Por que escritores brasileiros têm que fazer o dobro do trabalho para ganhar nem metade do reconhecimento?

Vou falar uma coisa aqui na lata: a maioria dos brasileiros ainda não gosta de ler livros nacionais.

Que absurdo, você pode dizer, olha aí o sucesso de Paulo Coelho, Paula Pimenta, Carolina Munhoz, Raphael Draccon e Eduardo Sphor? Eles estão sempre nos mais vendidos!




Sim, mas eles são a exceção ainda. Infelizmente. A grande maioria dos leitores de nosso país olham torto para um título escrito por um João ou Mariana (como se o nome John ou Marianne automaticamente elevasse as habilidades de escritor de alguém). Mas não é só isso: os leitores brasileiros são muito mais exigentes quando o título é escrito por um brasileiro do que quando é escrito por um gringo.

Como assim?

Um caso que nos faz ver isso claramente é participar de qualquer feira de livros ou evento literário. No último mês, estive no estande da Editora Draco na Primavera da Libre/ FLI-BH e quando as pessoas descobriam que no estande só tinha livro de autor brasileiro, tinha gente ia embora. Sério. Isso não foi nem uma nem duas vezes. Conversando com outros participantes, eles me relataram a mesma coisa.

As pessoas pensam duas, três, cinquenta mil vezes antes de comprar um livro nacional. Analisam a capa, a sinopse, julgam o nome do autor, de onde ele vem, em que tipo de papel o livro foi impresso, que editora é, se já viu anúncio em algum lugar, se tem alguém recomendando, se tem foto boa do autor na orelha, se tem orelha… Enfim, é uma lástima.

Enquanto isso, qualquer livro gringo é comprado sem maiores questionamentos. Uma olhada na capa, na sinopse, ok. Ninguém se importa se o autor é de Sydney ou de Seattle.

Acompanho a blogosfera literária há muitos anos e já percebo o quanto muitos blogueiros são condecendentes com livros estrangeiros e condenatórios com livros nacionais. O livro tá cheio de cliché? Tem personagens mal desenvolvidos? Uma trama bizarra? 3 estrelas se for estrangeiro. Se for nacional, é imperdoável. Alguns blogs e vlogs inclusivem simplesmente não resenham livros nacionais e quando são questionados, dizem que não tem livros bons no mercado. Sério?

Já li vários livros estrangeiros com problemas de revisão, de diagramação, com capas mal feitas e material de má qualidade. Tem gente que reclama? Tem. Normalmente os aficcionados por livros. Mas se o livro for nacional, tudo ganha uma dimensão maior.

Leia também: Como ler um conto? | Por que brasileiros não gostam de livros de fantasia? | Resenha de Inverso, novo Young Adult de Karen Alvares

No fim das contas, um escritor brasileiro tem que ser duas vezes melhor que um estrangeiro para ganhar a metade do reconhecimento. Tem que ser escritor, revisor, crítico, diagramador, marketeiro, cuidar da capa, da orelha, da foto. Fazer tudo direitinho, sem ter o direito de errar.

Estrangeiro pode tudo. Pode fazer história de triângulo amoroso de vampiro até falar chega, pode nos entupir de livros eróticos que contam a mesma história da mocinha inocente que encontra um galã misterioso. Mas com brasileiros o cliché é imperdoável.

Não estou generalizando. Não estou dizendo que todo mundo faz. Mas infelizmente esse é o cenário que vivencio na internet. Então convido todos vocês leitores a abrir os horizontes, a conhecer as coisas incríveis que têm sido publicadas atualmente no Brasil por autores brasileiros.

Clique na categoria LITERATURA NACIONAL aqui do blog, veja recomendação de bons livros. Claro que nem todo livro brasileiro é bom, do mesmo jeito que nem todo livro estrangeiro é. Mas é preciso se aventurar, buscar, ir de boa vontade e não cheio de preconceito só porque o cara ou a cara nasceu no interior do Maranhão e não no sul da França.

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

36 Responses to “Por que escritores brasileiros têm que fazer o dobro do trabalho para ganhar nem metade do reconhecimento?”

  1. Oi, Melissa. Ótimo texto, e cheio de tristes verdades. Infelizmente não pude ir no Primavera da Libre ( :'( )

    Concordo com tudo, e vejo isso ocorrer diariamente. Além disso, vários blogueiros só querem ganhar os livros dos autores nacionais, dizem que não leem e-book, mas se for de um autor gringo, leem o pdf mal ajambrado só pra dizerem que estão por dentro da moda. Triste mesmo.

    Responder
  2. Concordo muito com você, mas também participei do FLI e tive uma experiência um pouquinho diferente dessa vez – e diferente pra melhor.
    Tive muito contato com crianças e adolescentes que, por vários motivos, creio, não estão tão “encharcadas” com essa mentalidade. Então quando viam que tinha um autor por perto, alguém pra dar um autógrafo ou um marcador personalizado, nossa, elas ficavam radiantes! Muitas delas tiraram foto comigo só pra mostrar que “conheceram um autor de verdade” hahaha achei fofo, engraçado e encorajador ao mesmo tempo! Inclusive vi várias comprando livros nacionais só porque o autor estava ali pertinho e podia escrever uma dedicatória na folha de rosto especialmente pra elas…
    Vi gente chorando porque não podia comprar o livro na mão do autor/a! Isso me emocionou muito!

    Infelizmente essas crianças são as que têm menos condições (financeiramente), mas são as que mais incentivam. O sorriso ao receber um autógrafo, porém, é uma alegria impagável :))
    Muita gente devia aprender com elas a não levantar o nariz e dar valor ao que tá bem do seu lado 😉

    ps.: inclusive levei todos os meus alunos no estande da Draco HUE

    Responder
  3. Adorei o texto. Eu sinto bastante isso. Eu tenho tantas amigas que leem, mas elas não querem ler o livro que eu escrevi. Se chega alguém recomendando qualquer merdinha dos EUA, elas se animam na hora. O lance é que já são poucas as pessoas que curtem ler no Brasil, e a maioria só quer ler livro estadunidense. Complica muito. Confesso que já cheguei a considerar escrever em inglês e só me preocupar com o mercado internacional. Porque a maioria das editoras brasileiras parecem mais tradutoras.

    Responder
  4. @Heitordealmeida

    Olá.
    Eu entendo o que você diz e vejo verdade nisso. De minha parte, eu até leio alguns autores nacionais e vejo que, ao contrário, acho que sou condescendente com eles, aliviando um pouco as criticas e pego mais pesado com os estrangeiros. Entra ai a questão do gosto pessoal também. Por ter contato com alguns (poucos) escritores, eu sei da dificuldade que é publicar um livro e ser vendido.

    Não gosto de Draccon. Li 4 livros dele (1 emprestado e 3 eu comprei) e não gostei de nenhum. Não leio Munhoz. A temática dos livros dela não me atrai. Li Sphor. Gostei dos livros. Por outro lado eu também recomendo o “Império de Diamante” do J.M. Beraldo, Maretenebrae do L.P. Faustini e R.M. Pavani, que tem sim suas falhas, clichês e tudo o mais, mas eu sempre recomendo. Um exemplo disso é o “Crônicas dos Senhores de Castelo” que é uma mistura danada de um monte de coisas e mesmo assim, por entender que o público alvo deles era de uma faixa etária diferente da minha, eu fiz uma boa avaliação do livro. Sem falar o André Vianco (que eu não tive oportunidade de ler) e o Eric Novello, que eu li e gostei também.

    Não posso falar por todos, claro. Falo por mim ao dizer que, embora tente ler livros nacionais, a proporção ainda é pouca, mas eu tento incentivar como eu posso.

    Responder
  5. Mel, que post FABULOSO! 🙂
    Falou e disse, concordo com tudo. Autor brasileiro tem que ralar por vinte, fazer 500 profissões ao mesmo tempo, e aí muita gente ou não lê/compra simplesmente porque… é nacional. E quando lê, faz birra com uns defeitos que peloamordeDeus, nunca sequer mencionam em livros estrangeiros. É cansativo. E toda vez que eu vejo gente postando fotos de uma porrada de livros que comprou estrangeiros a qualquer preço tenho vontade de chorar. Quando é pra comprar um livro nacional é uma choradeira danada; reclamam do preço, reclamam do frete, reclamam de tudo, pede-se desconto, pede-se o livro de graça. E quando você vê aquele famoso “espero poder ler”. Como assim “espera”? Você pode ler, é só ir ali e comprar, físico ou e-book. O povo torce o nariz pra comprar e-book de 2 reais. É de chorar.
    Concordo com o Heitor que comentou acima; às vezes tenho medo de até ser condescendente nas minhas resenhas de nacionais. E isso é a via contrária da discussão: faço isso porque há autores que não entendem que opinião é opinião, e que críticas devem ser levadas em conta também. Há alguns que simplesmente tapam os ouvidos e chamam opinião de recalque. Aí dá medo de resenhar – especialmente sendo autora também. Sou autora, mas sou leitora também, e se critico algum ponto, é porque acredito que o autor possa melhorar. Tem esse lado também, e é tenso.
    Enfim… ando deprimida. Esse post é um desabafo e apoio totalmente.

    Responder
  6. Olá, Melissa! Bem tenho que concordar com o Heitor quanto ao gosto pessoal. Vou dar um puxão de orelha, se vc me permitir, nas editoras grandes, que poderiam dar um apoio aos escritores nacionais, mas preferem ficar na panelinha.

    Também concordo com a Karen. Eu mesma acabei comprando um livro nacional por R$60,00 e só gastei esse valor porque era nacional e o livro é bem simples com capa mole. Ultimamente não estou gastando esse valor nem com os livros do Stephen King, o meu autor preferido. rsrs

    A maioria das minhas leituras ainda é de autor estrangeiro, mas faço questão de divulgar e ler os autores nacionais. A questão é realmente cultural, o Brasil é um país que importa muito a cultura estrangeira e deixa a sua de lata. Alguns chama isso de síndrome de vira-lata, onde tudo que é brasileiro é ruim. Até mudar, isso, querida Melissa, vai demorar. O que peço é que autoras como vc e a Karen e editoras como a Draco não desista, pois vcs têm público sim.

    Abs!

    Responder
  7. Oi, Mel.
    Concordo em parte com o seu ponto de vista.
    Entendo que muitos leitores tem preconceito contra livros nacionais, mas isso não significa que a vida dos escritores gringos seja mais fácil. Já li muitas biografias de autores estrangeiros que hoje fazem sucesso, mas que ralaram muito até conseguir um contrato com uma editora. Acontece que quando o livro chega ao Brasil, ele já fez sucesso lá fora e o leitor acaba sentindo como se isso fosse um selo de qualidade.
    Acho que o pior é o preço do livro nacional, que acaba pesando na hora da escolha. Comprar um nacional “desconhecido” por 40 reais ou dois “best sellers” gastando o mesmo? Eu trabalho muuuuito para ganhar pouco, então tenho que pensar muito sobre meu orçamento. A vida não tá difícil só para autor não! rs…
    No meu caso, como blogueira, evito ler muitos nacionais porque já passei por muito perrengue com autor imbecil. Juro para você que não sou tão crítica assim… Costumo até ser menos crítica com os nacionais porque sei de toda a dificuldade, mas de 10 livros nacionais que eu leio, pelo menos 4 são horrorosos, com erros bizarros de português. Outros são aceitáveis e só uns 3 são realmente bons. Depois a gente faz uma resenha negativa e o autor vem tacando pedra, chamando os amigos para xingar a gente nas redes sociais.
    Dá para confiar?
    Beijos
    Camis – Leitora Compulsiva

    Responder
    • Camis, meu livro novo tá R$ 23,90 na pré-venda da Draco. Há salvação nos preços para alguns livros! <3 (sim, não tá fácil pra ninguém no quesito $, concordo mesmo). A minha solução também para a leitura de nacionais é comprar em feiras e investir em e-books, que tem vários baratinhos.
      Sobre o que você falou de alguns autores não aceitarem críticas – é fato. Sempre que eu tenho que resenhar criticando, dando menos estrelas, fico receosa. Já sofri com isso também e, no meu caso, ainda há o agravante de eu ser autora e as pessoas não entenderem que eu também sou leitora e blogueira, então sim, eu leio livros e falo deles.

      Responder
  8. Acredito que muito dessa postura do leitor seja de nossa cultura de ver tudo o que é de fora como “melhor”. O brasileiro ainda está tomando consciência de suas qualidades, mas falta muita divulgação, reeducação e incentivo à leitura para haver um progresso mais significativo.

    Se serve de consolo, recomendo obras de um amigo meu, o escritor Luiz Hasse. Procurem por “O Cavaleiro Feérico”, aventura de fantasia medieval que deixaria Tolkien orgulhoso, e “As sete Chaves do Caveira”, livro com sete contos em que um jovem com habilidades mediúnicas que houve apelos de espíritos, e se torna um vigilante mascarado para trazer justiça às almas atormentadas por assassinos impunes. Isso no melhor estilo noir.

    Também temos Rio: Zona de Guerra, de Leo Lopes, publicado pela AVEC Editora. Um excelente livro ambientado num conturbado Rio de Janeiro num futuro estilo Blade Runner. Fãs de ficcão científica de ce cyberpunk vão adorar!

    E para aqueles que adoram um pouco de medo, recomendo as obras da Mondo Estronho Editora. Uma vasta galeria de títulos nacionais com ótimas obras que fariam até o Lovecraft tremer.

    Enfim, bom material feito aqui existe aos montes, basta dar uma chance a eles. Claro que tem outras obras que não são tão boas, mas se não procurarmos, não saberemos a diferença, certo? Abraços e boas leituras!

    Responder
  9. Mel, você não está coberta de razão: está soterrada. Existem tantos livros bons e ruins no Brasil quanto lá fora. É claro que vários livros já vêm para cá com uma aprovação internacional: este livro está fazendo sucesso lá fora, best-seller do New York Times, vai ter um filme/seriado desse livro, etc e tal. Enqto q aqui, quando nos damos ao trabalho de fazer adaptações, é só de clássicos, como Machado, Alencar e Eça. E best-seller (da Veja) é Paulo Coelho.
    Mas julgar um livro pela nacionalidade dele ou se é famoso ou não lá fora é a mesma coisa que julgá-lo pela capa. Quer saber se um livro é bom? Leia-o. Não sabe se quer comprá-lo? Leia a sinopse; e então, abra-o na primeira página e leia-a. Se você sentir vontade de virar a página, então talvez você devesse comprá-lo. E se você automaticamente virar a página e continuar lendo, ali, de pé no meio da livraria, e quando se der conta você já está indo para a 4a página, então você com certeza deve comprá-lo!
    Quem realmente gosta de livros não se importa se o autor é brasileiro ou estrangeiro, mas sim com o quanto aquele 1o parágrafo prendeu você.
    E suas recomendações de livros nacionais são ótimas! Confio muito!

    Responder
  10. Tenho visto muitos blogueiros abrindo os braços para os nacionais, mas realmente há muitos outros que nem se dão ao trabalho de olhar o livro quando o autor é brasileiro. Mas quero crer que essa realidade começa a mudar. Acho que já estivemos pior, especialmente no que diz respeito à fantasia.
    Para ilustrar o problema: meu marido é autor de livros de informática e, alguns livros técnicos depois, um editor convidou-o para publicar auto-ajuda (obviamente ele tem base para isso). Mas para não confundir o público, o editor pediu que ele escolhesse um pseudônimo e que pelo menos o sobrenome fosse estrangeiro. Explicou que o público brasileiro tem uma percepção de valor muito maior dos autores “gringos”. Segundo ele, nome brasileiro não vende.
    Enfim, temos muita porcaria sim, mas temos muita coisa boa também, assim como acontece em todos os mercados, incluindo o americano, o inglês, o francês etc. Acho que as editoras desempenham um papel crítico nesse cenários e precisam ajudar mais na educação do mercado valorizando e expondo os livros brasileiros.
    Procuro não me deixar abater e tento contribuir com o meu “pouquinho” para mudar essa realidade. Se mudaremos ou não, não sei, mas quero ter esperança.
    []’s

    Responder
  11. Flavio P. Oliveira

    Exato, você está 99% certa, rs.
    Bom, mais da metade dos livros que eu leio são escritos originalmente em português, pois também leio muitos livros de portugueses. Acho a literatura dos USA bem fraca, não gosto dos ingleses atuais e, quando não compro livro de autor nacional ou português, procuro a literatura latina.
    🙂

    Responder
  12. Abel Ortiz

    Vou bancar o advogado do Diabo, porque acredito que toda história tem dois lados e porque vejo certa justificativa no que vês como exigências despropositadas. Mil perdões! Digo isso pois sou um desses que pensa duas, três, cinquenta mil vezes antes de comprar um livro nacional. Nem tanto pela capa e nome do autor, de sua ascendência e sua localidade. No entanto, a sinopse sempre vejo, sempre dou uma folheada, tento averiguar o estilo, os diálogos, toda a vida. Isso acontece porque, quando corro atrás de um nacional para ler, e digo aqui mais para o mercado de massa, mesmo, eu não tenho as garantias das quais geralmente disponho quando estou comprando um livro estrangeiro.

    Estou falando de que, quando se é publicado um livro de outro país aqui, o original já passou pelo processo de edição em seu país original. Países europeus ou norte-americanos têm, como pode saber, uma cultura editorial de intervenção no texto muito mais forte que aqui no Brasil: lá, o editor corta mesmo,mete a caneta, sugere e faz um pouco de tudo que aqui em território nacional acontece de maneira um pouco mais hesitante. Por algumas razões sobre as quais não convém discorrer, sempre sinto que romances de fantasia brasileiros estão mais próximos do first draft que um de outro país, que já foi editado várias vezes, e então traduzido e novamente editado pela editora brasileira. O original gringo que, aliás, já foi publicado, “testado” no mercado estrangeiro e gabaritado como um livro de leitura válida.

    Por isso, quando vejo um livro nacional, o risco é maior – é um livro mais “virgem”, entende?

    Mas não sou desses que dá meia-volta quando vê um livro brasileiro; ao contrário, pego e dou uma olhada mais demorada. Ainda mais quando estamos querendo saber a que ponto anda o nível da escrita dos nossos compatriotas, é algo que se faz, não é? Vejo com mais atenção; afinal, é aquele cara que quem sabe mora até mesmo perto de mim! E esse olhar com atenção, que faz com que as pessoas sejam exigentes, não devia ser mais glorificado do que condenado?

    Ou preferem que o leitor engula o livro brasileiro lendo pulando parágrafos quando está chato, folheando para passar o tempo, assimilando o conteúdo sem pensar, sem ler de verdade? Pois é o que acontece com o livro estrangeiro de má qualidade; ele é só assimilado, quando não largado de vez. Mas no brasileiro, queremos saber o que está sendo feito, e queremos material de qualidade, do qual possamos nos orgulhar, para dizer que, poxa, outro carioca escreve tão bem quanto, sei lá, Stephen King. E eu acho isso bom! Devemos mesmo pegar pesado, se quisermos que nossos escritores subam mais o nível, sejam o crème de la crème das nossas estantes.

    Também, afinal, pode haver vinte livros estrangeiros clichês, mas também haverão novecentos razoáveis ou bons. O volume de traduções é muuuito maior que os de nacionais, então queremos que as poucas coisas que de fato chegam às livrarias dos nossos colegas brasileiros façam valer a pena essa espera, essa escassez toda. Afinal, a escolha é supostamente tão mais seletiva, tão mais criteriosa. Não é natural ser mais exigente nesses casos?

    Acho que a grande questão não é que deveríamos ser menos exigentes com os nacionais, mas mais exigentes com os estrangeiros, também. Só que é a lei do menor esforço: não dá pra ser chato com a vida toda, então sejamos chatos com o que dá para alcançar. Lauren Kate nunca vai saber se eu não gostei do trabalho dela, nunca vai ter como ouvir meu feedback e melhorar. Já o Eduardo Spohr? Ele é bem mais acessível.

    Responder
  13. E voltamos à Síndrome do Capitão Barbosa, né? Lembro de ter lido num blog literário que o rapaz estava numa feira do livro com uma amiga e ela curtiu a capa do A Batalha do Apocalipse. O nome do autor passa a impressão que o livro é de fora, mas quando ela leu sobre uma batalha no RJ, ou sobre a ponte Rio-Niterói (ou algo assim), ela largou o livro na hora. O amigo ficou “ué?”, e o preconceito dela era com literatura nacional, que ela não lia.

    Sendo bem sincera, eu também tinha preconceito, mas isso vinha da escola. Aquela obrigação de ler literatura brasileira rebuscada onde a gente não entendia nada acabou criando um asco em mim. Felizmente descobri que era tudo uma má impressão infundada. Li e leio grandes livros brasileiros, bem feitos, com aventuras e personagens incríveis que acho que o público em geral deve conhecer. O escritor brasileiro é cobrado por tudo, até pra explicar a tecnologia que a nave no enredo dele usa. Se não, é um zé ruela.

    Não existem temas chatos, existem autores chatos e eles podem ser tanto nacionais quanto estrangeiros. Esse papo de execrar nossa literatura nacional já passou da hora de existir. 😉

    Responder
  14. Oi,

    Acho que realmente você tem razão. Como leitora, venci meu preconceito há alguns anos e não me arrependi, descobri obras maravilhosas, autores super atenciosos e talentosos e um mundo cheio de literatura.
    Gostei muito do seu post, parabéns por expor sua opinião de forma tão bem expressa.

    Responder
  15. Nossa, o texto é excelente. Como alguém que cansou de ser provado e submetido a milhões de exigências para somente ter um livro analisado, sinto que esse é um texto que me dá voz. Como autor iniciante, estou a menos de uma semana envolvido num site, wattpap, amazon e uma série de outras ferramentas que me dê suporte para ser minimamente conhecido e lido. Não tem sido fácil. Em seis dias já sinto vontade de desistir, mas pus na cabeça que não vou. Pelo menos não até o domínio fazer um ano. E é nesse meio tempo que – já sinto – terei de dar o sangue para pelo menos ser provado pelos que tentarem dar uma chance às minhas histórias. Enfim, espero conseguir e espero que o mercado editorial mude… apenas >.< http://www.psoliver.com.br

    Responder
  16. Melissa, li o seu texto e ao longo do dia algumas questões ficaram matutando na minha mente. Não tenho preconceito com literatura nacional, apesar de não ter gostado de alguns livros que, mesmo muito bem-escritos, não me conquistaram, O que, claro, nada tem a ver com o fato deles serem nacionais. Mas eu fiquei pensando, isso não seria um “Efeito Paulo Coelho”? Não entrarei no mérito da qualidade literária, mas um dos autores mais vendidos no mundo, e no Brasil, é brasileiro. Mas ele se tornou sinônimo de literatura ruim e seus leitores ficaram marcados como pessoas sem conhecimento literário. “Pega mal” ler Paulo Coelho. Eu mesma já li uns oito livros dele, mas quem disse que saio falando por aí? Assim, até que ponto essa ojeriza tomou conta da literatura nacional e “pega mal” ler livro brasileiro. Culto é ler livros estrangeiros, mesmo que sejam ruins de doer.

    Responder
  17. Sou um escritor e estou “na estrada a alguns anos tentando alcançar o reconhecimento pelo meu trabalho. Só de publicação a minha primeira publicação já quatro anos. Sei exatamente como é concordo com boa parte do que está escrito. E vou além, as vezes o nome vende, mesmo que a estória não seja agradável.

    Responder
  18. Melissa, adorei o seu post. Acho que todo mundo que escreve já sentiu isso na pele. Fiquei triste quando você falou sobre as pessoas se afastando do estande, e imagino isso acontecendo. Eu penso na minha própria realidade: poucas são as pessoas próximas de mim que querem ler o que – eu – escrevo. Na minha família, por exemplo, nunca ninguém se aventurou. Amigos próximos foram no máximo dois, três. E juro que não estou reclamando e nem é maldade das pessoas. É que acontece o seguinte: já são poucas as pessoas próximas de mim que têm o hábito da leitura. Das que têm, ainda temos que selecionar quem curte o gênero e a temática do que eu escrevo. Sobra quase ninguém, que, muitas vezes, ainda vai preferir ler um autor que já conhece, que já é experiente, investir em best sellers estrangeiros, etc. Extrapole essa realidade e teremos o que acontece com o público em relação ao autor nacional.

    Uma coisa que me deixa chateada é essa proliferação de gráficas travestidas de editora que ludibriam iniciantes e colocam muito material bruto, sem o mínimo de cuidado, no mercado. Realmente existe muita coisa ruim, descuidada mesmo, por aí e as pessoas que entram em contato com isso acabam se afastando mais ainda da literatura nacional. Isso certamente dificulta nossa vida. Mas, como você falou, já peguei muito livro estrangeiro com escrita ruim, com erros também… enfim….

    Haja autoestima, viu XD. Eu já desanimei inúmeras vezes, mesmo porque a parte financeira dói e acabo não tendo condições de contratar revisão, leitura crítica, etc. Então, sei que cometerei erros e sei que posso estar me queimando. Tenho medo, sinceramente, de ser mais uma contribuindo para o povo falar “ah, lá, tá vendo? Literatura nacional não presta”. Mas continuo porque gosto muito e nada consegue me tirar o prazer de escrever. E se eu não escrever e não der a cara a tapa, não vou saber onde estou errando e não vou evoluir. Mas que é difícil, é.

    Responder
  19. Olá Melissa,
    Concordo em parte com a sua publicação, mas o objetivo final é o mesmo kk. Eu acrescentaria uma parcela de culpa pela falta de interesse dos leitores brasileiros às editoras. Especialmente a falta de publicidade e divulgação das obras brasileiras. Não é dado pelas editoras a mesma atenção, investimento em promoções, book trailer e em alguns casos sequer uma postagem nas redes sociais, como se é feito com as obras internacionais. Acredito que as editoras podem contribuir e muito para melhorar esse cenário.

    Responder
  20. Cara Melissa,
    publico autores nacionais e primeiros livros há mais de 30 anos. Na minha editora, há 15. Claro que também há estrangeiros, mas só os clássicos. Mas são uma parcela infinitesimal do catálogo. Nunca presenciei uma cena dessas, de pessoas se retirando porque não tenho autores estrangeiros. Ao contrário, consigo vender autores nacionais e desconhecidos, porque o livro chama a atenção e cumpre seu papel na venda. De ilustres desconhecidos. Quem pode ser conhecido hoje em dia? Temos nichos de autores, cada qual vende no seu, ou encontra seu público. Isso que tenho feito. O mau hábito de se ler só estrangeiros vem do domínio econômico das grandes sobre o mercado interno. Estou lendo um livro da Record que achei interessante, mas tem tantos erros de tradução (e o texto é tão chato), que às vezes desisto de ler antes de pegá-lo novamente por causa do assunto.
    Eu sei que o seu relato é verídico, porém temos de trafegar na contramão. Dar um pouco de tudo. Um pouco de autores estrangeiros (com comedimento) e muitos autores nacionais, bem editados, bem revisados, porque, como você disse, não podemos errar nunca. E nisso eu concordo com você.
    Esse mau hábito vem desde sempre. O que for estrangeiro é melhor, até descobrirmos que o nacional supera qualquer um. Temos tantos bons textos e bons autores, apenas não são lidos, não circulam onde deveriam circular, no lugar de vampiros, monstros e bruxos.
    Há que se fazer uma nova literatura para novos leitores, nem que seja ensinar desde o começo. Muita preguiça e muita saúva os males do Brasil são!
    Abração. Thereza Christina

    Responder
  21. Ótimo texto, não poderia concordar mais. Acho inclusive que quem lê mais literatura nacional são os novos escritores brasileiros, que sabem o valor de ler o que temos por aqui.

    Responder
  22. Melissa, estive na 15ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, onde pude constatar casos muito parecidos com o da Editora Draco. Infelizmente, o preconceito existe sim e é grande. Resolvi comentar aqui com o intuito de, quem sabe, agregar um pouco mais de abrangência no tema, pois no meio em que eu atuo como escritor (poesia), encontramos exatamente este tipo de preconceito que você descreve no post, além daquele velho preconceito de que um poeta bom, é um poeta morto. E pra ser poeta bom hoje, contemporâneo, tem que ser tipo artista de rua, loucão, etc.
    Enfim, é um panorama que muito nos entristece, mas lutar é preciso, e parabéns pelo texto, que enfrenta a situação de uma maneira brilhante: escancarando a verdade para quem quiser entender.
    Que sua publicação cure alguns corações de leitores e os abra para boas experiências com livros nacionais!
    Abraços de MG.
    Bruno Félix

    Responder
  23. É lamentável. Usar o argumento de que não temos bons autores brasileiros é frágil. Mas isso se dar por causa dessa ideia de que “o que vem de fora é bom”.

    Os que não leem os seus próprios autores, não constroem identidade. Quando se deparam com quaisquer problemas nacionais, querem arrumar a mochila e irem embora.

    Responder
  24. Excelente texto Melissa, Participando da mesa de debates do Encontro Sagas, ouvi dos autores nacionais, mesmo os de grupos editoriais como a Gutenberg e a Madras, tem dificuldade em se colocar no mercado editorial. Por dois motivos, serem nacionais, preconceito mesmo, gente que nem olha o livro se o autor é nacional, e falta de atenção dos distribuidores. Não sei se alguém já entrou numa livraria grande e procurou por autores nacionais nos expositores (não nas prateleiras), nos Fantasia/Sci-Fi/YA que sempre estão na frente da loja, quase não há brasileiros, só JP Pereira e Sphor (será que é por causa do sobrenome?) e o Raphael Draccon, que na minha opinião não é muito bom, há o Beraldo, o Novello, a Merege, o Kasse a Karen Alvares, Renan Carvalho, Orsi, a Melissa – autora do texto – e muitos outros bem melhores que ele. O autor Eduardo Kasse, também presente no evento, disse que existe quem compre o seu livro só por pensar que ele não é nacional e se surpreende quando descobre se tratar de um brasileiro. Outro problema que foi levantado é a classificação do livro quanto ao gênero pelos distribuidores, livros nacionais vão para prateleira de nacionais e nunca chegam aos expositores de YA ao lado dos Greens da vida ou Fantasia ao lado dos GoTs, quando não são confundidos com livros de história, sociologia ou sei lá o que. O autor que já teve uma batalha longa, anos de estudo, concursos, livros rejeitados e aprendizado quando consegue uma chance numa editora (não estou falando das Vanity Presses – editoras por demanda) ainda tem que ralar para ver seu livro bem exposto e chegando aos olhos do consumidor.
    A cereja sobre esse bolo de descaso são alguns blogueiros, além dos que você citou que ainda leem nacionais, há os que tem verdadeira ojeriza e se recusam a divulgar e mesmo ler material de autores brasileiros. Para além do preconceito de alguns blogueiros, vale observar que muitos autores, ao invés de encararem a batalha citada no parágrafo anterior, optem pelo caminho mais fácil mesmo, as Vanities, e o material seja um pouco mais que sofrível em 90% dos casos e dá trabalho garimpar coisa boa.
    Cabe aos brasileiros apoiarem os brasileiros, quem vai à livraria devia perguntar sobre os nacionais, insistir, mostrar que temos mercado para nós mesmos. Eu prefiro os vira-latas, mais dóceis, fieis e inteligentes que muitos pugs.

    Responder
  25. Stephanie Pradella

    Menina, vou te falar… Eu já fui blogueira literária e nessa coisa de conhecer um autor aqui, outro ali, eu acabei lendo muita, mas muita (perdão) porcaria nacional. Aí eu larguei mão e fiquei só com os clássicos brasileiros, que, aliás, eu adoro. Por favor, autores atuais, inspirem-se nos clássicos! Aliás, acho que, dentro da lista dos livros nacionais ruins está um erro fatal: O de o autor não se inspirar. O de pensar “Quero que isso seja original, quero algo que saia só da minha cabeça!”, mas, gente… se a gente escrever usando só a nossa cabeça como referência, vai sair uma história com cara de sonho! E é assim mesmo que essas histórias saem, com cara de sonho. Sem sentido, bagunçadas, bizarras, sem-noção. E, infelizmente, tem muitas por aí. Acho que cultura e educação tem culpa nisso também.
    Enfim, tive essas experiências ruins e deixei os nacionais de lado por um tempo… Até que, um dia, uma amiga minha me pediu emprestado o livro Fallen, e me emprestou o que ela tinha em mãos, um tal de Sangue de Lobo. Muitas páginas, uma capa estranha, duas autoras que eu não conhecia, Rosana Rios e Helena Gomes, e lobisomem como tema central. Pensei “Ok, em nome da amizade, vamos lá”, e eu fui. O resultado foi que eu nunca devolvi o livro a ela, e ela acabou me deixando ficar com ele. Que história boa! Nada bizarra, muito consistente e rica. LEIAM ESSE LIVRO, POR FAVOR. Acabei restaurando minha fé nos autores brasileiros, acabei voltando a comprar e ler obras nacionais, mas que a maioria ainda não sabe o que tá fazendo e que escorrega querendo ser original, isso é fato, então eu compro e leio, mas penso mil vezes, sim.

    Responder
  26. Livio Meireles

    Você está certíssima! Além de uma outra vertente que você poder colocar também no seu post: As várias editoras e publishers que preferem investir comprando qualquer coisa lá fora do que investir no autor nacional! Isso também deve ser colocado! Muito lixo internacional foi e é nos empurrado como o último grande best seller lá fora e na realidade é mais do mesmo! Viva aos autores nacionais! Eu que trabalho como agente literário sei muito bem como é isso!
    Abaixo o preconceito!

    Responder
  27. Ricardo França

    Após os extensos comentários acima acho que sobraram poucas idéias a discorrer sobre os pesos dados aos autores nacionais. Porém, como consumidor vejo distintas pressões evolucionárias a atuar sobre nossos autores iniciantes: Visibilidade diferenciada de um autor já testado e explorado antes de ser editado/traduzido (por isto é que pessoas públicas ou com conhecimento oriundo de outras mídias sempre saem com valores bons de vendagem nas suas estréias); Atratividade de certos temas e estilos de escrita (o decalque sobre os modelos conhecidos tem dois lados de efeitos opostos – o da redundância e o da familiaridade); Necessidade de um suporte editorial competitivo sobre as peculiaridades pessoais e interesses voláteis do leitor (boas capas e promoções, pesquisa/percepção sobre os reais interesses do público-alvo, exploração do orgulho indireto de vinculação pessoal); E, … least, but not least … divulgação e acesso a indicações públicas ou de conhecidos para facilitar a filtragem, pois os recursos de tempo/dinheiro devem sempre ser levados em conta como parâmetro de escolha sobre um ou outro autor ou obra.

    Inexistem praticamente, fora das blog/vlogosferas e das endogâmicas redes sociais, propostas de incentivo não acadêmicas aos jovens leitores. Considero este traço coletivo como um eco de uma época cuja característica é a desconfiança imposta sobre a mera alienação fantasiosa ou sobre o questionamento crítico, associado a um cotidiano com questões sociais ainda tão prementes e de novidades chamativas ao imediatismo habitual de nosso povo.

    Responder
  28. Curti o texto! Sinceramente, ele me fez pensar sobre mim mesma como leitora, porque eu realmente nunca prestei atenção se dou mais ‘canja’ pra estrangeiro ou brasileiro quando comento no meu blog. Não sei dizer mesmo. E imagino que talvez muita gente também não saiba, faça isso no modo automático. Curti seu texto porque ele foi tipo um puxão de orelha pra ficar atenta. Mas fiquei pensando também que existem vários lados. Claro que tem sim o que vc falou, mas também tem um monte de outras questões: desde que comecei a procurar coisas nacionais pra ler, topei com muita coisa legal (sem puxação de saco, as suas coisas estão entre as que mais curti :D), mas também topei com coisas que não consegui não virar a cara, e nem falo de “autor menor”. Não curti o único livro do André Vianco que li, e não fui muito fã tb do livro do Eduardo Spohr que comprei (mas reconheço o papel e importância dele, tanto que considerei opinião pessoal e passei pro meu irmão). Aí vem aquela coisa: já teve autor que foi no meu blog não curtir muito o que falei, mas também teve autor (como o próprio Spohr – até assustei no dia) que foi lá super de boa. Dependendo da reação, assusta mesmo.
    Mas também penso que não rola sempre de separar em nacionais e estrangeiros. Como li ultimamente num artigo, estrangeiros tem cursos, faculdades próprias só pra quem quer ser escritor. Isso obviamente não é atestado de qualidade (tanto que um dos últimos livros estrangeiros que li tinha cara de seguir fórmula de curso e eu achei uma p****), mas acaba aumentando a possibilidade de que eles tenham livros melhores e uma variedade melhor.
    Também tem a questão de que (aí tem o preconceito sim, né, mas das editoras) eles recebem um investimento absurdo e ganham capas chamativas que garantem um público mais novo e facilmente impressionável (jovens), mas mesmo que isso seja injusto, não acho que tenha a ver com qualidade. Como vc disse, autor brasileiro tem que fazer de tudo, e aí acaba tendo que se virar com capas e produções mais simples, o que acaba perdendo público em livrarias. Enfim, tem um monte de questões controversas aí, mas eu sou sempre a favor de que tem que manter o lado positivo, como falaram aí das crianças que ficavam felizes em conhecer autores. Quem sabe focar nesse público que ainda não tá tão preso em um tipo de consumo só? Não sei o que funcionaria, mas acho que vale tentar (seja lá quem for) procurar maneiras criativas de contornar isso. É o único jeito, né?
    Tá, falei demais, to assim ultimamente. Só queria dizer que curti o puxão de orelha pra prestar mais atenção nisso! 🙂

    Responder
  29. O problema não está nas editoras oferecerem uma gama enorme de livros e autores estrangeiros nos catálogos (sinceramente, acho que nos “comedir” e nos limitar aos clássicos lá de fora, como nos limitamos com os nossos próprios clássicos, é uma espécie de alienação e uma postura que não deve ser mantida, de forma alguma), e sim no fato de que elas não dão as mesmas chances para os autores brasileiros, a mesma atenção e capricho. Claro que o mercado editorial daqui não é a raiz de todo o mal, mas acho que ele opera em um nível muito diferente do mercado estrangeiro. Por exemplo, poucos escritores nacionais contam com agentes literários, muitos sequer sabem bem o que é isso. E menos escritores brasileiros vêem os seus trabalhos serem publicados lá fora, não necessariamente em espanhol ou italiano, que são línguas levemente mais próximas da nossa.

    Alguém acima comentou que muitos dos trabalhos que são publicados de autores jovens aqui têm aquele ar de “first draft”, ou seja, primeiro rascunho. Não creio que seja verdade em todos os casos, mas em muitos parece que é, sim. Boa parte dos livros de fantasia nacionais que li tem uma quantidade absurda de info dumps logo nas primeiras páginas, carga direta, sem diluir. Esse tipo de técnica afasta ou sobrecarrega o leitor, e é algo que nenhum bom editor em sã consciência deveria deixar passar de modo cru, bruto. Como falei, não acredito que todas as editoras sejam assim, mas muitas, muitas mesmo, parecem ter essa falta de zelo com o autor nacional, principalmente aquele jovem esperançoso, cheio de sonhos, e que almeja emplacar uma trilogia logo de cara.

    Quando acontece de um livro nacional dar certo, um livro de fantasia para os propósitos do blog, a gente também não vê as editoras tentando vender o peixe do autor lá fora, em países que consomem esse gênero com vigor. Nós temos a nossa própria versão do “mais do mesmo” que vem lá de fora, e muita coisa fica esquecida, escondida nas prateleiras das livrarias, catálogos de loja, ou é simplesmente ignorada pela blogosfera literária. Às vezes fico pensando que, talvez, fosse mais fácil tentar vender esses produtos, esses livros que não encontram voz aqui, em terras estrangeiras, onde o autor brasileiro pra quem o nosso público vira a cara sem dar nenhuma chance, poderia parecer exótico. Enfim, temos que dar é um puxão de orelha (também) nas editoras.

    Responder
  30. Fabio Oliveira

    Eu não gosto da maioria dos autores brasileiros por um simles motivo: Eles são preguiçosos.
    Eles não fazem uma pesquisa decente antes de escrever um livro (principalmente quando é fantasia ou um romance histórico) e quando alguem aponta um erro eles argumentam como “licensa poética”
    O maior exemplo disso é o Orlando Paes Filho com a série Angus. Esse autor clamou ter eito mais de uma década de pesquisas sobre as invasões nódicas na bitania e mesmo assim cometeu vários erros históricos, escreveu absurdo em cima de absurdo e revelou que seu conhecimento era fruto de uma simples pequisa de meia hora na internet e nada mais.

    Os autores brasileiros que NÃO são preguiçosos e que fazem uma pesquisa decente antes de escrever são apenas 3 (que eu conheço)

    Felipe Castilho (Melhor dentre eles)
    Raphael Draccon
    Leonel Caldela

    Esses sim, merecem mais do que recebem

    Responder
  31. Grande Melissa!
    Uma matéria muito boa sobre o preconceito literário, sem dúvidas. Também enfrento esse grande público com o máximo que posso, trabalhando não apenas em escrever, mas estudando e virando noites aprendendo o desenvolvimento que possa ser de agrado de um leitor “chato” (as mazelas de ser independente).

    Um livro que posso recomendar, nacional, que achei de ótima qualidade é “O Santo de Ciactriz”, de André Luiz Alvez. Um autor de MS que escreveu uma história com cenário sendo o próprio estado, as terras pantaneiras foram muito bem retratadas por ele e tem aquele gostinho de história de avó sobre os tempos na fazenda, sabe? http://www.skoob.com.br/o-santo-de-cicatriz-399541ed452601.html

    Responder
  32. Cleide Pires

    Você definiu meu ponto de vista exatamente como penso. Não adianta ,sei que eu estou sendo pessimista, mas pelo que vejo nos grupos de leitura que frequento penso que esse cenário de preconceito não vai mudar. Há muitos tempo isso vem acontecendo, parece algo irreversível mas não impossível. De dez livros citados raras as vezes que um brasileiro aparece .Triste.

    Responder
  33. Reinaldo José Nunes

    Olá, eu leio livros nacionais, e as vezes consigo ter a sorte de ler ótimas obras.
    Vejo que o problema da literatura nacional, pelo menos em alguns, é que não há acompanhamento da editora, alguém pra dizer “olha, essa história pode ser mais desenvolvida, opa, isso aqui não fica legal”. Simplesmente pegam, editam o texto como veio e lançam. É essa impressão que tenho pelo menos com a maioria dos livros da Novo Século, sob o selo “talentos da literatura brasileira”. Ontem mesmo terminei de ler um livro que, na boa, não sei como que foi publicado: história confusa, personagens rasos demais, mistura de ideias.. enfim, terminei o livro sem entender o propósito da história. A premissa era ótima, mas foi muito mal aproveitada.
    Em contrapartida, mês passado li outro livro nacional, publicado por outra editora.. tem que ver o nível dela. A história tem sentido, as coisas acontecem de forma progressiva (não cuspida, como no primeiro) e tu termina o livro desejando ler mais da escritora.

    Então vejo que o problema está nisso, em partes: um cuidado melhor nos livros que são publicados. Tem muito livro nacional que só precisa de uma “mãozinha” para ficarem bons.

    Responder

Leave a Reply

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>