Um livro pode mudar uma vida?

Essa é uma pergunta que escritores, críticos e leitores tentam debater há séculos. E ela envolve pensar profundamente sobre algo muito básico, mas muito complicado: pra que serve literatura? Mas bem, vira e mexe encontramos gente dizendo que livros mudaram suas vidas. E eu pensei: bem, algum livro mudou a minha vida?

E não é que a resposta foi sim?

Vamos lá. Essa deveria ser uma pergunta mais óbvia para eu responder, afinal, sou escritora. Sou blogueira literária. Sou futura doutoranda em Estudos Literários. Então é óbvio que livros mudaram a minha vida. Eles me deram uma carreira nas letras. Mas eu sempre pensei que se eu um livro tivesse que mudar minha vida, então teria que ser num sentido muito pessoal.

Um livro que muda vidas é um livro que te faz pensar diferente, que te faz agir diferente. Bem, vários livros tiveram esse efeito na minha vida. Mas eu queria pegar um, aquele que me fez levar um tropeço na vida e começar a ver tudo de uma forma que eu nunca vira antes.

E não, esse livro não foi Harry Potter.

Foi As Brumas de Avalon.

Esse foi o livro que mudou minha vida. Quando peguei essa saga em quatro volumes para ler, recomendada por meus pais, eu tinha 14 anos. Eu amava fantasia, queria ser escritora, queria livros que me fizessem pular da cadeira de tensão e me deixassem acordada à noite lendo e lendo.

Bem, As Brumas de Avalon fez tudo isso. Mas de um jeito de diferente. A narrativa lenta me envolveu de uma forma que livro nenhum tinha feito até então e aquele cenário arthuriano clássico me deixava curiosa, senão hipnotizada. Mas tinha alguma coisa diferente naquele livro. Demorei um tempo para perceber o que era: mulheres demais.

Isso, As Brumas de Avalon tinha mulheres demais! Foi o primeiro livro que li em que as mulheres eram as protagonistas numa trama de fantasia clássica. Mulheres corajosas, covardes, heroínas, vilãs, poderosas, oprimidas, mulheres de todos os tipos! Isso me mostrou possibilidades como leitora que até então eu nunca tinha pensado: sim, era possível ter fantasia com mulheres. Era possível ter uma história só com mulheres. E, caramba, não é que eu era uma mulher também?

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Isso foi uma revelação na minha vida e acho que nunca chorei tanto lendo um livro como chorei no final de As Brumas de Avalon. “Em Avalon elas vivem para sempre”. Todas aquelas histórias de mulheres tão reais, só esperando para serem trazidas à tona.

Esse livro é responsável pelo que faço hoje. Em vários sentidos. Me fez perceber que é preciso sim representar a diversidade na literatura. Eu me percebi mulher lendo As Brumas de Avalon. Então que tenhamos mais livros com mulheres. E não só mulheres: outras minorias também. Não há sentimento de empoderamento maior do que abrir um livro e sentir que ele também conta a sua história.

Okay, Marion Zimmer-Bradley é uma figura controversa, nebulosa e até mesmo criminosa. Sinceramente, nunca li outros livros seus. Acho que nem vou ler. Mas devemos separar autores de suas obras e reconhecer que uma vez escrito, o livro é do leitor.

E vocês? Que livro mudou a vida de vocês? Convido vocês a compartilharem suas histórias de reconhecimento e mudança! Use a hashtag #OLivroQueMudouMinhaVida que eu retuíto e compartilho na página do blog.

Melissa é escritora, blogueira e fica hiperativa com açúcar. Tem contos publicados em antologias das editoras Draco, Buriti e Cata-vento além de trabalhos independentes na Amazon. É autora do livro infantil A Última Tourada.

http://mundomel.com.br

 

2 Responses to “Um livro pode mudar uma vida?”

  1. Marion Zimmer Bradley marcou duas gerações de mulheres. Com certeza, me marcou pelos mesmos motivos citados. E marcou não só as mulheres, mas também os homens.

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