Por que parei de ver Game of Thrones

Eu parei de ver Game of Thrones na terceira temporada. Sim, sou fã dos livros de George Martin e com certeza comprarei o sexto livro na pré-venda quando sair, mas a série de TV da HBO pra mim é apenas uma glamourização desnecessária da violência. Agora com a polêmica desse sexta temporada, só fico feliz com a minha decisão de anos atrás.

Entenda o que a motivou.

Sim, o cenário de As Crônicas de Gelo e Fogo é violento. O mundo de fantasia de George Martin (chorem o que quiserem, mas é fantasia sim) é altamente patriarcal. Mulheres são frequentemente alvo de violência nos livros. Isso eu aceito e até acho que funciona como uma forma de criticar nossa própria sociedade e a normatização dessa violência. No fim das contas, não estamos tão longe de Westeros.

A série de TV da HBO, no entanto, decidiu que a violência era mais importante que a crítica. As duas primeiras temporadas são compostas de cenas de sexo e violência uma atrás da outra. Inclusive, com prejuízos de roteiro por conta disso. É um exagero e exagero sem crítica.

Muitos fãs de Game of Thrones enchem a boca pra falar da série porque “é violenta!”. Sinceramente, ser violento não é critério para dizer que algo é bom. Eu estremeço toda vez que alguém diz que George Martin é melhor que Tolkien porque ele escreve coisas violentas. O quê? O que o laptop tem a ver com chocolate quente, minha gente?

O que mais me chama atenção nos livros de Martin é o modo como a narrativa se constrói através pontos de vista, o que não é nada novo na literatura (não é, crianças, sinto muito. Martin não inventou isso), mas é bem executado. Gosto das intrigas políticas, do jogo de interesses, dos personagens super bem caracterizados. Pra mim, isso na série de TV da HBO ficou secundário.

Tornou-se mais importante mostrar cenas longas de mutilação, sexo e abuso sexual do que simplesmente contar a história. Cansei. Lá pelo quarto episódio da terceira temporada eu pendurei a toalha e resolvi que ia gastar melhor meu tempo.

Desde então acompanho algumas polêmicas. Como a do ano passado, quando houve uma cena em que Cersei foi estuprada por Jaimie Lanister e logo depois ele virou galã da série. Essa cena não estava nos livros. A história de Arianne foi completamente retirada do roteiro da série (engraçado, era o ícone da mulher livre nos livros e uma das poucas que conseguia escolher seus parceiros sexuais. Obviamente isso não é interessante para os espectadores). Agora foi Sansa a vítima de um estupro grotesco e desnecessário, feito somente para agradar esse espectador que “gosta de violência”.

Entendo que mudanças podem ser feitas numa adaptação. Entendo mesmo. Mas meu problema com os produtores de Game of Thrones é que eles estão simplesmente focados em chocar seus espectadores com cenas altamente violentas que são posteriormente glamourizadas como algo positivo.

Não, violência não é algo que deva ser glamourizado. Muito menos violência sexual.

Mulheres são as maiores vítimas de violência em Game of Thrones. Não é necessário ressaltar isso com mais e mais cenas de abuso contra a mulher. Eu não concordo e jamais concordarei com violência por violência. Essa indústria que fatura em cima da violência, que naturaliza violência e pior, faz da violência algo a ser esperado, é repugnante. Pior ainda se for violência contra mulher e crianças.

Mas e os outros filmes violentos, Melissa? E o Tarantino? E Mad Max? E os outros trocentos mil filmes que são ultra violentos? (* mimizentos chorando ao fundo *). Repito: se houver crítica, se provocar reflexão, se servir pra algo que não seja um banal “choque ao espectador” ou um “é violento então é bom”, estamos falando de outra coisa.

Podem chorar nos comentários. Toda vez que falo de Game of Thrones aqui é a mesma coisa.

Para quem lê em inglês, recomendo o excelente texto no blog The Mary Sue aqui. Em português, tem o ótimo “Estou cansada de violência sexual como plot device” aqui.

E não tem imagem nesse posto porque me recuso a postar fotos da dita cena no meu blog. affe

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

18 Responses to “Por que parei de ver Game of Thrones”

  1. Que texto legal, Melissa! Você é uma das poucas que vejo criticando a série, de verdade, e não racionalizando os inúmeros buracos que ela vem cavando desde o início. Agora que ela está se desviando mais dos livros, esses buracos ficam mais evidentes. A queda é inevitável.

    Usar estupro para desenvolvimento de personagem é algo repugnante e preguiçoso da parte do escritor. Parece uma carta-trunfo para manipular a audiência. Algo como “sinta essa emoção agora!”.

    Essa racionalização do estupro e da violência contra a mulher é algo assustador. É incrível como dispensam o assunto com “ah, na idade média era assim mesmo”, “mas o personagem estuprador é mau demais, faz parte da personalidade dele”, ou “isso acontece de verdade, fazer o quê?”. Se trocássemos a cena por, digamos, um garoto autista de seis anos sendo estuprado, a cena seria dispensada tão facilmente? Crianças são estupradas de verdade. Milhões já devem ter sido até hoje, especialmente em tempos de guerra. Isso torna a cena menos nojenta e desnecessária?

    Outros tentam justificar uma monstruosidade com outra — “tem tanta violência na série, essa é só mais uma”, “por que ninguém fala do quanto o Theon sofreu? Só porque é homem?”. Esses outros tipos de violência são tão trivializados quanto o abuso da mulher? O homem branco, hétero e de classe média passa por tantos problemas assim? Eu sei que não passo. Por outro lado, provavelmente todas as mulheres que eu conheço já sofreram algum tipo de abuso, seja verbal, físico ou emocional. Infelizmente, é comum.

    Talvez o que falte não seja apenas bom senso, mas uma boa dose de empatia.

    Abraços e parabéns pelo texto. Te desejo muito sucesso com Metrópole!

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    • Thiago, fiquei bastante empolgada com seu comentário: é sempre bom ter pessoas racionais com quem dialogar. Infelizmente na internet hoje, tá cada vez mais difícil achar um discurso coerente…

      Sem comentários quanto a essas inúmeras justificativas usadas para tapar o sol com peneira. Pra mim, esses fãs ardorosos de Game of Thrones é um público que não reflete sobre aquilo que assiste e fica afixado num círculo de violência. Quer ver um retrato da Idade Média? Então vai assistir “Mundo Sem Fim”, série em quatro episódios baseada nos livros do Ken Follet. Isso sim é um retrato da Idade Média. É violento? É. Tem estupro? Tem. Mas funciona para nos fazer pensar o que realmente foi a Idade Média e o que ela significou para mulheres, crianças e minorias. Mas pergunta quem quer ver? “Mundo Sem Fim” incomoda, é uma violência que nos faz pensar, e isso ninguém quer. Mais fácil ver Game of Thrones, né? Se divertir com essa violência cada vez mais banal… Se esquecer da realidade.

      Empatia: essa é a palavra.

      Obrigada pelo comentário, Thiago. 🙂 Espero te ver mais vezes aqui.

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  2. Eu pendurei a toalha logo depois da primeira temporada. O tom de GoT não me agradou, então deixei de lado. Não é que eu não suporte violência em filmes e livros, mas, para mim, a série atingia um limite. Cenas de violência sexual e tortura/crueldade são muito difíceis para mim. Se elas têm um propósito dentro da trama, eu aguento, mas quando eu percebo que existe um abuso desses recursos só para “chocar” ou fazer a coisa parecer ~adulta~ e “hardcore” eu abandono mesmo, porque não é minha praia. Mas respeito quem curte, entendo o apelo da série e etc.

    Agora, não entendo essa coisa de relacionar violência extrema com realismo e “maturidade”. É um conceito muito simplista. Mas acho que esse ficou sendo o “chamariz” da série para o público geral, e daí o pessoal responsável pela série se preocupou muito em “chocar”, em gerar o burburinho depois da cena mais terrível da temporada (e falo aqui de uma perspectiva bem limitada, porque não assisti mais a série depois da primeira temporada). Lembro do auê que foi o casamento vermelho, ou mesmo a própria cena da Cersei e do Jamie (nesse caso, houve críticas e aversão, coisa que eu entendo muito bem).

    Não sei. Minha mãe e minha irmã amavam a série e até elas estão abandonando o barco agora. Acho natural que essa fórmula esteja se desgastando, porque existe um exagero (desde a primeira temporada achei a série apelativa – para o meu gosto, que fique claro). Sei que há muita coisa interessante na história e nos livros, mas todo mundo com quem converso parece achar que a série perdeu um pouco o pique e o foco, mesmo aqueles mais viciados.

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    • Também acho a série apelativa, Liége, e concordo que ela perdeu o foco. Ouvi muita gente dizendo que vai parar de assistir, mas infelizmente ainda acho que o público vai se manter mais ou menos estável. Infelizmente, tem muita gente aí endossando e dizendo sim pra essa violência toda.

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  3. Oi, Mel.
    Adorei o seu texto.
    Ainda não tive coragem de começar a ler essa série porque morro de medo do GM morrer e não terminar de escrevê-la!! Eu sei que é um pensamento horrível, mas não consigo tomar coragem… De qualquer forma, fiz a bobagem de assistir a primeira temporada e quase cometi o pecado de julgar o livro pela série de TV. Acho que a violência faz parte do cenário construído pelo autor, mas achei a violência na série apelativa!! É ridículo achar que a série é ótima só porque tem “coragem” de mostrar tanta violência… È como achar que um crítico é bom porque teve coragem de xingar alguma coisa! Imagino que a história seja boa o suficiente para cativar os expectadores pela trama e não pela violência.
    Pelo visto não perdi nada deixando de ver a série! rs…
    Beijos
    Camis

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    • Camila,
      Não perdeu nada mesmo. A violência faz sim parte do universo de George Martin e é inegável que o livro tem sim sua cota de decapitações, mutilações e estupros. Mas nos livros ao menos essas coisas acontecem num contexto um pouco mais crítico. Na série de TV, banalizou geral.
      O excesso de qualquer coisa não qualifica algo como bom. Imagina dizer que uma história de amor é melhor que outra só porque teve mais beijo? Eu hein.
      bjs e obrigada pelo comentário!

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  4. @Heitordealmeida

    Olá.
    Li seu texto e entendo bem seu ponto.

    Eu nem a primeira temporada cheguei a terminar. Quanto aos livros, abandonei no meio do 5° livro. Sinceramente, eles não são ruins, são até bons. Mas absurdamente superestimados. Me cansou um pouco das pessoas falando que GoT é a melhor coisa do mundo porque “é real”, “é violento”, “é assim”, “é assado”, “baseado na Europa Medieval e por isso é *insira aqui um elogio*”. Sem contar um jornalista que uma vez escreveu que GoT era melhor que LoTR porque “os personagens cagam” (pra mostrar que eles são mais “reais”). Eu mesmo tive um tempo onde achei ela fantástica! Depois, lendo outros livros e outros autores pude reavaliar minha opinião e descobrir a quantidade de obras incríveis que tem por ai e que não precisam apelar para serem reconhecidas.

    A série (livros e tv, principalmente tv) é um conjunto de enrolação pontuada com morte de personagens-chave, sexo e violência nos momentos certos. Vai ver o fato de o Martin ter trabalhado com tv fez ele saber bem quando chocar o público e segurar eles com a polêmica.

    De novo, não acho ruim, mas que se não fosse quantidade de cenas polêmicas que a série tem e o fato de a HBO engrandecer tudo, duvido que estaria esse alvoroço todo.

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    • Heitor,
      Compartilho totalmente da sua opinião: os livros do Martin são superestimados. Ele usa recursos interessantes de caracterização de personagem e ponto de vista? Sim. Os livros são dinâmicos? Sim. Mas não foi ele que inventou nada disso. Esses recursos existem há séculos. Inclusive várias outras obras da fantasia ultrapassam Martin em termos de qualidade: eu diria que Patrick Rothfuss escreve bem melhor que ele, por exemplo.
      Eu li essa comparação entre GoT e LoTR que você mencionou: é patético. Se não me engano, outro ponto a favor de GoT segundo o jornalista era o fato de o autor ainda estar vivo. O QUE O COMPUTADOR TEM A VER COM A GALINHA, GENTE?
      Enfim, esses fãs me cansam.

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  5. Sou fã dos livros, li todos, adoro e tudo mais. Mas não consegui assistir à série pelos mesmos motivos que você apontou. Depois do estupro da Cersei, que acompanhei pelas discussões e que nos livros é consensual foi que notei que a ideia do canal HBO não é fazer jus à série e adaptá-la da melhor maneira possível. Sua função é escandalizar, polemizar e manter uma violência sem sentido à mulher. É só violência gratuita, não tem nada ali que leve à reflexão como os fatos que aparecem no livro.

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    • Sybylla,
      A HBO comprou os direitos para adaptar a série MaddAddam, da Margaret Atwood. Confesso que estou com medo. Afinal, MaddAddam já tem em seu conteúdo várias cenas de violência à mulher e estupro por se tratar de uma distopia patriarcal e tecnicista. Tenho medo da HBO só mostrar isso e se esquecer do aspecto crítico da coisa toda.

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  6. Oi Melissa!

    Eu descobri o seu blog algumas semanas atrás e estou adorando os seus textos, parabéns!
    E muito obrigada por este texto sobre GoT, é exatamente o que eu passei a semana inteira explicando para as pessoas ao meu redor – até o momento em que eu cansei e resolvi parar de discorrer sobre “estupro como plot device de 5a categoria para um pseudo-empoderamento de personagens femininas”. Tudo que eu ouvi de volta foi “você está de mimimi, feminazi, o show é violento, por isso que é legal, duuuh”. Desanima muito ter esse tipo de conversa na internet (bom, acho que ter qualquer tipo de debate na internet cansa, é muita hostilidade num lugar só).
    Ler o seu texto foi como uma chuva depois do deserto, obrigada!

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    • Roberta, que bom que você gostou e agora está acompanhando!
      Infelizmente a internet se tornou um lugar hostil a seres pensantes. Também ouvi esses comentários de colegas de trabalho, seguidores do twitter e mais um monte. Tanto que tive que escrever esse post pra dar uma estravazada.
      Que bom que serviu para você se sentir melhor também. Estamos juntas nessa!

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  7. Eu não assisto a série, mas todas as vezes que assisti quando estava passando os canais na tv, sempre me deparei com cenas que não me agradavam nenhum pouco. Eu não tenho nenhum problemas com séries/filmes/livros violentos, mas violência por violência, sem nenhuma razão de ser, principalmente contra mulheres me faz correr desse tipo de entretenimento.

    Bjs

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  8. Entendo seu ponto de vista, mas não acho que a série mostre apenas esse lado violento.
    Da mesma forma que culpar os produtores da série é leviano
    O próprio autor GRR Martin deu sinal verde para todas alterações.
    Na 3 temporada a questão do não estupro ou estupro foi decisão dele, na cena da sansa
    Aliás existem muitas coisas exploradas nesse temporada que serão mostrada no 6 livro
    Espero que não te decepcione.
    Acho que a série não é para pessoas sensíveis
    Existem muitas coisas que escrita você pode interpretar ou imaginar de uma forma mais amena da real forma
    Mas reforço que a série fez miligra nessa temporada devido o próprio livro 4/5 serem bem difíceis de serem adaptados justamente pela própria narrativa empregada .
    E a série mostra a mulher forte sim a Cersei a Dany tem um exército pra chame de seu, Lady Stark, Brienne uma pequena referência são gigantes nas lentes da Hbo
    Mas cada um vê o que prefere e o mimi/choro é livre e de graça
    E o legal da vida é isso
    Mas acho razo seus argumentos

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    • Rodrigo, em primeiro lugar: o fato de o George Martin dar o sinal verde não quer dizer nada. A responsabilidade final é sempre dos produtores da série, afinal são eles os responsáveis por criar as cenas. George Martin pode falar o que quiser. E sim, sei que a série tem spoilers do livro 6 e sinceramente são coisas que eu já suspeitava. Enfim.

      Em segundo lugar, o que você quer dizer com pessoa sensível? Isso algo bastante relativo, não acha? Minha dissertação de mestrado foi sobre dois livros da Margaret Atwood bastante violentos e ao contrário de você não acho que a leitura amenize nada. Meu questionamento em relação a Game of Thrones é a glamorização da violência. É diferente retratar violência de glamorizar violência. A trama fica em pano de fundo sim em Game of Thrones e a maioria dos espectadores se vê ansioso por cena X ou Y de violência. Acho o retrato de violência nessa série irresponsável sim.

      O que tem de errado nas narrativas 4/5? Só porque dividiram os personagens?

      Olha, a questão das personagens femininas na série é bastante complicada. Eu nem vou entrar nessa questão. A referência que fiz ao texto é a de Arianne, uma mulher que decide sobre seu corpo e sobre o sexo que faz. Engraçado terem tirado longas cenas de sexo consensual para colocarem longas cenas de violência sexual…

      Também acho que a vida é argumentar.

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      • Daí vem os mesmos admiradores da série, numa pseudo revolta, clamar cadeia e morte aos trinta estupradores da garota da vida real. A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

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  9. María Alvarado

    Não é bem assim definir a minha opinião sobre este assunto em a guerra dos tronos. É verdade que há mais personagens femininas sofrem de violência, mas também são as personagens mais importantes, os homens têm-se limitado a ser seus companheiros. Acho que prefiro uma série com uma variedade de personagens femininas em vez de um, onde todos se enquadram no estereótipo de olhar para o amor de sua vida, em última análise GoT retrata o que a vida para muitos, mas não estão mais na era medieval.

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