5 livros de fantasia para Ruth Rocha

Ruth Rocha disse que fantasia não é literatura. Emoções à parte, pode ter sido por desconhecimento de uma tradição que existe desde o início do século passado. Por isso selecionamos cinco livros que mostram à Ruth Rocha (e outros simpatizantes) porque fantasia é um gênero de qualidade como qualquer outro.

Vamos, Ruth. Venha com a gente.

1. O Feiticeiro e a Sombra, de Ursula K. Le Guin

Nesse clássico da literatura de fantasia, o leitor acompanha Ged em sua jornada de amadurecimento e educação em magia. Bastante talentoso, ele vai para Roke, uma escola de magia (sim, uma escola de magia que não é Hogwarts! E esse livro foi publicado em 1968). Na adolescência, Ged sem querer evoca uma sombra para o mundo, mas não sabe como mandá-la de volta. A responsabilidade pelo que fez marca Ged para sempre. Mas o mais legal não é isso.

Os pais de Ursula K. Le Guin eram antropólogos e estudaram vários povos do mundo. Na série Terramar, a autora usou esse background para criar uma terra de fantasia rica em várias culturas. O Feiticeiro e a Sombra problematiza várias questões relativas a etnias, preconceito racial e identidade cultural. Além disso, há toda uma discussão a respeito da língua. Ged não sabe o nome da sombra e por isso não consegue controlá-la. O significado das palavras é trabalhado de forma magistral nesse livro.

“Acender uma vela é criar uma sombra.”

Ah, e Margaret Atwood (a grande Margaret Atwood!) recomenda esse livro como um clássico da literatura. Da literatura. Ponto.

2. O Único e Eterno Rei, de T. H. White

Essa série é frequentemente mencionada como a versão mais famosa para a lenda do Rei Arthur. Influenciou incontáveis livros, filmes e jogos de RPG. Inclusive, o maravilhoso As Brumas de Avalon foi escrito como uma resposta ao trabalho de T.H. White, apresentando o ponto de vista das mulheres. Ninguém escreve um livro em resposta a outro se não for um clássico.

O Único E Eterno Rei é uma série de cinco livros e o tema central é a relação entre poder e natureza humana. Arthur e seus companheiros são examinados em relação às normas de cavalaria e como as mesmas representam (ou não) a justiça. Podemos impor a justiça à força? Podemos ser justos na guerra? Essas algumas das perguntas que pipocam pelas páginas desse livro.

“- Se eu tivesse que ser sagrado cavaleiro – disse Wart com um olhar sonhador para o fogo – então eu… pediria a Deus que enviasse todo o mal do mundo para mim, apenas para mim. Se eu o derrotasse, nada mais dele restaria, e se ele me derrotasse, então apenas eu sofreria por isso.

– Isso seria muito imprudente da sua parte – disse Merlim – E você seria derrotado. E teria que sofrer por isso.”

Literatura é o que discute a condição humana.

3. O Nome do Vento, de Patrick Rothfuss

Esse talvez seja O clássico de fantasia contemporâneo. Patrick Rothfuss vai na tradição iniciada por Ursula K. Le Guin e nos apresenta Kvothe, um jovem com talentos extraordinários. Ao longo da narrativa acompanhamos suas vitórias e derrotas como músico e acadêmico. No entanto, o que mais marca a série Crônica do Matador do Rei é preocupação incessante com o contar de histórias.

Como uma história se faz? Como uma lenda começa? Kvothe nos mostra que o que marca a história contada é próprio contador, que cria o que quiser para seus ouvintes. Não há história contada de forma neutra, tudo depende de um ponto de vista e uma vida pode se desdobrar em várias outras com as palavras.

“- De que cor é a camisa daquele rapaz?

 

– Azul.

– Azul como? Descreve o conceito.

 

Esforcei-me por um momento e desisti.

– Então azul é um nome?

 – É uma palavra. As palavras são sombras pálidas de nomes esquecidos. Possuem poder, tal como os nomes. As palavaras conseguem atear chamas nas mentes dos homens. Conseguem extrair lágrimas ao coração mais duro. Existem sete palavras que farão alguém amar-te. Existem dez palavras capazes de quebrar a vontade de um homem forte. Mas uma palavra não passa de uma representação de um fogo. Um nome é o próprio fogo. (…) Usar palavras para falar de palavras é como usar um lápis para desenhar um lápis no próprio lápis. Impossível. Confuso. Frustrante. Mas existem outras formas de compreensão! – Lançava os dois braços ao céu sem nuvens – Olha! – gritou, inclinando a cabeça. – Azul! Azul! Azul!”

Literatura discute o próprio fazer literário.

4. Coração de Tinta, de Cornelia Funke

Cornelia Funke cria com sensibilidade a fantasia sobre todas as fantasias. Nesse primeiro volume de uma trilogia, conhecemos Mo e Meg, pai e filha que têm um poder incrível: ao ler em voz alta trazem para este mundo o que está dentro de um livro. Mas o que eles mais querem está num volume perigoso, Coração de Tinta. Quando este livro finalmente vem à tona, consequências sérias virão para Mo e Meg.

Coração de Tinta vai falar de vários níveis de relação com livros: a amante de histórias Meg, o encadernador Mo, a colecionadora Elinor, o escritor Fenoglio e a leitora Resa. O mundo é uma grande história em Coração de Tinta, história de fantasia, com lutas, castelos e muitos livros.

“Talvez seja verdade que a morte é apenas o começo de uma nova história, mas ainda ninguém leu o livro em que ela está escrita, e o seu autor certamente não mora num lugarejo na costa, onde joga futebol com seus netos.”

Literatura discute as várias instâncias ficcionais.

5. O Senhor dos Aneis, de J.R.R. Tolkien

Gostando do estilo ou não, O Senhor dos Aneis é leitura obrigatória para qualquer um que queira entender o que é fantasia. A jornada de Frodo e a Sociedade do Anel para destruir o Um Anel de Sauron é na verdade uma grande discussão sobre coragem, honra e dever. Mais tarde, George Martin vem escrever as Crônicas de Gelo e Fogo como resposta ao trabalho de Tolkien, mostrando que nem todos os homens são valorosos, honrados e dispostos a fazer o que é certo.

O Senhor dos Aneis é um clássico da literatura de língua inglesa e é estudado em universidades em todo o mundo. Além disso, estabeleceu os parâmetros para a fantasia moderna e para o RPG. Um marco histórico.

“Você pode encontrar as coisas que perdeu, mas nunca as que abandonou.”

.

Existem ainda inúmeros autores que produzem fantasia em seus mais variados gêneros no Brasil. Dentre eles Karen Alvares, Ana Lúcia Merege, Líege Báccaro Toledo, Eduardo Kasse, Eric Novello, Laísa Couto, Melissa de Sá (eu!) e muitos, muitos outros que não cabem nessa página, mas cabem na sua estante. É só clicar na categoria literatura nacional do nosso blog.

#ficaadicaRuthRocha

Use a tag e indique outros livros de fantasia pra Ruth!

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

12 Responses to “5 livros de fantasia para Ruth Rocha”

  1. Ruth, amiga, sugiro também a trilogia do Mago Negro, da Trudi Canavan. Tem uma personagem feminina maravilhosa e protagonista. Se joga! 😛

    Melissa, vi recentemente uma crítica ao livro O Nome do Vento de que ele peca pela ausência de fortes personagens femininas. É verdade? Sou bem chata na hora de ler fantasia e fiquei com um pé atrás.

    Responder
    • Então, Sybylla, sobre O Nome do Vento: Existem sim personagens femininas. Uma é o interesse amoroso do personagem principal (mas ela é desenvolvida de uma forma interessante a meu ver. É uma mulher “livre” para seu tempo, digamos assim), a outra é uma moça meio louca, tem mulheres guerreiras no segundo livro, uma espécie de ninfa deusa do sexo também no segundo livro (aí é bem o esteriótipo mesmo, era a intenção) e outras mulheres personagens secundárias.

      O livro é obviamente contado de um ponto de vista masculino. No entanto, acredito que existem livros muito mais sexistas. Acredito que o a série tenta retratar todo tipo de mulher dentro daquele contexto inspirado na Idade Média e isso é legal num certo sentido. Mas o protagonista ainda é um homem, Kvothe. Isso não me incomodou, mas acredito que pode te incomodar se você vê mulheres protagonistas ou ao menos peças centrais da narrativa como imprescindíveis.

      Já li algumas resenhas dizendo que Kvothe é um paradigma sexista porque ele é inteligente, talentoso e genial. No entanto, nunca no livro isso é dado como características masculinas. Ele só é um cara genial mesmo. E existem mulheres inteligentes e independentes no livro. Quando Kvothe ajuda algumas delas, não vejo como aquele clássico caso de “mocinho salvador”, mas sim como necessidade da trama mesmo.

      Responder
  2. Amei essa lista <3 Só li O Senhor dos Anéis e Coração de Tinta (uma trilogia maravilhosa), mas me interessei profundamente por todos esses outros (já conhecia As Crônicas do Matador do Rei e O Único e Eterno Rei).
    Realmente, falar que fantasia não é literatura é uma grande bobagem.

    Responder
  3. Rafael Bertozzo Duarte

    A coleção Fronteiras do Universo (A Bússola de Ouro, A Faça Sutil, A Luneta Âmbar) é uma obra maravilhosa, original e criativa.

    Responder
    • Rafael,

      Sim, essa série é uma ótima mistura de fantasia e ficção científica, inclusive. Daquele tipo que mescla gêneros. Traz reflexões seriíssimas sobre religião, política e ética. Vale muito a pena ler. Pena que o filme foi tão ruim. 🙁

      Responder
  4. Melissa, sua lista está ótima, essas são realmente obras incríveis! Eu sugeriria também “A História Sem Fim”, entre outros trabalhos de Michael Ende, e a série “As Crônicas de Prydain”, de Lloyd Alexander. Ambos são livros juvenis e trazem muito viva a essência da fantasia.

    Obrigada por me citar entre os autores nacionais. Ainda tenho um longo caminho a percorrer, mas espero chegar lá. 🙂

    Responder
  5. Oi Mel, confesso que ainda não li nenhum desses livros, apesar de dois deles estarem na minha meta de leitura: O Senhor dos Anéis esta entre as minhas metas pessoais para esse ano, já até tenho aqui em casa, mas primeiro eu quero terminar de ler Harry Potter. Eu preciso de tempo para me dedicar ao Nome do vento, por enquanto tenho alguns outros na frente dele, pretendo ler em e-book por que aí posso levar para qualquer lugar. Quanto os outros títulos, dois eu não conhecia (1º e 2º) mas adorei conhecer pelo menos um pouquinho.

    bjks

    Responder
  6. Sei que a matéria já tem algum tempo, mas descobri o blog recentemente e estou devorando os artigos! Infelizmente esse esnobismo não é exclusivo do meio acadêmico daqui, apesar de ser muito mais acentuado do que lá fora. Esses dias me deparei com um vídeo do Patrick Rothfuss, que você recomenda, gravado por uma leitora da Crônica do Matador do Rei. No vídeo, ele rebate o esnobismo do meio acadêmico literário norte-americano com relação a literatura de fantasia. Aqui o link, caso alguém se interesse: https://www.youtube.com/watch?v=QFI30pcv4sM
    Enfim, acho interessante ver que nós, autores e leitores de fantasia no Brasil, não somos os únicos a esbarrar nessa parede de ignorância. Vejo a Ruth falando isso mais como uma escritora que se sente ameaçada, do que como alguém que se deu ao trabalho de ler qualquer coisa do gênero, avaliar justamente e, então, dizer que não gosta ou que não a atrai.

    Responder
    • Obrigada pelo envio do link, Ana. Vou assistir com calma. E sim, infelizmente tem esse preconceito grande com literatura de fantasia. É uma coisa tão ridícula que não dá nem pra acreditar que é verdade.

      Responder

Leave a Reply

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>