Desventuras em Série Vol.4 – Serraria Baixo-Astral

Estou devendo minhas resenhas sobre Desventuras em Série e a notícia de que a Netflix vai produzir uma série baseada nos livros foi o incentivo perfeito para voltar a falar dos órfãos Baudelaire por aqui.

Título: Serraria Baixo-Astral

Título original: The Miserable Mill

Autor: Lemony Snicket

Ano de publicação: 2002 (primeira edição de 2000)

País de origem: Estados Unidos

Tradução: Carlos Sussekind

Editora: Cia das Letras – 174 páginas

Violet, Klaus e Sunny estão agora sob nova tutela: Senhor (sim, apenas Senhor) é dono de uma serraria. Em troca de proteção (Olaf ainda está atrás dos órfãos), as crianças terão que trabalhar serrando madeira e viver sob condições lamentáveis. Uma crítica pesada ao capitalismo e ao sistema de opressão e abuso sob o qual vivem os trabalhadores.

Serraria Baixo-Astral era provavelmente meu livro menos querido da série. Até que parei para pensar um pouco mais sobre ele e vi o quanto a crítica que ele faz é brutal. Quem leu o artigo 5 coisas que você deveria saber antes de começar a ler Desventuras em Série sabe que o narrador é irônico e que cada livro faz uma crítica a uma camada ou segmento da sociedade.

Muita gente reclama que Desventuras em Série sempre começa do mesmo jeito: os Baudelaire encontram um novo tutor, esse tutor é péssimo, eles se metem em confusão, Conde Olaf aparece e os Baudelaire têm que ir embora. No entanto, esse mecanismo é usado para reforçar o quanto vários segmentos da sociedade são incapazes de proteger as crianças e cometem sempre os mesmos erros!

Em Mau Começo, a crítica foi ao sistema de herança; A Sala dos Répteis critica a polícia; O Lago das Sanguessugas vai falar do quanto nossa sociedade é limitada por conta de medos. Dessa vez, o assunto é o capitalismo.

Na Serraria Baixo-Astral ninguém é pago em dinheiro, é pago em chiclete. Eles podem trocar chiclete por outras coisas, dentro da própria serraria, mas nunca podem sair pois sua moeda não vale nada no mundo lá fora. Parece absurdo, mas não podemos esquecer que existem sim na nossa realidade patrões que pagam seus trabalhadores em cupons, criando um trabalho escravo moderno. Então não, Desventuras em Série não está sendo surreal.

Senhor, o dono da serraria, só se importa com dinheiro. Tanto que seu nome não importa, apenas seu título, Senhor. A relação de hierarquia é inquestionável. Seu capataz, Flacutono, acata suas ordens sem pensar duas vezes, aplicando castigos aos trabalhadores e impondo a ordem custe o que custar.

Os órfãos ficam chocados com o que são obrigados a fazer e viver na Serraria, mas não têm escolha pois Senhor é o tutor deles. Eles fazem contato e até uma certa amizade com Charles, sócio de Senhor, mas este não possui força de vontade ou pensamento crítico suficiente para impedir o que está acontecendo. Charles é a mostra de que quando somos passivos, apolíticos e indecisos causamos tanto mal quanto homens como Senhor.

Outra figura importante é Phil, o trabalhador alienado que acredita que Senhor está lhe dando uma chance na vida e que chicletes não são assim tão ruins. Seria muito pior não ter nem chiclete, né? Phil é um home bom, mas sua alienação e ingenuidade são exploradas por Senhor a fim de acalmar os outros trabalhadores e impor sua vontade através do exemplo de “olha só como Phil está feliz, gente. A Serraria é um ótimo lugar para se trabalhar!”.

A trama de Serraria Baixo-Astral envolve também um mistério, claro. Ao lado da serraria temos um consultório de oftalmologista e depois que Klaus vai lá, volta bem estranho. Acidentes bizarros acontecem no local de trabalho e os Baudelaire precisam ir em busca da verdade. Quem será Conde Olaf disfarçado dessa vez, hein?

Serraria Baixo-Astral é um livro muito mais interessante do que parece inicialmente. Numa segunda reflexão, me fez pensar no quanto somos negligentes com a situação da exploração de trabalho no mundo e seus danos materiais e psicológicos. Será que não agimos como Charles, não fazendo nada e perpetuando uma situação deplorável?

Pensemos sobre isso.

Curiosidades:

  • Na edição especial, o livro ganhou o subtítulo de Hipnotismo! (ilustração no post)
  • O nome da oftalmologista, Georgina Orwell, é uma referência a George Orwell, autor de 1984, uma distopia sobre controle e opressão da classe trabalhadora.
  • Charles é uma referência ao personagem Charles do livro O Último Povoado da Terra. Esse livro também se passa numa serraria (mas completamente diferente dessa) e Charles seria um link entre o capitalismo e o socialismo.

Não se esqueçam que tem Promoção de Aniversárío no blog!

promo-final
Clique para participar!

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

One Response to “Desventuras em Série Vol.4 – Serraria Baixo-Astral”

  1. Gente, eu li esse livro, mas nunca parei para pensar nessas coisas todas. Claro que relacionei o nome de George Orwell, mas acho que parei por aí. Ainda não terminei de ler as treze desventuras, então agora com certeza vou prestar mais atenção. Adorei o post.

    Responder

Leave a Reply

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>