O Conto da Aia [The Handmaid’s Tale]

Imagine que você, uma mulher, vai fazer uma compra no supermercado e descobre que seu cartão está inoperante. Mas não só isso: sua conta no banco não existe mais. Você não tem mais emprego. Nem seu registro de dona de um carro ou apartamento. Todos eles foram passados para seu pai ou seu marido. O que você vai fazer? É isso que acontece em O Conto da Aia.

Título: O Conto da Aia

Título original: The Handmaid’s Tale

Autor: Margaret Atwood

Ano de publicação: 1985

País de origem: Canadá

Tradução: Ana Deiró

Editora: Rocco – 368 páginas

Uma distopia brilhante sobre um regime teocrático fundamentalista que transforma os Estados Unidos na República de Gilead, um lugar onde a Bíblia é seguida ao pé da letra e as mulheres não têm voz.



Margaret Atwood é uma das minhas escritoras favoritas. Tão favorita que eu fiz meu mestrado sobre dois livros seus, Oryx e Crake e O Ano do Dilúvio. O Conto da Aia foi o primeiro romance que li da autora, quando ainda estava na faculdade fazendo uma matéria de literatura canadense e lembro até hoje da sensação de terminar esse livro: WTF? É uma paulada na sua cabeça.

A narradora do livro é Offred, uma aia da República de Gilead. Ela não pode deixar nenhuma parte do corpo exposta, só pode ir ao banheiro um determinado número de vezes ao dia e não pode ler ou escrever. Na verdade, ela não tem sequer um nome. Offred significa “propriedade de Fred”, o homem casado de alto escalão a quem ela serve. Como aia, a função de Offred é ter um filho. Quando a criança nascer, ela ficará alguns meses amamentando, depois a entregará para o casal e seguirá para seus novos senhores.

Isso tudo seguindo a Bíblia. Sim, porque de acordo com a Bíblia, Abraão teve um filho com sua aia e escrava, Hagar, com o consentimento de sua mulher Sara, que era infértil. Portanto a escravidão de Offred é justificada. Se uma aia não engravida, ela é considerada uma não-mulher, ou seja, uma mulher infértil pobre (somente as ricas podem se dar a esse luxo), uma feminista, uma homossexual ou uma viúva. As não-mulheres trabalham em campos de trabalhos forçados nas colônias onde os níveis de radiação são letais.

Nessa distopia, o governo é teocrático, ou seja, baseado em uma religião (no caso a cristã), e fundamentalista, não aceitando, assim, outras formas de pensamento. Livros, revistas, músicas. Tudo destruído. Não existe sistema jurídico. Qualquer um que desobedeça a lei é morto e pendurado em muro da cidade para apodrecer.

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Mas Offred conta sua história. Em seu diário clandestino, ela escreve sobre sua vida miserável, mas também sobre sua vida anterior: quando era casada e tinha uma filha. Em meio à história do presente e do passado, o leitor começa a entender melhor os horrores da República de Gilead e de qualquer Estado que haja dessa forma.

Porque não, não estamos distantes da distopia de Atwood. Quando discuti esse livro em sala, naquela aula anos atrás, uma colega disse que o livro era “impossível”. Impossível? A professora então nos lembrou da situação no Irã, onde as mulheres sofreram exatamente isso: perderam suas posses, seus empregos e tiveram que se sujeitar a um Estado que regulamenta suas vidas, tirando delas qualquer voz. Se você acha que estou exagerando, leia Persépolis, de Marjane Satrapi, um relato dessa experiência totalmente baseado em fatos em reais.

O que me lembra do Estatuto da Família defendido por nossos deputados no Congresso. É esse tipo de ação que leva ao fundamentalismo religioso e a grandes interferências no estado. A literatura pode nos falar e nos fazer pensar em nossa realidade. Mesmo aquelas que parecem completamente “impossíveis”. O Conto da Aia é um livro assustador. Do mesmo jeito que 1984 é. Ele poderia ser real. Podemos imaginar nosso governos fazendo uma coisa dessas.

Um clássico da literatura de língua inglesa, O Conto da Aia é lido e analisado em universidades do mundo todo ao mesmo tempo que é um bestseller. Offred e sua busca de identidade através do ato de contar sua própria história é o que nós humanos fazemos sempre: inventamos a nós mesmos para sobreviver.

“A sanidade é um bem valioso: eu a amealho e guardo escondida, como as pessoas antigamente amealhavam e escondiam dinheiro. Economizo sanidade, de maneira a vir a ter o suficiente quando chegar a hora.”

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

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