Precisamos mesmo de mais um Harry Potter?

A notícia sacudiu o fandom: Harry Potter e a Criança Amaldiçoada é uma continuação do epílogo de Harry Potter e as Relíquias da Morte. A notícia, que a princípio parecia um grande fake, foi confirmada e J.K.Rowling vai mesmo lançar uma peça teatral dezenove anos depois. Mas será que precisamos mesmo de mais um Harry Potter?

Antes que venham as pedras: todo fã de uma série já terminada sente falta daquela época áurea em que os livros ainda estavam sendo lançados. Sentimos um misto de alegria e tristeza com o final de uma saga e sabemos no fundo do coração que nada vai substituir aquela longa expectativa entre um livro e outro, as noites acordadas brigando discutindo na internet e as teorias malucas. Acreditem, eu sinto falta de tudo isso.

Harry Potter foi marcante e essencial na minha vida. Eu vivi, respirei Harry Potter durante quase uma década. Escrevia fanfic, era membro ativa em fóruns, fiz amigos por causa dessa série que até hoje estão aí. Se eu tenho uma certa nostalgia? Sim, tenho. Frequentemente. Mas isso não significa que uma continuação tenha que existir.

O epílogo é possivelmente a parte mais dispensável de Relíquias da Morte. Eu não enxergava isso na época, louca desesperada para saber os mínimos detalhes, mas hoje, com uma visão mais crítica, vejo que aquilo era desnecessário como livro. Podia ter aparecido no Pottermore ou em alguma outra fonte. Mas seria um livro mais redondo caso tivesse terminado com o trio se desfazendo da Elder Wand.

Agora teremos o epílogo do epílogo. Uma história sobre pai e filho, Harry e Albus, e seus dilemas de lidar com o passado. Precisamos mesmo disso? Não basta o monte de informações que tivemos no epílogo + Pottermore? Será que não basta mais a nossa imaginação? Aquilo que nós leitores podemos criar?

Eu às vezes gosto de imaginar Harry, Ron e Hermione se reunindo para tomar chá num domingo, rindo de qualquer besteira, relembrando alguma piada dos tempos de Hogwarts. Não preciso saber se eles são ricos, se seus filhos têm problemas na escola, se eles pagam impostos. Na minha imaginação, eles podem ser o que eu quiser. Porque antes de tudo, eles foram meus amigos também durante anos.

Sempre defenderei o poder do leitor de criar junto com o autor. Mas se temos cada vez mais detalhes pós-livro ou mesmo novos livros, esse poder vai sendo um pouco minado. Claro, existem os fãs que vão sempre querer saber a cor da cueca que o Harry usou para derrotar Voldemort e com quem que o bisneto do Neville Longbottom se casou. Para esses nunca haverá consolo. Mas e para o resto?

Eu espero sinceramente que a peça (que será dividida em duas partes) seja boa. De verdade. Espero que acrescente algo em termos de literatura, não apenas satisfaça a curiosidade de fãs. Que tenha um bom roteiro, boas atuações e caracterizações, que faça alguma diferença. Que não seja somente um epílogo do epílogo.

Vocês podem encontrar mais informações no site oficial aqui.

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

12 Responses to “Precisamos mesmo de mais um Harry Potter?”

  1. Mel, eu adoro esses teus posts, sabia?
    Concordo contigo: sinto falta de Harry Potter, da época, das leituras, esperas, teorias, das pessoas, da emoção de ler um novo livro. É nostálgico. Mas o livro fechou uma história e pronto (e sim, realmente, em termos literários, não precisava do epílogo – a cena do trio se livrando da varinha tinha um impacto muito maior).
    De coração: eu não sinto curiosidade de saber mais. Não sinto que preciso saber sobre os filhos do Harry ou sobre como ele, o Ron e a Mione estão pagando as contas e vivendo. Gosto de como a saga terminou, da aventura que tivemos. E foi isso.
    Fico meio chateada também porque a JK fugiu da própria palavra. Na época, ela disse e repetiu que não iria mais mexer em HP, que não contaria as histórias dos filhos. E agora ela vai e faz isso. É um tanto decepcionante.
    Obrigada por fazer as perguntas difíceis!
    Beijos!!!

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  2. Oi, Mel.
    Eu sou sempre tão mal informada que nem sabia nada sobre essa série, mas acho que pode ser uma coisa boa, desde que respeite aquilo que a autora deseja!! Se ela tiver algum tipo de participação na criação dessa nova história, então para mim está ótimo!!! rs…
    Beijos
    Camis

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  3. Foi uma época boa: ainda lembro da loucura que foi quando o último livro foi lançado, de como eu insisti para ganhar antes do Natal.

    E, apesar de entender o seu ponto sobre deixar para o leitor imaginar, discordo sobre mais um Harry Potter ser desnecessário. Não que ele seja absolutamente necessário e que os fãs vão morrer se não houver, mas ainda assim acho interessante: uma continuação, se bem feita, não precisa suprimir nossa imaginação. Pelo contrário, ela pode expandir o mundo e nos dar ainda mais elementos para alimentar nossas mentes curiosas (mas sou suspeita para falar, já que adoro spin-offs).

    E, se pensarmos bem, há algumas coisas no mundo de Harry Potter que dariam boas histórias. Outro dia vi um post (não lembro onde) que falava sobre o fato de os nascidos trouxas da era atual não quererem deixar o Wi-fi, e que então, cedo ou tarde, haveria Wi-fi em Hogwarts (e a mistura gradual do mundo trouxa com o bruxo renderia um assunto interessantíssimo, especialmente poucos anos depois da morte de Voldemort e sua campanha anti-trouxas).

    Enfim, espero que a peça faça sucesso (e que um dia fique acessível a todos os fãs, mesmo que em formato de livro ou filme), assim como o filme sobre Newt Scamander, e que ambos estejam à altura do esperado pelos fãs.

    Abraços!

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  4. Não tem ninguém nesse mundo que odeie tanto aquele epílogo como eu. Odiei no mesmo dia em que li, achei totalmente desnecessário. Depois de um tempo, eu me acostumei com ele e vivemos em paz, cada um no seu canto. Já reli duas vezes a série e, na última vez, decidi que não leio mais o epílogo. No filme, a gente até vai deixando lá mesmo e acaba vendo, mas ainda torço o nariz pros nomes dos filhos de Harry. Agora vai ter continuação. Não preciso dizer o que eu acho disso, não é? Vou dizer outra coisa: cadê o livro dos marotos? Cadê o livro de Dumbledore? Muito mais interessante que um livro sobre Albus Severus e James Sirius Potter, francamente.

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  5. Arthur Medeiros

    Sabe que eu discordo completamente? Rsrs.

    Logo respondendo o que outro comentário questionou lá em cima, a J.K. Rowling nunca prometeu que não continuaria. Na realidade, o discurso dela, desde o começo, foi “nunca diga nunca”. Muitas vezes ela disse que não poderia dizer que nunca escreveria, mas que sentia que a história de Harry estava contada. Por vezes, ela disse que às vezes pensava nos acontecimentos posteriores e que sentia uma certa vontade de escrever, mas que não faria isso a não ser que tivesse uma história muito boa e na qual acreditasse. Portanto, ela não tinha como decepcionar ninguém nesse quesito.

    E o que aconteceu foi exatamente o que ela havia dito, surgiram histórias que ela achou suficientemente boas para saírem do papel. Afinal, fazem 8 anos desde o lançamento de Relíquias da Morte, tempo em que ela escreveu diversas outras coisas (também sucessos), então não se pode dizer que ela está desesperadamente tentando esticar ou que não deveria ou tentando arrancar mais dinheiro da fonte.

    Em vez de apenas nos informamos através de matérias de outros veículos sobre o assunto, é sempre bom ver o que a própria autora está dizendo. Quem a acompanha nas redes sociais ou leu entrevistas dela sobre o assunto sabe como as duas novas histórias do universo HP vieram a ser concebidas.

    Fantastic Beasts: A Warner sempre teve o intuito de adaptar Animais Fantásticos, inicialmente a ideia era fazer um filme em forma de documentário, que acompanhasse as descobertas de Newt Scamander sobre o animal mágico. Mas ao ser consultada, JK teve uma ideia melhor. Conseguiu visualizar o personagem participando de uma trama própria e escreveu por conta própria uma versão do roteiro, o qual a Warner aceitou sem pensar duas vezes. Agora temos uma trilogia chegando por aí, que vai expandir o universo bruxo, tanto temporalmente, quanto geograficamente.

    Cursed Child: Uma citação da própria autora pode esclarecer isso: “Esta história só existe porque o grupo certo de pessoas uniram-se a uma ideia brilhante de como representar Harry Potter no palco”. JK Rowling foi abordada pelos atuais diretores e roteiristas da peça com a ideia de como e porquê trazer Harry para os palcos, e somente e apenas por ter ficado realmente interessada no que os dois propunham, ela finalmente aceitou a realização da peça (ela já havia sido oferecida peças que teatralizavam Harry diversas vezes antes, e recusou todas). Além disso, Jo bateu várias na tecla de que existe um motivo muito específico para essa nova história de Harry estar sendo contada neste exato formato (teatro) e que ela espera que todos entendam isso ao assisti-la. A minha opinião é que existe algo de realmente muito especial e importante tanto nessa história como na forma que ela vai ser contada para que ela exista. E nesse caso, tem meu total apoio.

    Para finalizar, não acho o Epílogo desnecessário. Rowling já falou algumas vezes que ele é como um presente/recompensa para o personagem. O Harry do último capítulo de Relíquias ainda está muito impactado por tudo que aconteceu na Batalha, e a escritora queria mostrá-lo recuperado, ela queria dar-lhe o momento de “tudo estava bem”. Certamente, existem leitores que preferem imaginar essa realidade sozinhos, e existem aqueles que gostam de tê-la descrita na sua frente. É uma questão pura e simples de compatibilidade e jamais de “necessidade” ou falta dela. Falar que você preferia ter imaginado tudo sozinha é muito compreensível, mas que o epílogo simplesmente não deveria existir, não. Eu, por exemplo, adorei ler os meus personagens preferidos mais velhos, empregados e com suas famílias, foi gratificante e acalentador.

    Enfim, é isso 😉
    Confio na Jo e estou ansioso pelas próximas histórias,
    tanto as ligadas ao universo HP quanto as que não são.
    Abraços.

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    • Olá Arthur,

      Esse é um artigo de opinião, então ele obviamente foi escrito baseado em notícias que li online e em declarações da própria J.K.Rowling. Inclusive, as pessoas são livres para concordar ou discordar do que escrevi.

      A questão é que não acredito que autores sejam a melhor fonte para falar de seu trabalho. Talvez seja herança de ter estudado literatura a vida inteira. Quanto ao epílogo, essa história de “presente” para o personagem só reforça minha ideia de que ele é desnecessário. A história em si deve, pelo menos dentro do que eu acredito, deve ser sempre mais importante que sentimentos do autor em relação à sua própria escrita. E como crítica literária, Harry Potter e as Relíquias da Morte teria terminado melhor com Harry jogando a Elder Wand fora, independente de Harry estar ainda traumatizado ou não (ele provavelmente ficará com marcas disso a vida inteira, então…). Eu não acredito que literatura deve ser acalentadora. Mas de novo, essa é minha opinião. Pra mim literatura sempre deve ser provocação.

      Eu não estou torcendo pra essa peça ser ruim, pelo contrário. Como deixei no texto, espero que ela seja boa e que tenha algo a acrescentar mais do que matar um saudosismo de fãs.

      abs

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      • Pra mim HP é intocável.
        Nunca, repito, nunca mais haverá a mesma magia, a mesma empolgação. Eu cresci com o harry, foi mágico, por um momento na vida acreditei que magia podia existir, e isso fez com que eu crescesse um adulto sonhador. Mas os tempos mudaram, guerras, corrupção, o mundo está sem amor, o mundo está gelado demais para receber harry potter, os fãs cresceram, um adulto não consegue sentir a magia dashistorias como as crianças, hoje elas só pensam em namorar e fazer festa. Nossa era morreu, Hp não despertará mais a mesma emoção. Aquilo acabou, continuar a história é como escrever no quadro com uma faca, não terá cor, apenas garranchos de uma época linda e fantasiosa. Eu lembro até hoje como era ler um livro de Hp ou ver um filme. Aquilo nós nunca mais teremos e demorará décadas para que nossas crianças tenham o mesmo, pois o mundo destruiu a infância, infelizmente…

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