Revista Trasgo #3

A Revista Trasgo é sempre uma ótima opção para quem quer acompanhar a produção de fantasia e ficção científica nacional. Essa terceira edição já estava na minha lista de leitura e até tinha lido os primeiros contos, mas tive uns desandos literários. Agora que coloquei tudo em dia, posso vir aqui dizer pra vocês que esse volume é muito bom e apresentou uma grande variedade de gêneros.

Título: Revista Trasgo #3

Editor: Rodrigo Van Kampen

Autores: Caroline Policarpo Veloso, Claudio Parreira, Gael Rodrigues, Liége Báccaro Toledo, Roberto de Sousa Causo e Tiago Cordeiro.

Ilustrador: Kelly Santos

Editora: Independente

Fantástico, fantasia clássica, realismo mágico, ficção científica. Entre cyborgs, cientistas loucos, guerreiros do deserto e sonhadores conhecemos essa edição #3 da revista Trasgo que se destaca justamente por essa diversidade. Quer saber minha opinião sobre cada conto?

“O Empacotador de Memórias”, de Gael Rodrigues

Esse conto flerta um pouco com o realismo mágico. Nele, Tom busca, ao longo de sua vida, desenvolver um modo de fazer com que as pessoas possam reviver suas memórias mais especiais. A história é um bonito diálogo sobre a importância de lembrar mas também de esquecer, de se apegar e deixar para trás.

Tom tem que lidar com as consequências de ser um empacotador de memórias, aquele que pode trazer dor ou alívio. Inclusive para si mesmo.

Ah, para quem não sabe, realismo mágico é aquela tradição da latino-americana em que uma ficção apresenta fatos inusitados (ou mágicos ou mesmo cientificamente impossíveis) como normalidade. Nesse tipo de texto, o tempo é cíclico e temos essa impressão de que o passado e o presente são uma coisa só. Nem é preciso dizer que esse tipo de texto apela para os sentidos e tem forte preocupação com palavras, sonoridades e ordem frasal. Achei que o autor Gael Rodrigues fez um bom trabalho dialogando com essa tradição.

“Rosas Brancas”, de Roberto de Sousa Causo

Eu já tinha lido um conto do autor na antologia Excalibur (publiquei nessa antologia também), da Editora Draco, e tinha gostado bastante. Também conheço o autor como pesquisador, inclusive usei a tese de doutorado dele na minha dissertação de mestrado. Não me decepcionei com “Rosas Brancas”, que conta a história Mara, uma mulher em busca da filha.

Mara se vê no meio de uma intriga política e tecnológica e precisa utilizar o conhecimento científico de seu ex-marido, Perseu, para barganhar pela filha, Bella. Num cenário de ficção científica com armas avançadas e máquinas incríveis, o conto ganha pela cor brasileira. É sempre bom ver FC de qualidade se passando no Brasil.

“Rosas Brancas” tem uma ótima reviravolta no final e apresenta uma protagonista, Mara, bastante interessante e convincente. Ao que parece o conto faz parte do universo de “Shiroma – Matadora de Ciborgue” e fiquei bastante curiosa para conhecer.

“Feita de um sonho”, de Caroline Policarpo Veloso

Roberta tem sempre o mesmo sonho: está andando contra uma multidão de pessoas. O sonho parece bastante real, mas ela tem medo de ir até o final, pois tem uma estranha sensação de que há algo mais atrás daquilo. No entanto, precisa focar na vida real, uma vez que tem que sustentar a irmã, Suzana, uma vez que as duas são órfãs e não têm dinheiro.

O conto tem aquela premissa ótimas dos sonhos lúcidos, com aquele toque A Origem: o sonho dentro de um sonho e qual seria, afinal, a diferença entre sonho e realidade. No entanto, achei que a autora foi um pouco imatura na condução da narrativa, que explicou demais onde não devia, o que tirou um pouco da tensão. Mas depois vi que Caroline ainda está no Ensino Médio, então tem um bom tempo pela frente para refinar sua escrita. Ideias boas ela já tem.

“Invasão”, de Claudio Pereira

Esse conto é de literatura fantástica; as coisas acontecem como no fantástico, com coisas absurdas acontecendo sem explicação. Sim, absurdo é a palavra de ordem aqui.

O narrador-personagem nos conta de uma tarde especialmente tediosa em que o mais inexplicável acontece: seu apartamento é invadido por pessoas estranhas que usam seu telefone, deitam em sua cama e se apoderam de suas coisas. Numa sequência impossível, o narrador, com muito humor, critica o absurdo do nosso cotidiano. O texto tem uma grande preocupação com estilo que no início me incomodou, mas assim que me acostumei, consegui me divertir.

“Viral”, de Tiago Cordeiro

Apocalipse zumbi na favela. Dois amigos tentam impedir quebrando um misterioso código linguístico. Uma invasão de zumbis. Medo.

O conto de Tiago Cordeiro apresenta uma perspectiva bastante diferente (pelo menos para mim) de contaminação zumbi: um sinal transmitido parece converter todo mundo. Os amigos André e Gabriel descobrem a fonte e tenta resolver um código misterioso para se livrar da praga. O conto alterna entre as tentativas de Gabriel de salvar todos e as memórias de sua amizade com André. Achei que o conto teve uma ótima ideia, mas pecou um pouco no ritmo, que não prendeu e ficou um tanto inconsistente.

“O Vento do Oeste”, de Liége Báccaro Toledo    FAVORITO

Liége Báccaro Toledo (que já foi nossa colunista aqui no LF!) se superou nessa linda história de fantasia baseada na mitologia árabe. Sinceramente, eu chorei no final e me emocionei com cada linha. Liége é uma escritora que vem amadurecendo muito nos últimos anos e eu mal posso esperar para ler mais um livro inteiro seu.

“O Vento do Oeste” conta a história de Farid, um Ahmar, um proscrito, filho de uma humana e do demônio do deserto. Vivendo como um pária durante toda sua vida, Farid encontra Amina Lafta, uma mulher que teve sua filha roubada pelo Vento do Oeste. Sabendo que o destino da garota seria se tornar mãe de um Ahmar, Farid tem que decidir se irá ajudar a salvar a jovem ou compactuar com seu lado mais sombrio.

A noveleta é escrita com maestria: é envolvente e poética. Recomendo imensamente.

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As ilustrações são de Kelly Santos e gostei bastante do estilo dessa ilustradora. Achei que ela desenha muito a temática de fantasia, com muitas dríades e ninfas. O traço dela me agradou bastante.

A revista contém ainda entrevistas muito interessantes com todos os autores. Vale a pena ler!

A edição #3 da Trasgo é gratuita. Você pode ler diretamente no site ou baixar em formato ebook (compatível com kindle, kobo, celulares e tablets) aqui.

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

2 Responses to “Revista Trasgo #3”

  1. Snif. Já pode chorar também? Fiquei bobona aqui com as suas palavras sobre “O Vento do Oeste”, Melissa. Esse foi um texto que eu gostei muito de escrever e fico muito contente quando alguém se sente tocado por ele. A sua opinião conta muito para mim e saber que você curtiu tanto assim algo que eu escrevi me deixa muito feliz e pensando que estou no caminho certo para evoluir e melhorar minha escrita.

    Essa edição da Trasgo está muito boa mesmo. Curti bastante a diversidade dos contos e foi uma honra participar dessa edição com tanta gente talentosa. Além disso, a capa está linda!! Obrigada pela resenha tão top, Melissa! Vou divulgar!

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    • Liége, eu curti demais! Sério mesmo. Você evoluiu muito como escritora e ainda tem muita história pra contar. Eu mal posso esperar para ler mais histórias ambientadas nesse universo, viu. Além do final de O Enigma da Lua, claro, que eu to morrendo de vontade de ler já tem um tempo.

      Responder

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