoas importantes no meio literário nacional não conseguem enxergar que fantasia e FC são excelentes vetores para passar pensamentos críticos, para fazer os jovens pensarem, justamente por serem muito mais atrativos para muito leitores do que as obras clássicas.

    E mais uma vez, parabéns pelo texto. Seguindo o blog.

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  11. O “engraçado” é ver dentro da academia (em qualquer área, não só na Letras/Literatura) o pré-conceito (e o preconceito) que existe quando alguém te vê lendo qualquer coisa que não seja “da academia”. Quando é literatura “de entretenimento”, pior ainda quando envolve fantasia, quando a capa, por exemplo, já indica algum elemento assim…
    É triste, vejo/vivo isso todos os dias! E tem gente que gosta mas tem “medo” de mostrar porque sabe que vai ser julgado, o que espanta muitos leitores em potencial :/

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  12. Gostei muito do texto, pura verdade – embora as coisas estejam lentamente mudando, e acho que nós que gostamos de fantasia e ficção científica e outros gêneros um pouco desprezados devemos levar isso pra academia, sim, apesar dos narizes torcidos que pudermos encontrar pelo caminho.
    Minha amiga Bárbara escreveu um post sobre esses preconceitos, entre outros, no nosso blog – deixo o link, caso você se interesse: http://blogsemserifa.com/com-opiniao-sobre-harry-potter-batman-e-leitores-cretinos/. 🙂

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  13. WTF é isso?
    Brasil é um dos paises aonde literatura de fantasia mais vendo no mundo, é de longe o gênero mais vendido.
    Só em faculdade de letras que tem essa imbecilidade.
    Alias pior coisa pra se tornar escritor é fazer letras que empurra ditadura de estilo e ignora todos os movimentos literários dos últimos 100 anos.
    É mais catequizante do que seminário.
    Quanto a Ruth Rocha, ela me fez questionar se alguém precisa ser escritor de verdade pra ser vendido pelo MEC.

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  14. Em um país que mal se lê, querem ser arrogantes de definir o que é ou não literatura? Fantasia é literatura, HQ é literatura.

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  15. Celia Moreno Garcia

    Engraçado como isso se reflete no cinema também, Tropa de Elite, Cidade de Deus e por ai vai. Isso acaba deixando com a impressão que não somos capazes ou não sabemos criar nada. Nas novelas, tudo gira em torno da realidade e depois não se sabe porque tem muitos estrangeiros pensando que no Brasil s[o tem violência, favelas, carnaval e mulher gostosa.
    Há obras maravilhosas com base histórica como as mini séries, Casa das Sete mulheres, Memorial de maria moura e outros, mas não são devidamente explorados pela midia, passando em horários em que poucas pessoas tem acesso.
    Saudades do Monteiro Lobato que criava fantasias que embalaram a infância de tantas gerações.

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  16. Achei estranho Ruth Rocha, que escreve sobre fantasmas convivendo entre nós, criticar o gênero. Até porque o que não se escreve que não tenha um que de fantasia. Como Brás Cubas contou a própria morte? O que seria de Guimarães Rosa sem seu olhar fantasioso sobre as palavras?
    De certa forma, talvez, e só talvez, pois os “editores arcanos” são os mais arcaicos, esta argumentação de Ruth Rocha tenha jogado merda no ventilador e um pouco dela respingue nos catedráticos da língua, acompanhada da avalanche de comentários de reprovação da opinião pública.

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  17. Oi Melissa

    Ótimo apontamento e reflexão. Mas só queria dar um toque que literatura fantástica é o gênero que engloba fantasia e ficção científica – por algum motivo se classifica isso assim aqui no Brasil. Na Europa e nos EUA eles costumam falar de Fantasia e Ficção Científica (fantasy & scifi), mas aqui a gente joga tudo no mesmo saco e chama de Fanstástico – outros países de língua latina também fazem isso, e geralmente também se coloca a literatura de Jorge Luis Borges e afins dentro desse saco também.
    Nâo acho ofensivo, acho BEM melhor do que a classificação gringa – my two cents. Nâo porque a formalidade mudou para melhor, mas porque a gente abre espaço para as melhores perguntas sobre o gênero. 😉

    No mais, curti muito o que você falou diretamente do que a Ruth falou. Gente, eu realmente fico bem triste que as pessoas não consigam apreciar a literatura de fantasia aqui, acho que isso faria um bem enorme para a preservação da nossa mitologia.

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    • Vanessa, pois é, justamente esse “termo sombrinha” de fantástico pra englobar FC e fantasia é coisa de editora brasileira. Até porque fantástico na literatura é normalmente usado para falar de realismo mágico, como o de Gabriel Garcia Márquez. Eu não entendo porque é legal falar que algo é “literatura fantástica” e não “literatura de fantasia”. Inclusive, FC é o oposto do fantástico!

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  18. Fábio Fernandes

    Texto interessante, Melissa, parabéns. Só um comentário. Quando você diz “As editoras inventaram até um nome novo para fantasia aqui. Falamos de literatura “fantástica”,” sinto muito, mas não procede. O termo foi criado décadas atrás (salvo engano, por Antonio Cândido), para definir a literatura escrita por autores como José J. Veiga e Murilo Rubião, que não se encaixava exatamente no chamado “realismo mágico” de Garcia Márquez.

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    • Fábio, o termo fantástico foi estudado por Todorov e afins. E é justamente usado para falar o que você disse: para discutir realismo mágico, textos ficcionais que se apropriam do elemento fantástico ou insólito em suas narrativas. Mas as editoras brasileiras se apropriaram do fantástico para falar de qualquer texto de fantasia e FC, o que não confere como termo na teoria da literatura. É uma bizarrice sem motivo. Ao fazer isso, eles colocam Borges e Córtazar na mesma prateleira que Neil Gaiman? Não que um seja melhor que o outro, mas são propostas completamente diferentes de literatura!

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  19. Felipe Santos

    Excelente! Muito bom mesmo.

    Como acréscimo, recomendo fortemente, para quem ainda não leu, o ensaio “Sobre Histórias de Fadas” de J.R.R. Tolkien, presente no livro Árvore e Folha. Ele elucida de maneira brilhante todos esses e outros problemas. Vale MUITO a pena.

    Por exemplo, sobre a questão da fantasia ser tratada como algo infantil e de menor importância:

    “Na verdade, a associação entre crianças e histórias de fadas é um acidente de nossa história doméstica. No mundo letrado moderno as histórias de fadas foram relegadas ao “berçário”, assim como a mobília velha ou fora de moda é relegada à sala de recreação, principalmente porque os adultos não as querem mais e não se importam se a usarem de forma inadequada. Não é a escolha das crianças que define isso. As crianças como classe – classe que não são, exceto pela falta de experiência que lhes é comum – não gostam mais das histórias de fadas nem as compreendem melhor do que os adultos, e não as apreciam mais do que muitas outras coisas. São jovens e estão em crescimento, e normalmente têm apetites aguçados, de forma que em geral as histórias de fadas são bastante bem digeridas. Mas na verdade só algumas crianças, e alguns adultos, têm um gosto especial por elas. E, quando o têm, ele não é exclusivo, nem mesmo necessariamente dominante.”

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  20. Yuri Souza

    O texto é um retrato da realidade. De fato, como escritor de fantasia sei bem o que é nunca pensarem no que você faz como “sério”, é sempre a mesma ladainha. Escrevo coisas mais pesada como a fantasia de Game Of Thrones, o que não significa que não é fantasia. Mas para os leigos no assunto que aceitam ler grandes obras, mas recusam a ler outras pelo gênero… Isso é impossível de debater, são pessoas que perdem uma grande lição, como citado no exemplo de Harry Potter, (a maioria dos livros de fantasia são completos com críticas a sociedade e maquiados com coisas que não existe, mas no fundo a crítica está lá) só porque tem medo de imaginar!
    Lamentável.

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  21. Mariana Diaz

    Adorei o texto, simplesmente perfeito!
    Concordo com vc e assino embaixo de tudo q esta ai, com direto a um gritinho de “wingardium leviosa” no final. hehe

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  22. Façam como eu: um dia, um colega de trabalho me viu com um exemplar de Crônicas de Nárnia e me perguntou sobre o quê (gênero) era o livro, que prontamente respondi com um sonoro “contos de fadas”. Deviam ver a cara dele! E olha que isso nem está errado, de acordo com os autores Lewis e Tolkien.

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  23. Olha, eu tiro meu chapéu para tudo que foi dito. Nos últimos meses minha professora de Estudos Literários tem debatido muito isso. Sou criticada e algumas pessoas me olham torto por preferir a literatura de ficção. Cresci lendo Harry Potter e a prova de que a “modinha” está longe de acabar é que Relíquias da Morte foi lançado no Brasil em 2007, lá se vão 08 anos. A modinha está durando demais, não?

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  24. Uau! Que texto! Eu como escritora recentemente publicada e de fantasia aplaudo de pé cada palavra tua. O que percebo em meio aos escritores e críticos brasileiros é exatamente isso e acho uma hipocrisia só! Ainda dizem que não se pode ser um profissional respeitado se em sua bagagem vem Harry Potter ou Crônicas de Nárnia e como vc disse, criticam até sem conhecer. São muito cultos para isso e produzem livros que aterrorizam os jovens até hoje.
    Excelente texto viu, parabéns. Voltarei mais vezes aqui. Beijos!

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  25. Como nossa classe universitária no geral é intelectualmente deficiente, eles só conseguem perceber temas quando os mesmos são óbvios. A Fantasia trabalha com alegorias, sendo muita sutileza pra o leitor brasileiro.
    Tem também o fato de a fantasia trabalhar temas “burgueses” demais para nossos “intelectuais” dedicados e interessados mais em transformação social do que em estudar seriamente as coisas. Um abs

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  26. Olha acabei de ler José J. Veiga, que a autora do belo artigo deve conhecer, li três livros dele, os elementos de ‘fantasia’ sobejam em sua obra, e até onde eu sei, ele é considerado um ótimo literato pela academia, não teria algumas exceções na nossa literatura, Melissa ?

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  27. Achei muito verdadeiro seu texto! Sou aficcionada por livros de fantasia, em especial com um tom mais medieval. Morei na Inglaterra ano passado e tive a oportunidade de conhecer vários dos meus autores favoritos, como Brandon Sanderson (que só tinha Elantris publicado no Brasil, agora Mistborn tá começando), Patrick Rothfuss, George R. R. Martin, Kim Newman, Connie Willis, entre outros, assim como comprar a preços maravilhosos muitos outros livros. Isso foi por meio de eventos em livrarias, e também ao participar da Worldcon, o evento de ficção científica e fantasia, e onde também conheci mais a fundo o Hugo Awards, que é voltado para esse gênero. Foi um abrir de olhos para mim, ver o quanto esses livros tem mais respeito lá, e muito muito mais publicações. Atualmente só leio em inglês, ou importando pela amazon ou comprando no Kindle, enquanto meu goodreads tá lotado de livros ainda para ler.

    Uma coisa interessante é ver a importância de certas editoras desses ramos (ou que tem livros fortes em fantasia e ficção), como a Tor e a Golliancz, assim como os eventos que elas organizam.

    Bem, eu li alguns livros da Ruth Rocha, e definitivamente essa declaração dela foi infeliz. E que reflete bem o que vemos por aqui. Muitos livros bons, normalmente em seções de infanto juvenil em livrarias, quando não o são, ou escondidos nas estantes… Saudade de ir em livrarias e ter uma seçao só pra ficção e fantasia, com vendedores que conheciam as obras e com cartõezinhos de comentários sobre várias =/

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  28. O brasileiro é muito preconceituoso com coisas que “não são realistas”. O problema é que, munido de preconceito e experimentação vazia, não atravessamos a casca e normalmente só produzimos cultura plástica. Tanto que nossos produtos são feitos mas por ego dos envolvidos e dominação do que para indústria cultural de fato. E com isso, continuamos com uma cultura emergente e estagnada, que deve em muito para a produção cultural de qualquer país.

    Você mitou com esse texto, Melissa. Meus parabéns!

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  29. Minha família trabalha com livros há mais de 25 anos no Brasil, cresci em meio de pilhas e pilhas de livros. Tudo começou com meu pai, vendendo livros jurídicos de porta a porta, nosso público alvo sempre foi advogados, juízes, promotores, estudantes de direito e profissionais jurídicos. Sempre evoluímos no mesmo ramo e em pouco tempo ele era representante comercial das maiores editoras do país, passamos de 1 vendedor para 5 humildes livrarias. Após as livrarias, passamos a ter uma distribuidora com mais de 10 vendedores, apesar da evolução, chegou ao ponto que o ramo não estava indo muito bem, talvez por falta de planejamento ou pelo próprio mercado editorial. Para termos um desconto bom, comprávamos uma quantidade grande de livros. Porém, as mesmas editoras que nos fornecia começaram a vender ao nosso cliente final com um desconto muito próximo ao que nós comprávamos. Sendo assim com o tempo as vendas caíram e fechamos 4 livrarias e a distribuidora devido à grande queda.
    Na época com a queda das vendas, pensamos em mudar de ramo, mas ainda tínhamos muitos clientes e muitos anos no mercado para fecharmos as portas e tentar outra coisa na vida, e no ano de 2002 iniciamos uma humilde editora, hoje temos mais de 50 obras publicadas sendo vendidas nas maiores distribuidoras e livrarias do Brasil como a Livraria Saraiva, Cultura, Extra, Submarino, etc. A partir do ano de 2013 começou a queda nas vendas da editora, atingindo quase 70% do faturamento. Em razão da queda, todos os sábados em uma praça no centro de minha cidade, comecei a realizar uma feira do livro contendo os melhores livros de literatura da atualidade, no início vendia muito bem, consegui muitos clientes para a livraria, mas no final de 2014 as vendas caíram muito e no início de 2015 tive que procurar um emprego com um salário fixo, hoje trabalho em uma gráfica e ao mesmo tempo continuo “trabalhando” na editora e livraria. Porém, as vezes penso em largar tudo, ir estudar e morar fora do Brasil pois sei que seguir nessa área em qualquer lugar do mundo estarei muito a frente do nosso país, infelizmente, o Brasil está entre os seis países em que as pessoas menos leem: México, Reino Unido, Brasil, Taiwan e Japão e Korea.
    Link para o gráfico: http://segue.se/xMb

    Em 2012 o site G1 publicou que o número de leitores caiu 9,1% no país, perdendo espaço para TV e diversão online.
    Fonte: http://segue.se/xJI

    Durante todo esse tempo, vi muitos profissionais do ramo e algumas grandes editoras fecharem as portas, das quais já não consigo mais contar nos dedos.
    Perante todas essas noticias, vejo que trabalhar com livros no Brasil é dar murro em ponta de faca.
    Uma opção é tentar exportar nossos livros traduzidos para outros países, talvez teremos mais oportunidades lá fora do que em nosso próprio país.

    Peço desculpas pelo desabafo, mas é a pura realidade brasileira no ramo literário. Hoje tenho 26 anos de idade e estou vivenciando esse ramo há 25.

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  30. Haru Yoshida

    Por declarações como as desta tal de R. Rocha que, cada dia mais, venho abandonando a literatura e filmografia nacional. Até hoje não consigo compreender como não temos a capacidade de criar obras tão divertidas e diversificadas quanto os americanos, europeus e japoneses! Eu, como leitor “abandonado”, sou obrigado a recorrer a versões gringas ou “não-oficiais” de praticamente tudo que amo ler! Como obras maravilhosas como Spice & Wolf, Toaru Majutsu no Index, Sword Art Online, Kieli, Accel World, Strawberry Panic, My Teen Romantic Comedy SNAFU, Alderamin on the Sky, The Devil Is a Part Timer/Hataraku Maou-sama … não foram publicadas no Brasil!!! Pelo menos, no último ano, boas notícias vieram, com a publicação de Madoka : The Novel e No Game No Life … e ainda teremos a novel de Another neste ano! Desejo que o mercado nacional amadureça ainda mais, porém, com mentalidades como dessa tal R.Rocha (que nunca apreciei, diga-se), isso vai demorar a ocorrer …

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  31. Hugo Canuto

    Concordo com a autora e quero fazer um complemento. A Literatura de Fantasia, assim como Romance Policial, Ficção Científica e outros gêneros está ligada de algum modo ao processo de urbanização, de demandas por novas formas de entretenimento, de criação de classes médias, educação…coisas que só recentemente o país tem vivido, enquanto que Inglaterra, EUA e outros passaram por isso no sec. XIX para início do XX.

    Não é por acaso que o livro Drácula, só para ficar em um exemplo, surgiu nesse período. De alguns anos até aqui, diria, desde o lançamento de Harry Potter, toda uma geração de brasileiros cresceu assistindo e lendo esses gêneros.

    Então, resumindo, acredito que nós temos todo um potencial criativo a ser explorado, o momento é esse, o público quer sim sair do “realismo” e cruzar mares nunca antes navegados. Resta as editoras abrirem os olhos e bolsos para o tamanho que esse mercado tem.

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  32. Oie, um colega compartilhou seu texto e vou repetir o comentário aqui pra você autora ler também :3

    “Eu não tenho nada contra o cenário de fantasia em si, mas não me chama atenção aquele roteiro básico de mundo acabando e aí um adolescente descobre que tem que salvar esse mundo. Não sei, por algum motivo não me interesso. Também já não curto mais dois jovens com câncer descobrindo o amor… alguns roteiros já me saturaram.

    Eu até comentei isso num vídeo com um pouco de medo, achei que seria atacada porque todos meus amigos são alucinados por distopia, sempre que aparece mais um roteiro eles querem ler. Não sabia que tinha toda essa coisa de não ser levada a sério.”

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    • Eu entendo o seu amigo, apesar de gostar desse tipo de livro. Mas diz pra ele que ESSES livros de fantasia geralmente são os voltados aos adolescentes, mas existem outros, como a autora do texto disse, que são voltados aos adultos e, portanto, as histórias vão se desenrolar de outras formas que talvez sejam mais agradáveis para ele. Só quero observar que existe um certo preconceito voltado aos livros de adolescentes e femininos que acho absurdo, e não quero soar como se o compartilhasse. Estamos (sim, eu sou adolescente) buscando por temas que debatam nossos próprios problemas de autodescoberta, paixonites, temores com o futuro e etc. Ás vezes parece que porque algumas coisas são voltadas para as mulheres jovens são consideradas ruins.
      De qualquer forma, desculpem a desviada de assunto. Mas existem várias formas de literatura de fantasia, é só procurar um pouquinho :]. Até mais!

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  33. Coloca um botão de curtir pelo facebook 😀 Toda vez que se curte um post no blog pelo perfil do facebook, os amigos dessa pessoa vêem que ela curtiu, pode ser legal pra sua divulgação. Beijos

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  34. Natalle Moura

    Fui alfabetizada muito cedo pelo interesse em ler livros sozinha. Um deles era da Ruth Rocha, que é e vai continuar sendo uma excelente escritora. O problema é que ela, assim como todos os mais antigos e aqueles ligados à Academia de Letras, possui uma mente mais arcaica para lidar com o que o brasileiro classificou como fantasia. Fiquei de coração partido e extremamente decepcionada com o comentário infeliz dela, mas isso não alterou o sentimento saudoso que tenho pelo que ela já escreveu.
    Não temos teóricos de peso que pararam para dar nomes para gêneros literários que a “massa” apoia. Os teóricos que utilizamos são internacionais, Cândido foi um dos poucos que deu nome ao gênero da fantasia. Todorov, Barthes, Benjamin, Cortázar… Todos possuem uma explicação maravilhosa para o que é fantástico, o que é literatura maravilhosa, o que é fantasia. Nós não temos e, por isso, temos que partir desse ponto de origem. Então não acho ruim que exista a classificação “fantástica” para a fantasia. Como alguém disse anteriormente, é um termo um pouco mais restrito para um termo abrangente. Colocar Cortázar, Borges e Gaiman em uma prateleira é bom sim. Todos são derivados de um gênero maior, mas diferentes entre si. É essa comparação, é essa proximidade que vai incentivar que existam análises na nossa língua. Só assim para separá-los depois.
    Ah. Antes de todos vocês reclamarem do brasileiro, poxa… Vamos pensar um pouco na origem das coisas. Nossa literatura só passou a ser nossa de fato muuuuito tempo depois do primeiro brasileiro escrever um livro. A originalidade do brasileiro sempre foi “sombreada” por influências (quase como a moda age) externas. E sempre houve um péssimo olhar para o best seller. E isso não é só do brasileiro, mas de todo o mundo (atualmente aprenderam a lidar um pouco mais com isso, estamos atrás nessa evolução, claro). E, querendo ou não, a maioria dos best seller que temos são livros de FC e fantasia. Ligamos a isso esse desprezo e o desprezo de “literatura para criança” que a fantasia carrega e pronto, temos um nicho ignorado. É com o tempo, interesse de novos professores e novas gerações que isso vai mudar. A Inglaterra teve anos para aprender a aceitar o best seller, a fantasia e tudo o que já criticou na vida. Temos que ter paciência e coragem de mudar.
    Eu tive contato com professores mais abertos na faculdade de Letras. Meu professor orientador da época é um doutor jovem que me fez escrever sobre a linha tênue entre o cânone e o best seller e, depois, aceitou minha pesquisa sobre os contos fantásticos da Marina Colasanti. Temos esperança, sim. Recentemente fui a um simpósio sobre fantasia e o horror na literatura. =)
    Leiam mais, escrevam mais e tenham mais pensamentos críticos. Só xingar a R.Rocha sem tentar compreender o porquê do que ela disse é tão pequeno quanto o comentário dela.
    Recomendo contos! São maravilhosos! Temos os contos do Machado, da Marina Colasanti, da Clarice, da Lygia Fagundes Telles. Essas três são as rainhas dos contos fantásticos brasileiros.

    Depois dessa monografia minha (rs), excelente texto, excelente ponto. Eu só daria um novo olhar ao repúdio pelo termo “fantástico” e do porquê da apropriação dele.

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    • Se tem uma coisa que me irrita DEMAIS em teoria literária é o tal do “realismo fantástico”. Quando é “realismo fantástico” é lindo, maravilho, pode, aplausos. Genial, porque é “realismo”. Cadê o diabo do realismo na biblioteca infinita do Borges??? Enfim, falta mesmo uma teoria da fantasia aqui no Brasil. Isso daria sustentação para os escritores. E ao mesmo tempo, acredito que falta MUITA coragem pra se atrever, porque qualquer um que o fizesse seria condenado pelo resto da academia inteira, praticamente. Não deve ser um caminho nem um pouco fácil.

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      • Andre Barreto

        Gostaria de fazer uma sugestão aqui: Por que os escritores de fantasia, ficção científica e terror não se unem e criam sua própria academia ? Sim, um movimento SEPARATISTA! Uma nova escola literária brasileira! Que se dane a academia tradicional, vamos nos organizar, usar o poder da mídia, do mercado, e fomentar de uma vez por todas a fantasia, a FC e o Terror na cultura brasileira. Existem por aí muitos blogs, fanzines, iniciativas de clubes do livro (Vórtice Fantástico) e escritores que conseguiram projeção na mídia. Já passou da hora dessa galera se unir, já passou da hora da gente se unir.

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        • É uma ótima ideia, Andre! Inclusive tenho um projeto em andamento sobre isso com alguns autores brasileiros. Espero que até o final do ano eu tenha boas notícias. 🙂

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  35. Eu acho esse preconceito ridículo. E quem acredita que isso não é boa literatura tem um problema sério de interpretação de texto. Por exemplo, Harry Potter tem uma carga muito grande de reflexões sobre o desenvolvimento e maturidade; Jogos Vorazes é praticamente um estudo de caso sobre o poder da mídia e sem falar no mestre Douglas Adams.

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  36. Texto perfeito. Infelizmente, nesse aspecto, eu acredito que errei de curso. Deveria ter feito inglês, e não português. Eu sou escritor de fantasia, pretendo um dia publicar, e vi de perto todo o preconceito. Se já há preconceito com o escritor novato no meio acadêmico, quando o escritor é de fantasia é que ferrou MESMO. Se for contemporâneo pior ainda. As pessoas simplesmente REJEITAM. É bizarro. É triste ver que tem um mundo de coisas a se explorar e estudar nesse tipo de literatura mas não podemos porque simplesmente a academia não quer. O Dragões de Éter do Raphael Draccon, por exemplo, daria um trabalho incrível sobre a releitura dos contos de fada. Outros livros por aí poderiam ser relacionados com mitologia. Eu misturo mitologia nórdica, grega e japonesa no meu original. A fantasia faz críticas ao governo, ao social, ao religioso, ao filosófico e tudo isso é ignorado apenas por ser “fantasia”. É dito que “é ruim” ou “é mercadológico” só por ser fantasia. E qual é o escritor que não quer vender seus livros ou ao menos espalhá-los para o maior número possível de leitores, de uma forma ou de outra? Existe gente que se preocupa mais com isso do que com a própria escrita? Sim, mas não é por isso que se deve generalizar um gênero literário inteiro. É triste. Mas fico feliz que aos poucos o quadro esteja mudando, que está brotando essa nova geração. Espero um dia fazer parte de tudo isso e que a abertura seja cada vez maior e diminuam os preconceitos com certos gêneros literários. Toda literatura merece respeito.

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  37. Falando em Harry Potter, esses dias me aconteceu algo que você refletiu muito bem no texto, eu estava lendo o primeiro livro e fui compartilhar com uma colega de trabalho, dizendo que eu gostava da história, mas nunca tive oportunidade de ler a série, e agora resolvi me dedicar a leitura, recebi como resposta um “Nossa, sério?” E acontece o mesmo quando eu falo que gosto de HQs ou mangás. Como você disse, a gente acaba tendo que justificar, dizendo que é bom, isso e aquilo. Espero que chegue um dia que essa situação seja menos recorrente.

    Bjs

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    • É uma chatice isso, né? Essa necessidade de justificar o tempo todo o que você está lendo. Outro dia isso aconteceu comigo enquanto lia “Sombras Vivas”, da Cornelia Funke, no aeroporto. Uma mulher se aproximou e disse que se eu quisesse conhecer literatura alemã, deveria ler coisas mais sérias. O.o

      affe

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  38. Higor Pascoal Melo

    Me lembrou muito meu segundo grau (há uns 10 anos, to ficando velho), quando perguntei para a professora de literatura, que devia estar entre 25 e 30 anos, se ela já havia lido Senhor dos Anéis. Ela respondeu não com um sorrisinho irônico, como se aquilo fosse uma situação impossível, ou ridícula. Imagine, ela, uma acadêmica da literatura se prestar a ler Senhor dos Anéis, nuuuuuuuuuuuuuuunca, afinal é fantasia. Já li escritores brasileiros, gostei de muitos mas sinceramente em nenhum que eu tenha lido eu consegui encontrar o poder descritivo e criatividade do Tolkien ou a capacidade de construção de história não linear do R R Martin, isto para citar alguns exemplos. Não vejo a “linha” que divide a qualidade literária superior de autores defendidos pelos “intelectuais da literatura” e os autores de fantasia, não querendo desmerecer os autores clássicos brasileiros mas não vejo quais os argumentos que mostram que fantasia seria inferior, ou mesmo não seria nem literatura como a senhora Ruth afirmou sobre Harry Potter. Quando comentaram sobre escritores infantis lembrei logo do Monteiro Lobato, sou da área de exatas então não sei classificar corretamente as obras literárias, mas creio que Sitio do Pica-pau Amarelo possa ser classificado como fantasia, correto? Será que foi apenas uma moda também?

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  39. Que texto, Melissa!
    Não preciso acrescentar mais nada.
    Admiro muito a Ruth Rocha, mas, cara, fiquei muito decepcionado com essa última entrevista.
    Todo mundo pode emitir sua opinião, sim. Só achei ela pretenciosa demais, um desrespeito.
    Feliz de ler teu post!

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  40. Realmente, ainda enfrentamos muitos obstáculos, além de o autor ser nacional, seu livro é fantasia… está fadado a morrer de fome rsss

    Escrevo fantasia, amo distopias e como universitária entendo perfeitamente o preconceito que você se refere, fui, inclusive, hostilizada rssss mas quem liga? Eu leio o que me dá na telha, é minha resposta final! E francamente, fantasia é bom, é bom e é bom. Aceitem!
    Amando seu blog
    bjks

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  41. Muito bom o texto parabéns. Estou escrevendo o meu primeiro livro de literatura fantasia e acho importante essa divulgação como a sua. Assim que eu começar a disponibilizar os primeiros capítulos para o público conhecer te mandarei se quiser um exemplar.

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